27.8.10

Tantas coisas a escrever. Relatórios e mais relatórios. São tantas contas a prestar a tanta gente. O mestrado caminha a passos de tartaruga. E as histórias vão se acumulando em algum lugar. Por hora vamos a cenas... cenas que são histórias, quem sabe histórias em algum momento se concatenem.



Carro. Carro. Carro. Tec. Todos andam. Tec. Alguns param, outros não. Tec. Todos param. Algum não pára. Eventualmente ocorre a colisão. Alguns metros às minhas costas. Tédio, nunca vejo.
O menino chega com uma caixa de bala. O cego com o chapéu. O rapaz com uma toalhinha encardida. Todos sobre os carros tentando conseguir algum dinheiro. Toda a existência é praticamente a mesma coisa. Vez por outra tem algum evento extraordinário.
Noite. A lua mal ilumina. Homem cabaleia. A calçada é estreita. Roupas sujas. Um pouco rasgadas. Choro. Ela abaixa, fica de cócoras. Soluça. Anda tropeçando.
A moça levanta o vidro. Medo. Outro já acelera, deseprezo. Tec. Todos saem apressados. Medo. Alguns cantam pneus.
Silêncio. Apenas soluços. Cambaleios erráticos ao meio da rua. Sofrimento intenso? Passos insuportáveis. Ele cai, bem abaixo de mim. Tec. Um carro vindo. O homem estirado ao chão. Tec. A tempo.
O sujeito está sob o parachoque.
Gemidos. Soluços. Ele se apóia na roda. Ergue-se. Corpo quebrado. Sujo. Rosto lavado em lágrimas de dor.
Um senhor no automóvel. Ao celular. Um grito.
- Ah! Filha da puta!
Fecha o vidro. Rápido. Avança sobre o infeliz. Tec.
- Polícia! Assalto! Socorro!
Outros carros continuam. Olhares assustados. Movimentos bruscos. Correria atrás de mim.
- Vagabundo! Desgraçado!
O carro parte estridente. O homem fica jogado ao chão. Quase atropelado.
Um rapaz chega correndo. É quadrado. Farda engomada. Ombros largos. Pernas grossas. Cabeça quadrada. Nenhum cabelo. Pára a alguns metros do infeliz. Saca uma pistola. Segura com uma mão. Apóia na outra. Joelhos dobrados.
- Parado! Mostre as mãos! Vamos!! Mostre as mãos! Deita no chão!
Mas ele já estava caído. Mãos? Mal tinha corpo.
O policial avança sobre ele. Ligeiros e precisos movimentos. O corpo balanceia. Gira. Torce. De repente braços para trás. Algemas nos punhos.
- Macedo!
Grita alguém.
- Põe esse vagabundo na viatura logo!
O policial segura na corrente. Um segundo. O homem está de pé. Empurrão. As pernas alternam. Mecânicas. Somem abaixo. Um gemido. Portas batem. Pneus cantam.
O que será do infeliz agora?
Tec. Carro. Carro. Carro.

24.8.10

De causo em causo

Tenho passado por locais, passado por pessoas, passado por momentos.
Sabem, são coisas que merecem ser contadas!
Claro que também tem um quê da minha própria necessidade de escrever e de ser lido. Quem sabe meu exercício mental por aqui não ajuda a desentalar outras coisas a serem escritas e por aí vai...
É a aquele negócio, você só consegue correr uma maratona se correr todo dia!


