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21.6.13

Algumas coisas tiram o sono

Fui provocado, por motivos que não convém explicar aqui agora, a escrever sobre os personagens que aparecem em contos no blog Milleunivers. Por diversos motivos, topei. No pouco tempo que tenho tido para escrever. Está aí...

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Algumas coisas tiram o sono. Para algumas pessoas não é difícil perder o sono, na verdade. Não ele. Ele dificilmente fica sem dormir, a menos que algo abale profundamente seu espírito. Ainda que seja íntimo do sono, seus sonhos flutuam, perdido na pólis de concreto, perdido, passeando entre prédios, armações de aço e vidro, pessoas, vidas, passados, presentes e futuros. Sonhos que embalam o repouso de seu corpo. Um arranjo permanentemente onírico bem organizado, com o qual vivia em perfeita harmonia espiralada sobre si. Mas naquela semana... já estava há 2 dias em vigília, vagando pela cidade...
Não por toda a cidade, apenas por aquelas ruas. Saía de casa, para lá ia, com qualquer desculpa frágil, ver uma loja ali por perto, comprar um presente pra prima (a quem não via há um ano), era caminho mais rápido, ou mais fácil, ou mais curto. Ia trabalhar, só um corpo presente executando algumas ações mecanicamente memorisadas e voltava para lá. De noite sentava em algum bar por ali, mas apenas em bares com mesas na rua ou junto a grandes janelas para a calçada. E vagava de um para outro bar. Tudo porque, apenas parcialmente conscientemente, esperava vê-la, atravessar novamente seu caminho, flagrar novamente a poesia em seus olhos.
Mas não... nada... já começava a tarde do terceiro dia desde que a viu. Desde que se toparam num café, ou num bar, ou qualquer coisa assim (estava meio bêbado), desde que o rosto dela foi tatuado em sua retina. Desde que sua atitude meio confiante, meio insolente, apregoou-se na sua.
Mas não! Porque raios achava que tinha alguma chance de cruzar, fortuitamente de novo com ela nessa imensa cidade?
Mas os acasos, ainda que não sejam por acaso, acontecem... mesmo nas grandes cidades.
Almoçou em qualquer canto. Nem sentiu direito o gosto da comida. Já desanimado, desesperançado.
Amuado sentou na amurada de concreto daquele largo espaço da espaço da avenida. Ali por onde muitas pessoas passam. Passam executivos, bem vestidos em seus ternos alinhados, passam hippies, góticos, emos, uns de branco, outros de preto... passam casais, apaixonados, brigando, brincando, passam apressados e vagarosos, determinados e perdidos, passam turistas da cidade e da vida e passa... ela! Passa ela! Sim, certamente! Viu de longe, mas jamais confundiria aquele corpo suave e enérgico, aqueles passos leves mas vigorosos!
Uma paralisia percorre todos os seus músculos! Não consegue se mexer e tem consciência disso! Uma tensão do corpo para frente mas sem mexer uma articulação sequer! De súbito veio-lhe na mente a imagem de uma grande caravela do século XVI afundando em uma tormenta. Homens e mulheres correndo para pequenos botes enquanto o navio parte ao meio! Um homem de longa barba paralisa enquanto vê sua amada escorregando por um lado e sua centena de páginas de escritos indo para a água pelo outro. Não podia acreditar que estava tendo um delírio com Camões enquanto ela estava lhe escapando!
Saltou de sua pasmaceira e correu atrás dela. Maldita multidão infernal que ocupa essa avenida diariamente! Corria esquivando-se por entre transeuntes completamente alheios a sua angústia. O sinal abriu e ela teve que parar! Ele parou junto, bem atrás dela. Esbaforido, recuperando o fôlego. Quando ela foi começar a andar ele a segurou delicadamente pelo ombro. Seus negros cabelos escorregaram pelo espaço até que aqueles dois pares de olhos castanhos se fitassem.
Alguns segundos, mas daquele tipo que provam a teoria de que o tempo é relativo. Talvez ela tenha percebido que ele estava incapaz de falar...
- Oi rapaz! Que bom te ver de novo!
- Estive te esperando!
- Também pensei em você!
- Eu SÓ pensei em você!
- O que você vai fazer agora?
- Não sei! Só estava te procurando!
- Acho que merecemos uma cerveja!
- Seria lindo!
- Você é uma graça! Acompanha-me?
- Sem dúvida!

