21.6.13

Algumas coisas tiram o sono

Fui provocado, por motivos que não convém explicar aqui agora, a escrever sobre os personagens que aparecem em contos no blog Milleunivers. Por diversos motivos, topei. No pouco tempo que tenho tido para escrever. Está aí...

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Algumas coisas tiram o sono. Para algumas pessoas não é difícil perder o sono, na verdade. Não ele. Ele dificilmente fica sem dormir, a menos que algo abale profundamente seu espírito. Ainda que seja íntimo do sono, seus sonhos flutuam, perdido na pólis de concreto, perdido, passeando entre prédios, armações de aço e vidro, pessoas, vidas, passados, presentes e futuros. Sonhos que embalam o repouso de seu corpo. Um arranjo permanentemente onírico bem organizado, com o qual vivia em perfeita harmonia espiralada sobre si. Mas naquela semana... já estava há 2 dias em vigília, vagando pela cidade...
Não por toda a cidade, apenas por aquelas ruas. Saía de casa, para lá ia, com qualquer desculpa frágil, ver uma loja ali por perto, comprar um presente pra prima (a quem não via há um ano), era caminho mais rápido, ou mais fácil, ou mais curto. Ia trabalhar, só um corpo presente executando algumas ações mecanicamente memorisadas e voltava para lá. De noite sentava em algum bar por ali, mas apenas em bares com mesas na rua ou junto a grandes janelas para a calçada. E vagava de um para outro bar. Tudo porque, apenas parcialmente conscientemente, esperava vê-la, atravessar novamente seu caminho, flagrar novamente a poesia em seus olhos.
Mas não... nada... já começava a tarde do terceiro dia desde que a viu. Desde que se toparam num café, ou num bar, ou qualquer coisa assim (estava meio bêbado), desde que o rosto dela foi tatuado em sua retina. Desde que sua atitude meio confiante, meio insolente, apregoou-se na sua.
Mas não! Porque raios achava que tinha alguma chance de cruzar, fortuitamente de novo com ela nessa imensa cidade?
Mas os acasos, ainda que não sejam por acaso, acontecem... mesmo nas grandes cidades.
Almoçou em qualquer canto. Nem sentiu direito o gosto da comida. Já desanimado, desesperançado.
Amuado sentou na amurada de concreto daquele largo espaço da espaço da avenida. Ali por onde muitas pessoas passam. Passam executivos, bem vestidos em seus ternos alinhados, passam hippies, góticos, emos, uns de branco, outros de preto... passam casais, apaixonados, brigando, brincando, passam apressados e vagarosos, determinados e perdidos, passam turistas da cidade e da vida e passa... ela! Passa ela! Sim, certamente! Viu de longe, mas jamais confundiria aquele corpo suave e enérgico, aqueles passos leves mas vigorosos!
Uma paralisia percorre todos os seus músculos! Não consegue se mexer e tem consciência disso! Uma tensão do corpo para frente mas sem mexer uma articulação sequer! De súbito veio-lhe na mente a imagem de uma grande caravela do século XVI afundando em uma tormenta. Homens e mulheres correndo para pequenos botes enquanto o navio parte ao meio! Um homem de longa barba paralisa enquanto vê sua amada escorregando por um lado e sua centena de páginas de escritos indo para a água pelo outro. Não podia acreditar que estava tendo um delírio com Camões enquanto ela estava lhe escapando!
Saltou de sua pasmaceira e correu atrás dela. Maldita multidão infernal que ocupa essa avenida diariamente! Corria esquivando-se por entre transeuntes completamente alheios a sua angústia. O sinal abriu e ela teve que parar! Ele parou junto, bem atrás dela. Esbaforido, recuperando o fôlego. Quando ela foi começar a andar ele a segurou delicadamente pelo ombro. Seus negros cabelos escorregaram pelo espaço até que aqueles dois pares de olhos castanhos se fitassem.
Alguns segundos, mas daquele tipo que provam a teoria de que o tempo é relativo. Talvez ela tenha percebido que ele estava incapaz de falar...
- Oi rapaz! Que bom te ver de novo!
- Estive te esperando!
- Também pensei em você!
- Eu SÓ pensei em você!
- O que você vai fazer agora?
- Não sei! Só estava te procurando!
- Acho que merecemos uma cerveja!
- Seria lindo!
- Você é uma graça! Acompanha-me?
- Sem dúvida!

A cena seguinte já é outra história.....