- Posso me meter na conversa de vocês?
- Ahn?! É... Claro...
Hmmm Um senhor, careca. Sem gilete... podem-se ver brotos de cabelo branco! Uns 50 anos? Saliente barriga não engana. Todo dia uma cerveja. Hoje está com um copo de whiski em uma mão e um cigarro na outra.
Ela enrola, distraidamente interessada um cigarro de palha. Ação rotineira dos últimos anos que não demanda qualquer atenção. Vez por outra passa um desavisado... seria algo ilegal? Talvez ela não perceba os olhares, aguça minha curiosidade.
- É verdade! Esse negócio da proibição do cigarro é foda!
- É! Lá em São Paulo os fumantes foram jogados na sarjeta!
- E ninguém reclama! Estranho!
Ele já está na roda. Fuma tranquilo seu cigarro industrializado, o copo descansa no parapeito da lanchonete.
- Eu não quero nem saber! Ai deles se essa lei chegar por aqui! Respeito quem não fuma sabe, mas não venham me falar o que fazer ou não da minha vida.
Uma garoa. A brisa é demasiado fria. Se fosse ele eu estaria com bastante frio na cabeça. Um carro passa correndo, espirra um pouco de água. De dentro vem um calor. As pessoas amistosamente conversando? O calor de uma apetitosa refeição? Ou apenas o forno e a chapa?
- Essa coisa toda é bem difícil né!
- E vocês três jovens? Fazem o que?
- É... ele é cientista social, ela é enfermeira e eu sou médica!
Ahn? Alguma coisa está meio fora de ordem! Foi proposital! Vou espiar o brigadeiro do caixa da lanchonete para não dar risada! Brigadeiro grande, bonito. To gordo!
- E o senhor?
- Ah! Detesto meu trabalho! Aqueles babacas!
- Ahn?
- No meu trabalho só tem gente escrota, babaca, ridícula...
- Puxa...
- Acho que não veriam alguém morrendo do lado deles!
- Mas...
- Sensibilidade zero!
- É... no que o senhor trabalha?
- Mercado financeiro... Tudo uns bostas!
- Deve ser difícil.
Fico imaginando esse sujeito esganando um no trabalho. "Senhor fulano, pode pegar o...", "Não seu bosta!". Caramba!
- Eu queria mesmo era ser músico.
Acompanhei seu olhar para cima. Parecia estar tentando tirar notas do farfalhar das árvores.
- Sempre há tempo!
- Não é bem assim. A coisa fica bem difícil nessas situações. E não dá mais para praticar. Sabe que minha filha saiu de casa esses dias. Casou. Foi uma alegria. Disse, vai ser feliz minha vida e não deixe que os outros te digam o que fazer. E eu lhes digo, ninguém me diz o que fazer.
Todo dia de manhã ele acorda. Toma um xícara de café, pão com manteiga. Tontamente levanta-se... caminha até o espelho do banheiro. Cospe com raiva. Escova os dentes com força. Os dedos do pé se contraem. Ainda é quarta. Vai ter que encontrar aquele escroto. Está a um pingo de quebrar o nariz dele.
Arrastando os pés vai até a cama. Para alguns momentos de joelhos olhando para uma caixa de madeira que tem embaixo. De dentro dele tira um bloquinho verde escuro, esmigalha uns pedaços. Um pedaço de papel de seda. Enrola tudo em um cigarro. Guarda a caixa e deixa o cigarro respousado na mesinha de cabeceira enquanto troca de roupa. Veste o segundo terno da semana. Só tem dois. É bom que não lhe derrubem café novamente.
Respira fundo. Pega o cigarro entre os dedos. Acende com cuidado. Calmamente atravessa os quarteirões que o levam até o trabalham. Que o levam, levianamente leve a cada passo...
Essa noite vai tomar dois comprimidos a menos para dormir.

28.3.08

Vida

Muitas das postagens mantidas neste blog falam da questão da morte.
A morte, como questão inevitável, linha final de todos os seres viventes, chama bastante a atenção pela carga dramática que costuma conter.
Entretanto, neste momento, em meio a uma aula sobre cartografia do ponto de vista geográfico, coloco um pouco sobre vida.
Não falo muito sobre ela não. Apenas a sinto. Ela flui. Quimica e biologicamente recicla-se. Energeticamente (?) renova-se. Individualmente finita, coletivamente, perene.
Tão, mas tão frágil... um tênue e delicado equilíbrio a mantém. Basta um pequeno dedo para que expire. Não, não falo de uma formiga, falo de todo tipo de vida. Ainda assim tão absurda e espantadora resistente.
Tento pensar em alguma analogia em que possa exemplificar essa dualidade. Impossível. Seria o caso de ficar contando histórias para entendermos... quem sabe em algum momento as escreva.
Acho que professor já está obviamente notando minha dispersão e o som de minha digitação acelerada, randômica, irregular. Parece incomodado com isto. Tudo bem. Cesso. Mas anexo algo que recebi. Ilustra um pouco dessa vida que resiste.