A cena seguinte já é outra história.....

18.9.11

Um momento


No barco, um churrasco. Ao menos um dia de descanso! Além de carne, banana. A embarcação vai adentrando na selva, que deixa um caminho cada vez mais estreito. Mas não, a margem não estava ali do lado! Não era possível ver margem, apenas selva.
Por fim um calmo braço de rio junto a uma comunidade ribeirinha. Um banho, uma tentativa de lavar aquela dor. Na comunidade um menino… fraco, magro, desnutrido… a comida não obedecia a sua boca rachada… ali talvez morresse de fome. Na cidade grande uma simples cirurgia talvez lhe garantisse uma vida longa e bela… Nem no descanso há descanso por aquelas terras, pelo menos não aos que lhe são estranhos e sensíveis.
O retorno é lento, contra o fluxo do rio… Finalmente caímos em um leito largo. A samaúma reina ao longe. Eis que vários botos surgem acompanhando nosso lento navegar, cristas que despontam em marolas. O sol vai se pondo, dourado, alaranjado, avermelhado, resfriando-se no rio à nossa frente. Mas às nossas costas, seguindo o movimento dos viajantes, uma grande lua cheia prateada emerge das águas marrons.
Não, não estávamos mais sob a luz crepuscular, tão pouco sob a luz do luar. Não, não eram botos. Não, não eram nossos corpos lavados pelo rio. Era outra coisa. Uma composição única. Uma pintura feita às pressas, dedilhada nos detalhes. Sentados no teto do barco, contemplando, sentíamos o acontecimento atravessar-nos… só o choro nos restava.

23.8.11

Ruínas?


Há tempos querendo escrever alguma coisa. Avançando na construção de estados mentais que propiciem tal atividade…
Aí vai um acontecimento que vem retumbando na cabeça…
Na verdade esse texto está pronto faz tempo...