7.6.13

Sobre Prudência - A História da Aranha

Era uma vez certo casal de irmãos. Orgulho dos pais e da cidade onde moravam. Sim, aprontavam lá suas molequices, para as quais todos faziam vistas grossas, afinal eram bons alunos, conseguiam boas notas. Estavam presentes nas mais diversas atividades, das esportivas às culturais, das beneficentes às festivas. Mas eles tinham hábito, um hobby, um gosto, muito peculiar... criavam aranhas caranguejeiras! A maior parte das pessoas mal se atrevia a olhar para os terrários onde elas ficavam, quanto mais se aproximar, chegar perto ou alimentá-las.
Certa vez, ele foi para uma cidade no interior do Amazonas desenvolver um projeto relativo a saúde. Era sua primeira vez na grande selva e o espanto que toda aquela vida lhe causou não foi pequeno. Inúmeros insetos incomuns ao seu habitual olhar atento. Inúmeras aranhas, seja na zona urbana, seja na mata. Inofensivas ou perigosas, pequenas ou grandes. E, finalmente, o encontro com uma caranguejeira! Um espécime bonito! Não se conteve! Seria o presente perfeito para sua irmã! Com muita habilidade capturou-a, ainda era pequena. Com uma garrafa de plástico fez uma pequena acomodação para transporta-la. Sim, ele a trouxe para casa e deu, para enorme felicidade de ambos, para a irmã.
A amazônica aranha logo dominou o terrário em que foi colocada, matou as outras duas que já viviam ali calmamente. Seu apetite era voraz! Uma barata, dada às outras aranhas, passeava por um bom tempo pelo terrário antes de virar alimento para um dia inteiro. Para esta, uma barata não bastava, eram necessárias duas no dia, que tinham mortes rápidas sob sua voracidade. Uma aranha forte, com certos tons de agressividade, construiu uma densa teia por todo o seu espaço.
E cresceu. Essas aranhas podem crescer muito! Bem, a menina, mais nova, talvez ainda não entendesse muito sobre a biologia desses aracnídeos, ou talvez apenas fosse tomada pelo afobamento próprio de sua jovialidade. Espantava-lhe e alegrava-lhe o crescimento de seu animal. Um dia, surpreendeu-se ao acordar e ver que sua aranha tinha feito uma muda. O velho e já pequeno exoesqueleto estava descartado em um canto do terrário. Mais do que rapidamente a voluntariosa menina providenciou um terrário maior.
Sem teia, sem exoesqueleto, sem território, a aranha morreu em meio à confecção de seu novo habitat... exaurida no esforço.

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"É necessário guardar o suficiente do organismo para que ele se recomponha a cada aurora; pequenas provisões de significância e de interpretação, é também necessário conservar, inclusive para opô-las a seu
próprio sistema, quando as circunstâncias o exigem, quando as coisas, as pessoas, inclusive as situações nos obrigam; e pequenas rações de subjetividade, é preciso conservar suficientemente para poder responder à realidade dominante. Imitem os estratos. Não se atinge o CsO e seu plano de consistência desestratificando grosseiramente. Por isto encontrava-se desde o início o paradoxo destes corpos lúgubres e esvaziados: eles haviam se esvaziado de seus órgãos ao invés de buscar os pontos nos quais podiam paciente e momentaneamente desfazer esta organização dos órgãos que se chama organismo. Havia mesmo várias maneiras de perder seu CsO, seja por não se chegar a produzi-lo, seja produzindo-o mais ou menos, mas nada se produzindo sobre ele e as intensidades não passando ou se bloqueando. Isso porque o CsO não pára de oscilar entre as superfícies que o estratificam e o plano que o libera. Liberem-no com um gesto demasiado violento, façam saltar os estratos sem prudência e vocês mesmos se matarão, encravados num buraco negro, ou mesmo envolvidos numa catástrofe, ao invés de traçar o plano. O pior não é permanecer estratificado — organizado, significado, sujeitado — mas precipitar os estratos numa queda suicida ou demente, que os faz recair sobre nós, mais pesados do que nunca."
Deleuze, Gilles, Guattari, Felix. Mil Platôs - Capitalismo e esquizofrenia, vol.3. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996.

4.6.13

Escrever?

Estou prenho! Grávido de palavras. Palavras que se revoltam, dançam e balançam. Grafitam as apertadas paredes do meu cérebro, pintam gastos céus de possibilidades infinitas e temporárias, enlouquecidas por se fazerem ser. Ou elas já são? Estou grávido. Gestando expressões que dizem pouco ou nada, mas que sentem, ou se fazem sentir. Gestação de um mundo que está por vir... por vir? Em palavras? Batem e rebatem em fúria sem fim, em um caótico movimento. Vão explodir a sala... mas só depois de passarem pelo buraco do rato do queijo...