19.3.08

Gestação

Algo está em embrião. Em estágio larvário! Algo está revolto. Crescendo, querendo sair!
Em breve vai parir!
Gestação paquidérmica esta!
As contrações estão começando! Em breve....


Muito Pouco
Maria Rita
Composição: moska

Pronto
Agora que voltou tudo ao normal
Talvez você consiga ser menos rei
E um pouco mais real
Esqueça
As horas nunca andam para trás
Todo dia é dia de aprender um pouco
Do muito que a vida traz.

Mas muito pra mim é tão pouco
E pouco é um pouco demais
Viver tá me deixando louca
Não sei mais do que sou capaz
Gritando pra não ficar rouca
Em guerra lutando por paz
Muito pra mim é tão pouco
E pouco eu não quero mais

Chega!
Não me condene pelo seu penar
Pesos e medidas não servem
Pra ninguém poder nos comparar
Porque
Eu não pertenço ao mesmo lugar
Em que você se afunda tão raso
Não dá nem pra tentar te salvar

Porque muito pra mim é tão pouco
E pouco é um pouco demais
Viver tá me deixando louca
Não sei mais do que sou capaz
Gritando pra não ficar rouca
Em guerra lutando por paz
Muito pra mim é tão pouco
E pouco eu não quero ...

...veja
A qualidade está inferior
E não é a quantidade que faz
A estrutura de um grande amor
Simplesmente seja
O que você julgar ser o melhor
Mas lembre-se que tudo que começa com muito
Pode acabar muito pior

E muito pra mim é tão pouco
E pouco é um pouco demais
Viver tá me deixando louca
Não sei mais do que sou capaz
Gritando pra não ficar rouca
Em guerra lutando por paz
Muito pra mim é tão pouco
E pouco eu não quero mais
Pouco eu não quero mais.
Pouco eu não quero mais.

13.2.08

Prá não dizer que não falei de flores
Geraldo Vandré
Composição: Geraldo Vandré
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantado
E seguindo a canção...

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer...(2x)

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão...

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer...(2x)

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão...

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer...(2x)

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não...

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição...

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer...(4x)


Música simplesmente fabulosa!!! Libertem-se pequenos gafanhotos dos grilhões que prendem suas mentes e almas, que impedem vôos mais ousados e mais arriscados. Só tendo a coragem de enfrentar a possibilidade de ter a cera de suas asas derretidas pelo calor do sol é que se pode voar sobre as nuvens e vislumbrar o mais longe horizonte ou a mais bela paisagem.
Sim! Ainda há gente que acredita! Acredita no mundo e nas belas coisa que cada ser humano é capaz! Coisas belas! Ainda dá pra mudar o final!

11.12.06

Desejo a você...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel...
E muito carinho meu.

(Carlos Drumond de Andrade)

16.10.06

Para não esquecer - Faz 8 meses!

Sonho, contemplação e êxtase
16/2/2006 - 20:31:38

Bruno entrevista morador de comunidade ribeirinha




Bruno Mariani Azevedo

E no sétimo dia Ele descansou. E assim seguimos Seu exemplo. No domingo, o companheiro Marcelo arranjou-nos um barco, comandado pelo solícito Cipriano (já citado aqui) e fomos contra a correnteza, conhecendo o Juruá, o mais sinuoso rio do país. Sentado na traseira do barco, eu admirava a selva, ainda primitiva, intocada. Intocada, mas que estendia seus braços e tocava diretamente nossos corações, conversava com a alma e levava a estados de puro êxtase.