Foram dias sombrios, dias de pouco sol. Nuvens, sombras, chuva. Vez por outra um frágil raio solar dava a esperança de um dia mais contente. De verdade, não havia a menor expectativa que isso acontecesse no espaço de alguns dias. Nada no ar dava a entender isso. Lembro bem de épocas em que passamos semanas sem uma trégua na garoa.
Mas o ar mudou, o vento mudou e, naquele dia, tão aguardado, tão esperado, tão preparado, as nuvens foram varridas. Um inusitado céu azul fez com que respirássemos fundo e pensássemos, cada qual em seu canto da cidade, hoje será um dia especial, um dia-acontecimento!
A despeito dos temores e na alegria das incertezas, foi!
As ruínas, naquela parte alta do bairro, contrastam fortemente com a tarde ensolarada. Paredes quase caídas, grandes muralhas que delimitam um espaço de sobrevivência. Sobre a vivência em um estigma, ou vários. Em preconceitos, em dores, em violências. Os aldeões daquele castelo, ali, estão dentro, apesar de estarem fora de tudo o mais que poderia acolher-los no mundo.
E eis que corpos alienígenas violam a segurança da aldeia. Tem um fora querendo entrar, querendo colocar para dentro. Olhar uma vida que pulsa onde quase todos supõem que ela não exista. Onde há pessoas assustadas, ressentidas, esperançosas, que amam e que odeiam.
O rapazote que recebe aos visitantes com a cara fechada. Não tem porque achar que se levará algo de bom deste inusitado encontro! Seu corpo reage. Violentamente trata os objetos, grosseiramente fala com seus colegas. Xingos, exclusão. Desconfiança.
“Sai daqui muleque burro!”
Mas o sentido daquele momento era outro. Mesmo a repreensão é um convite.
“Opa! Que letra é essa que você tá mandando aí?”
“O quê?”
“Isso aí! Xingando ele, mandando ele embora! Tem disso aqui não! Deixa ele entrar.” E os olhos diziam, “vem, entra você também!”
Desconfiança… atravessando… rodeando… Homens e mulheres, olham de longe uma roda que começa a se formar. Pessoas estranhas, com instrumentos. Delicada sonoridade quase estranha. A roda também é formada com desconfiança. Também corpos acostumados ao preconceito e à exclusão. Alguns sinais produzem algum comum e também o rumor dos guetos que se cruzam. Narizes feridos.
As tintas, as cores, atraem as crianças e logo os jovens. O agressivo rapaz pouco tem a fazer a não ser acompanhar o movimento. Quando chega então uma palavra amiga. Companheira. Vizinhos que até então pouco se olharam e agora se flertam em compaixão e admiração. Uma dupla que não se desfaz até o fim do dia, agressividade transtornada, transformada pelo carinho. Paixão pela vida transborda, a música invade o corpo e de repente o rapazote mostra como o surdo faz-lhe bem ao responder aos carinhos duros de suas mãos já calejadas. Por alguns minutos, capturado pela lógica que deixa a violência de fora, sua mestre, descontraidamente insiste, “olha aí! Você consegue! Manda bem pra caramba! Aparece lá pra tocar com a gente!” POW! Que bolha explode nesse segundo!
A moça declara-se no muro! Seu companheiro pinta um sonho e sobre ele retribui o carinho. Os filhos andam pela terra, comem a terra! Brincam com as tintas, redescobrem as cores, rostos manchados. Mesmo o carinho nessa família é duro. Mas é carinho. Um amor agressivo, a que um olhar pouco atento apreenderia apenas violência e tristeza. Mas há alegria! Vejam que há! O pai briga com a mulher porque o menino desperdiça a tinta e joga o lixo no terreno vizinho, em seguida confessa, não sei fazer diferente! A mãe responde carregando a pobre criança suja pelo braço, seu olhar diz amor, suas mãos provocam dor. Duro paradoxo.
Outro apenas observa o movimento, vê brotar, dentre os seus, alegria que outrora tivera em sua terra. Mal sabe dizer como, mas seus dedos retratam com precisão imagens imaginadas e vividas, de repente vívidas nos muros de uma ruína.
E eis que as tintas invadem o sorriso maroto do homem desprezado até dentre seus pares. Interagir com a pessoa homem é difícil, mas as tintas suavizaram-lhe a expressão e de repente lá está ele pendurado, marcando o mais alto lugar que pudera alcançar! Afirmava vida, afirmava “eu moro aqui”, para quem quer que quisesse enxergar!
Não… ali não havia teto, tão pouco janelas, as portas apenas separavam os quartos improvisados do pátio comunal. Pátio que agora sambava, recheado de outra estima! Alguns dizem que um incêndio levou tudo, outros maledizem ao proprietário, que fracassadamente teria retirado tudo para evitar “invasões”, outros que os próprios moradores teriam arrancado qualquer coisa que pudessem vender (e aí alguns diriam que para comprar comida e outros para comprar drogas). Restaram as paredes.
Pouco me importa os motivos. Sei que naquele dia-acontecimento furamos janelas invisíveis, feitas de aço! Não, não entramos pela porta. Esgueiramo-nos pela fresta aberta e a escancaramos… quiçá tal rombo feito jamais volte a se fechar. Pois ali, vida e dignidade estão explodindo e pedindo passagem.