10.5.13

Fotomontagens

Gostei desse. Deu um trampo, mas gostei. Agradecimento especial à amiga Ju Romão pela montagem com a imagem da câmera. As outras foram encontras na internet. O título não ficou tão bacana, mas tá servindo...
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Sua face redonda e sardenta, coberta de cachos acobreados de repente circulou as tais redes sociais virtuais. Para sua mais absoluta alegria!
Como nem tudo são flores, ainda teve que defender sua grande sorte e percepção!
Ela tinha acabado o curso de fotografia fazia pouco tempo. Nem um mês. Quando muitos ainda a consideravam uma amadora. Seu reduzido portfólio dificultava conseguir alguns bons trabalhos. Vez por outra arrumava um freelancer... lá ia ela, um pouco atrapalhada com a quantidade de equipamentos, fotografar o casamento do vizinho da tia, o batizado da criança catarrenta do primo do seu primo, o aniversário de algum menino mimado. Cansativo. Pouco prazeroso.
Enfastiada disso, resolveu ir à caça... talvez boas fotos do cotidiano. Sim. Ela gostava de sentar em uma praça e ficar observando o movimento. Fotografava o casal de idosos, a criança afastando as pombas, pessoas passando apressadas. Uma pausa de microssegundos em dia-a-dias tão tumultuados e velozes. Ainda que tais cenas a provocassem, despertassem sua curiosidade, dificilmente outras pessoas igualmente se interessariam por clicks quase banais.
E quantas cenas interessantes perdia. Ali sentada, atenta a tudo, mas com medo de ter sua cara câmera roubada! Deixava-a dentro de uma grande bolsa negra, com a qual andava abraçada. Quando algo lhe chamava a atenção, até conseguir pegar a máquina e fazer todos os procedimentos necessários o momento já tinha escorrido pelo bueiro...
Ainda assim, aquele banco dava-lhe alguma sensação de segurança e por isso arriscava-se. Antes de ir embora ficava um bom tempo sem tirar nada da bolsa. Olhava em volta várias vezes buscando comportamentos suspeitos. Nada. De um salto punha-se de pé, juntava seu pacote ao tórax e saía andando a passos apertados. Mal olhava para o lado.
Um dia de aborrecimento sem igual. Uma semana inteira e nenhuma perspectiva de trabalho. Nenhuma boa foto na busca pela grande foto! Ela estava ali, atenta, trabalhando, às vezes pouco preparada, mas disposta. A tarde inteira na praça e nada. De repente, uma chuva fina começou, ao pôr do sol, naquele momento em que os feixes dourados quase tangenciam o chão sem tocá-lo e agora refletiam-se nos pequenos cristais d'água lançados ao solo. Um casal ignora a chuva e se beija! Que cores! Que momento transbordante! Rapidamente recorreu à câmera, ajustou e quando olhou através dela... nada... gotas esparsas, certa opacidade noturna, nenhum homem, nenhuma mulher. Vazio.
O vazio a perturbou todo o trajeto de volta para casa. E no jantar. E em seus sonhos. O vazio. A bolsa vazia, o prato vazio, a casa vazia, a janela vazia. Abriu a porta para fugir e caiu, caiu no vazio. Acordou ainda nos primeiros raios da manhã, ainda caindo... pegou sua máquina, mais por hábito do que por alguma obstinação em fotografar e andou sem destino. Vez ou outra parava, fazia uma foto ou outra. Mas o que queria era andar! E expurgar aquele vazio.
Após quase duas horas passou por uma rua com grandes árvores. Cabisbaixa, caminhava pelo calçamento, prestando pouca atenção em quem passava por ela ou a interpelava. Mas uma menina passou rapidamente por sua retina e ficou gravada. Deveria ter uns seis anos, com um vestido escorrido, florido. Andava serelepemente de mãos dadas com alguém quando a ultrapassou. Iam na mesma direção. Não a olhou diretamente, mas sentiu, que lá na frente, ela estancou o passo e voltou correndo. Sem dizer uma palavra deu-lhe uma flor amarela e voltou pulando para o adulto que a acompanhava.
Um flor amarela.
Ficou um tempo olhando para ela. De onde tinha saído aquela menina? E essa flor? Olhou em volta. Várias casas tinham flores em suas jardineiras, em pequenos jardins frontais. Apertou a pequena haste e pôs aquele sol em seu cabelo. Mal sabia onde estava.
Continuou andando. Absolutamente abalada por aquele acontecimento. Não foi capaz de ir longe. Sentou. E lá estava. Bem a sua frente! Sob uma árvore! Não acreditava no que estava vendo!