As árvores contavam histórias do lindo e sofrido povo do rio e mais, falava-nos também dos soldados da borracha de Getúlio e até mesmo dos guerreiros do ciclo da borracha do século XIX. Algumas anciãs que precisariam de 3 (ou mais) homens para serem abraçadas.

Viagem bem servida de um delicioso churrasco de carne e banana, méritos de Ten. Reinaldo, Cipriano e Marcelo, além de muito refrigerante e “tubaína” (essa explicação fica pra depois). Delícia. Violão e preciosas companhias.

Tudo já estava muito bom, quando entramos no igarapé Simpatia, até chegarmos ao igarapé Preto, na altura da comunidade Terra Firme. Maravilhoso. Saltos do barco no igarapé, banho, brincadeiras, mas também emoção e comoção de alguns membros da equipe. Como saímos tarde da cidade, acabamos voltando cedo e ficamos relativamente pouco tempo por lá. Tudo era felicidade, só que não nos importamos com esse detalhe.

Já estaríamos mais do que satisfeitos com o dia, mas não foi o bastante. Depois de mais um tempo de viagem sentei sozinho no fundo do barco e meditei, na contemplação de toda aquele dia. Algum tempo depois ouvi alguém passando por mim, descobri que era o amigo Thiago subindo no teto do barco. Grande idéia, companheiro!!! Fui fazer-lhe companhia e em seguida juntou-se a nós o amigo Sérgio. Passamos o tempo admirando todo o cenário, vendo os botos nadarem às margens do rio e delirando em toda magia que se constituía aquela viagem.

Por fim, como se não fosse suficiente, à nossa frente surgiu uma lua cheia que só de lembrar arrepia-me a espinha. Atrás, o sol se punha em um matiz de cores inacreditável! Ambos refletindo-se no rio. O delírio foi total. Exclamações estupefatas vieram de toda a embarcação. Duas explicações surgiram para o que vimos neste dia: no 8° dia, Ele aproveitou-se de seu ócio criativo, deu vazão a todos os seus caprichos e pintou, delicadamente, obras artísticas. A outra fala de um alemão que, certa vez, conheceu a Amazônia, especulava ele que Deus passava o ano inteiro vigilante por todo o mundo, mas que passava férias na Amazônia. Chegamos à cidade ao acender das primeiras luzes noturnas.

Rio, mosquitos, espinhos e beleza Terça-feira estávamos no barco de novo. Thiago, Sérgio, Chico e um agente de saúde subiram o Juruá em uma voadeira (deixarei que eles contem sobre isso). Camila, Cris e eu, junto com mais um grupo de agentes de saúde e sociais e com a equipe da Unioeste descemos o rio em um barco maior. O objetivo da viagem desta vez era, de forma sintética, conhecer as comunidades ribeirinhas e sua situação de segurança alimentar por meio da aplicação de questionários estruturados. Contarei alguns dos casos vistos, não me atendo a todas as questões práticas do dia.

Em Foz do Tarauacá, Camila, o Sargento Bulé, Kassab e dois agentes foram, de canoa, para algumas casas um pouco mais afastadas. Preocupado com a demora deles e com horário a ser cumprido, uma agente e eu entramos na mata para encontrá-los. Uma trilha bem-definida, linda, coberta de lama e espinhos. Lá chegando, encontramos famílias amabilíssimas! Comemos goiabas, alguns deles cruzaram com uma cobra, várias fotos. Na casa uma mãe estava bastante apreensiva com a saúde de seu bebê de pouco mais de 1 mês de vida. Logo que soube que éramos estudantes de medicina, aguardou ansiosa que falássemos alguma coisa sobre o caso. Linda criança! Aparentemente nada de grave, pedimos que assim que possível fosse para a cidade levá-la ao médico. Voltamos à nossa embarcação de canoa. Na comunidade seguinte conheci uma senhorinha muito simpática. Dona Antonia. Dizia ter seus 70 e poucos anos. Contou-me que, quando criança, veio de um lugar longe chamado Reconquista (depois descobri que se tratava de um Igarapé no município vizinho, nada tão longe, mas que dependendo da embarcação e da estação de chuvas em que viajava poderia ter levado muitos dias para ter chego ali). Seu pai buscava melhores condições para a família, já que o ciclo da borracha a que pertenceu havia decaído e a qualidade de vida no seringal piorado muito. Ele morreu pouco depois que chegaram a Eirunepé. Ficaram na zona rural, D. “Antonha” casou-se e teve 16 filhos, dos quais um morreu cedo. Uma parte dos filhos espalhou-se entre a zona urbana de Eirunepé e a capital. A outra parte? Bem, a família daquela doce velhinha rendeu novas gerações e compunha a totalidade das casas da comunidade. Afinal, ela era a mãe de toda aquela comunidade ribeirinha.