19.1.11

A vida insiste em perseverar

A vida insiste em perseverar. É isso. E nós insistimos em perseverar a vida daquilo com que nos identificamos. Explicação simples.
Estamos vendo, nesses tempos, as grandes tragédias ocorridas no Rio de Janeiro. Há que se escrever sobre isso e tirar alguns argumentos da boca de jornalistas tacanhos.
Tragédia Ecológica? Isso é um tragédia política e social, isso sim! Não há dúvidas que fúria das águas e da lama se abateria sobre a região não importa o que se fizesse. Não há dúvidas de que haveriam mortos (isso para contra argumentar aqueles que colocam toda a culpa nos governantes). Mas também é importante que se diga algumas coisas. Já se sabia que muitas das áreas ocupadas, urbanizadas, apresentavam risco aos moradores e freqüentadores. Isso era sabido, entretanto, as pressões políticas permitiam as construções. Qual vereador/prefeito não cede mediante a ameaça de retirada de recursos da cidade? (sem contar os esquemas mais corruptos em que a permissão para ficar/ocupar faz circular dinheiro entre os poderosos das cidades) O clientelismo e o populismo ofereciam esses terrenos à falta de moradia. Mas aí também tem sempre aquele que põe a culpa no pobre coitado que ocupou o barranco. Duvido que tenha ido para lá por alguma preferência pessoal, seria mais adequado dizer que "foi parar lá", na falta de outras opções para uma existência digna, sob um teto acolhedor.

Desses absurdos todos que temos escutado nos jornais para explicar, justificar, acusar, culpar etc teve algo que me mobilizou demais. Está relacionado com a reportagem colocada abaixo. Uma senhora se refugia da forte correnteza de lama no terraço de sua casa. Os tijolos ainda por cobrir dá a impressão que é um parte da casa onde ela ainda está investindo algo. Não temos como saber nada sobre o andar debaixo pois já está inteiramente coberto. A água continua subindo. Ela está só, com seus três cachoros, e começa e ver as paredes não terminadas daquele terraço ruirem. Nos prédios vizinhos as pessoas se mobilizem, de um que está próximo à casa lhe é atirada uma corda. Todos gritam orientações para ela. A senhora amarra a corda entorno da cintura. Tenta amarrar o cachorro menor junto, mas não consegue. Então ela o põe de braço do baixo e pula na direção do prédio tendo uma grande tormenta de água, coisas carregadas por esta e lama no meio do caminho. A correnteza era exatamente a de um rio caudaloso descendo uma serra íngreme, nada menos do que isso. Uma cachoeira horizontal. Quem quer que já tenha passado por águas turbulentas assim entende do que estou falando (ainda que ver o video torne esse imaginado algo bastante claro). A câmera mostra os pretensos salvadores, dois homens no terraço do prédio, talvez uns três andares acima da altura em que a mulher se encontra.
Ela salta! O que garantia que eles iriam agüentar? Nada! Ela é grande! A morte está a seu encalço e a única esperança era pular para a possível morte e confiar. Ela afunda na tormenta, a correnteza a leva um pouco para o lado e eles conseguem erguê-la para fora. O cãozinho foi levado, as mãos dela estão vazias. Ela é pesada, o rio é forte, mesmo assim os dois conseguem puxa-la. Não há nada no video que nos faça acreditar que os dois salvadores sejam maiores do que a média dos homens, nem mais fortes, mesmo assim eles a erguem em segurança (não sem grande esforço! Os mais atentos podem ouvi-los gritando, antes de cada puxão, "um, dois, três"). Ela é salva.
Bom, aí o repórter diz que a mulher se salvou por sorte! Sorte do que? De haver uma corda? De ter um prédio do lado? Pois eu digo que a vida insiste em perseverar e nisso explode a potência de cada um em pura coragem e solidariedade! Sorte? Famoso, "eu truco!"
Foi sorte o pai ter encontrado uma fresta na lama onde pudesse proteger seu bebê? Digo que foi coragem ter resistido e ter hidratado o filho com a própria saliva e tranquilizado-o enquanto ele próprio estava ferido e devia amedrontado.
A lógica seria morrer. O corpo e a vida são frágeis diante das intempéries todas que os cercam. Muito frágeis! Mas a vida, em tendo uma chance, menor que seja, insiste em perseverar!