Que noite maravilhosa! Um céu limpo e estrelado. Nem sinal das nuvens que trouxeram a breve chuva da tarde... E que chuva!
Fazia anos que não se viam. Anos com aquele leve incômodo no peito, o que deu errado? Sim, eram jovens, jovens demais para perceber, ainda tinham muito o que experimentar na vida. As sensações estavam sempre muito a flor da pele. Composições e decomposições em velocidades além de qualquer prudência.
Em um dia a paixão explodia fervorosa. Incontível. Só em uma ficção científica seria possível captar a temperatura que alcançava aqueles dois corpos em fricção. Fricção constante. De carne, de intenção, de desejo, de tesão, de vida.
...
No dia seguinte algo poderia sair do eixo, qualquer algo. Evento tolo do cotidiano. Era o mesmo movimento explosivo, a mesma velocidade, mas em direções contrárias. Ardiam em raiva... Eram capazes de arremessar vasos, derrubar portas, esburacar paredes. Dias sem se ver, dias sem se falar.
Então, em novo explosivo movimento, atraíam-se de forma intempestiva. Corriam uma maratona de volta aos braços um do outro. E era como se atravessassem, a nado, um caudaloso e furioso rio e a cada braçada a correnteza levasse embora pedaços de tristeza, ressentimento e amargor. Então, encontravam-se na pedra, uma bem no meio do rio, e ali passavam um tempo imedível contorcendo seus corpos e furores.
Um dia os músculos fatigaram. A maratona tornou-se longa demais e as águas carregaram mais do que infelicidades.
Deixaram de se ver. Separaram-se, um processo concensioso. Não era mais possível, não aquela vida. Cada qual seguiu seu rumo. Pararam de se falar. Perderam até mesmo as notícias um do outro.
Dez anos. Dez anos.
E a internet reconectou seres perdidos ao vento. Redes sociais promoveram reencontros, ao menos virtuais. Ao menos notícias. Pouco a pouco começaram a encontrar amigos em comum daquela época. E então, reencontraram-se. Uma fala tímida. Poucas mensagens trocadas. Atualizações sobre a vida, sobre como estava fulano ou ciclano, o que estavam fazendo ou deixando de fazer. Meses. Meses em uma conversa insossa. E a pontada no peito mais aguda. A cada dia, a cada mensagem. Mais aguda, mais forte, mais voraz.
Aquela velocidade voltou a invadir o peito e decidiram rapidamente de impulso em um dia se reencontrarem e se verem era necessário ambos queriam confessaram um ao outro que se rever ver ver o outro olhar no olho toda aquela intensidade de meninez que um dia tiveram e que os deixou inquietos durante tantos anos...
...
Seria amor?
Precisava dar nome?
Acordaram em se ver em um lugar público. Uma praça. Um fim de tarde. Estavam com medo. Medo da reação real que um teria ao ver o outro, ou mesmo de sua própria reação.
Ela vestiu uma blusinha e uma saia, insinuantes. Ele costumava gostar de vê-la assim. Mas passou um perfume que ele odiava. Ele não aparou a barba, não se preocupou com o cabelo. Entrou no carro, mas voltou correndo para passar o perfume que ela amava!
Assim chegaram próximos ao local marcado. Cada qual estacionou seu carro a cerca de uma quadra da praça, em lados opostos. Vinham de lados diferentes da cidade. A passos ansiosos e inseguros chegaram. Viram-se de longe e pararam por um momento. Reconhecendo aquela figura tão familiar e agora tão diferente. Foi então que caiu uma gota, depois outra, para cada pingo um pequeno passo. E quando a chuva desprendeu sua timidez das nuvens os corpos perderam peso e flutuaram rapidamente para encontrar-se. E beijaram-se. Beijaram-se intensamente! Um beijo de 10 anos em alguns minutos. Não eram necessárias palavras. Deram-se as mãos e foram para o carro dela. Molhados, quentes. Para cada dois passos, um beijo. Para cada curva, um carinho. Para cada degrau, um abraço, um amasso. Em cada expiração, uma dose a mais de tesão. A cada não-pensamento, um movimento. Uma pausa. E músculos vivos relaxados no tapete da sala.
A noite começou assim que o sol tinha se despedido e tinha que terminar antes do sol nascer. Conto de fadas? Não, vida real, compromissos reais, medo real! Não amanheceriam deitados lado a lado. Não naquele dia. mas não foi preciso dizer isso. No meio da madrugada ele a deixou e caminhou. Como se não houvesse amanhã. Como se não houvesse gravidade. Deslizou por uma cidade cujas luzes sorriam para ele. E ele sorria de volta. O passo leve de quem tem uma perspectiva feliz. De quem, de repente, se sente capaz de mover uma montanha!
Um tropeço.
Tem um homem caído no chão. Um rapaz. Não deve passar dos 25 anos. Camisa suja, calça jeans suja em uma das pernas, a outra, sem o sapato. Mão direita fechada. Ele apenas entreabre os olhos e balbucia algo não entendível. Não poderia deixa-lo ali, ao relento. Com algum esforço levantou-o e carregou-o para o gramado. Uma árvore tinha seu caule bastante convidativo, ele mesmo seria capaz de dormir apoiado ali.  E ali deixou-o. Com ele uma garrafa de água. Certamente acordaria com sede, a sede dos que amargaram uma terrível noite, dias terríveis. A sede de quem pode sentir falta do mundo, ou de quem pode arrumar formas de rastejar-se em busca de água. Para lembrar-lhe que a água existe e de que tudo pode no mundo, deixou ali aquela garrafa, arrumada em um boteco nas cercanias.
E dali partiu, para nunca mais vê-lo.
E foi-se para o todo possível novo mundo que abria-se em seu caminho.