LendasNas andanças por essas terras vira e mexe escutamos algumas histórias. Lendas? Quem sabe? A lenda do boto é conhecida em São Paulo. Dizem por aqui que se deve ter cuidado com os botos, visto que as histórias falam como são poderosos seus encantamentos sobre as pessoas. Uns dizem que os encantados acabam parando no fundo do rio, outros contam sobre alguém cuja avó passou mais de 20 anos encantada pelo dito mamífero.

Falam os pescadores e os ribeirinhos que as águas desta região abrigam uma espécie de peixe terrível, o jaú. Tal criatura atingiria grande tamanho e desenvolveria pelos assustadores ao tornar-se velho. Homens desavisados em suas canoas poderiam se engolidos por inteiro pela fera fluvial. Todos devem ter visto/lido nos jornais a grande seca que se abateu sobre a região amazônica neste verão. Eirunepé já sabia que a mesma viria. Certo dia, uma mulher lavava sua roupa à beira do rio, quando virou de costas e um peixe bodó saltou sobre sua tábua de lavar. Assustada com o peixe ela exclamou: “Eita, que bodó danado de feio!”, ao que ele respondeu: “Feia vai ser a seca do próximo verão” e pulou de volta na água.

Os indígenas têm seus próprios costumes e magias. As pessoas da cidade temem o famoso encantamento da pedra, em que o índio tocaria parte do corpo da vítima dizendo que agora a mesma tinha uma pedra e, em seguida, a pessoa logo seria acometida por dores na dita parte do corpo. Da mesma forma um pajé seria capaz de retirar tal pedra com apenas alguns movimentos com as mãos. Assim, também, ele seria capaz de cortar o efeito alucinógeno de ervas como a auasca.

Tormentos
Mais relatos ficam para depois. Ah, sim! Apenas descrever a pior coisa de se estar em Eirunepé. Preciso falar sobre isto visto o tanto que Cris e eu temos penado com tais criaturinhas. Os mosquitos. São de quatro tipos: os piuns, mosquitos pequenos, de picada ardida, que deixa intenso prurido e um botão de sangue. Os carapanãs, também conhecidos como muriçocas, no nordeste ou pernilongos, no sul, a diferença é que os daqui são maiores e além de aparecerem no final da tarde também atormentam o começo de manhã. Por fim o meruim, um mosquito de picada doída, mais encontrado na zona rural. Agradeço por não ter conhecido a mutuca, uma mosca amazônica de picada muito dolorosa pelo o que contam. A volta está chegando e o nossos corações vão apertando, tantas coisas e tantos trabalhos ainda por fazer...

Escrito por Bruno Mariani Azevedo

3.6.06


"Oh! Morte, que alguns dizem assombrosa
E forte, não te orgulhes, não és assim,
Mesmo aquele a quem visastes o fim,
Não morre; não te vejo vitoriosa.
Vens em sono e repouso disfarçada,
Prazeres para os que tu surpreeendes;
E o bom ao conhecer o que pretendes
Descansa o corpo, a alma libertada.
Serves aos reis, ao azar e às agonias,
A ti, doença e guerra se acasalam,
Também os ópios e magias nos embalam,
Como o sono. De que te vanglorias?
Um breve sono que a vida eterna traz,
Golpeia a morte, Morte morrerás."
John Donne

1.5.06

A morte e a fugacidade da vida

"ninguém morre antes da hora. O tempo que perdeis não vos pertence mais do que o que precedeu vosso nascimento, e não vos interessa: 'Considerai em verdade que os séculos inumeráveis, já passados, são para vós como se não tivessem sido'*. Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante. Imagináveis então nunca chegardes ao ponto para o qual vos dirigíeis? Haverá caminho que não tenha fim?", Montaigne, em "Ensaios"

*Lucrécio

11.12.05

Para começar um texto, que já havia postado noutro blog, com o qual me identifico muito...

"Vai...

Para sonhar o que poucos ousaram sonhar.
Para realizar aquilo que já te disseram que não podia ser feito.
Para alcançar a estrela inalcançável.
Essa será a tua tarefa: alcançar essa estrela.
Sem quereres saber quão longe ela se encontra;
nem de quanta esperança necessitarás;
nem se poderás ser maior do que o teu medo.
Apenas nisso vale a pena gastares a tua vida.
Para carregar sobre os ombros o peso do mundo.
Para lutar pelo bem sem descanso e sem cansaço.
Para enxugar todas as lágrimas ou para lhes dar um sentido luminoso.
Levarás a tua juventude a lugares onde se pode morrer, porque precisam lá de ti.
Pisarás terrenos que muitos valentes não se atreveriam a pisar.
Partirás para longe, talvez sem saíres do mesmo lugar.
Para amar com pureza e castidade.
Para devolver à palavra "amigo" o seu sabor a vento e rocha.
Para ter muitos filhos nascidos também do teu corpo e - ou - muitos mais nascidos apenas do teu coração.
Para dar de novo todo o valor às palavras dos homens.
Para descobrir os caminhos que há no ventre da noite.
Para vencer o medo.
Não medirás as tuas forças.
O anjo do bem te levará consigo, sem permitir que os teus pés se magoem nas pedras.
Ele, que vigia o sono das crianças e coloca nos seus olhos uma luz pura que apetece beijar, é também guerreiro forte.
Verás a tua mão tocar rochedos grandes e fazer brotar deles água verdadeira.
Olharás para tudo com espanto.
Saberás que, sendo tu nada, és capaz de uma flor no esterco e de um archote no escuro.
Para sofrer aquilo que não sabias ser capaz de sofrer.
Para viver daquilo que mata.
Para saber as cores que existem por dentro do silêncio.
Continuarás quando os teus braços estiverem fatigados.
Olharás para as tuas cicatrizes sem tristeza.
Tu saberás que um homem pode seguir em frente apesar de tudo o que dói, e que só assim é homem.
Para gritar, mesmo calado, os verdadeiros nomes de tudo.
Para tratar como lixo as bugigangas que outros acariciam.
Para mostrar que se pode viver de luar quando se vai por um caminho que é principalmente de cor e espuma.
Levantarás do chão cada pedra das ruínas em que transformaram tudo isto.
Uma força que não é tua nos teus braços.
Beijá-las-ás e voltarás a pô-las nos seus lugares.
Para ir mais além.
Para passar cantando perto daqueles que viveram poucos anos e já envelheceram.
Para puxar por um braço, com carinho, esses que passam a tarde sentados em frente de uma cerveja.
Dirás até ao último momento: "ainda não é suficiente".
Disposto a ir às portas do abismo salvar uma flor que resvalava.
Disposto a dar tudo pelo que parece ser nada.
Disposto a ter contigo dores que são semente de alegrias talvez longe.
Para tocar o intocável.
Para haver em ti um sorriso que a morte não te possa arrancar.
Para encontrar a luz de cuja existência sempre suspeitaste.
Para alcançar a estrela inalcançável."

(Paulo Geraldo)