- Mãe! Gosto de passear aqui!
- É filha, porquê?
- Tem muitas flores! As casas tem flores!
- É mesmo!
- Você não acha que todas as casas deveriam ter flores?
- É verdade... deveriam mesmo...
- Quero mais flores em casa!
- Tome esta para você querida. Aqui, no seu cabelo.
- Ela é vermelha! Adoro vermelho mamãe! Obrigado!
- Está linda.
- Eba!
- Mãe, porque aquela moça está triste?
- Não sei filha.
- Será que é porque ela não tem flores?
- Talvez.
- Posso dar uma para ela?
- Claro!
- Aquela amarela?
- Acho que ela vai gostar!
- Mãe! Ela se assustou comigo! Tadinha! Mas ela parece fofa! Você viu que o cabelo dela é vermelho!? A minha flor é vermelha e o cabelo dela é vermelho! Acho que ela gostou da flor amarela que dei!
- É querida, eu acho que ela gostou mesmo, veja, está até olhando para frente!
- É...
- Ande um pouquinho mais rápido filha.
- Mamãe.
- Ahn?
- E aquele moço dormindo debaixo da árvore?
- Não sei, um desocupado, provavelmente.
- Mas ele tá sozinho, no chão e sem casa! E só tem um sapato! E não tem flor!
- É...
- Filha? Filha? O que você está fazendo? Volte aqui! Ei menina! Não pegue essas flores! Volte aqui! Ei! Ei! Não!
- Que horror! Nunca vi você tão desobediente!
- Mas mãe!
- Mas nada, que você foi mexer com aquele homem? E se ele acorda e pega você?
- Mas eu só coloquei as flores nele! Agora vai acordar mais feliz! Mais colorido!
- Você é impossível!
- Mas ele nem acordou! E tinha uma moeda na mão dele! Engraçado!
- Tá bom! Tá bom! Vamos embora logo daqui...
- Tomara que aquela moça veja ele. Ela vai gostar...
- Que você tá resmungando menina?
- Nada mãe...
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Ele anda pela rua, em uma madrugada qualquer...
Passos trôpegos..
Um andar?
Não! Um cambalear...
Passos incertos a buscar algum chão, ou todo o chão. Ora a calçada é pequena demais, ora é a guia que abriga um pé frente ao outro que é larga e desafiante demais.
A lua cheia fulgura em uma noite de céu limpo. Ilumina as sombras e guia os lunáticos, as gestantes, os bêbados... dizem que também os lobisomens...
Também ilumina uma pequena moeda no chão.
Ahá! Ganhou a noite! Uma moeda!
Abaixa-se lentamente para pega-la, curvando as costas primeiro. Quase cai ao perder o equilíbrio para frente. Apoia-se nos joelhos. De cócoras, estica um dos braços pra alcançar a moeda, mas tira o apoio de uma das pernas e cai para trás.
A lua!
O grande olho prateado.
Penetrante, fixador. Atraente!
Ele não consegue se levantar, qualquer movimento a tiraria do foco. Perderia-a de vista, mesmo que apenas por um instante.
Insuportável!
Seria terrível!
A moeda!
Está ao alcance do pé!
Tira o sapato.
Meia chata.
Com os dedos a pega. Ela ameaça escorregar, mas não. Ele a tem. O pé vem até suas mãos, mas foge delas. Balança para um lado e para outro. Alguém o segure!!!
O grito ecoa. O prateado olhar se aproxima. Mal consegue erguer os braços agora.
Pára tudo. Corpo estático. Pé se aproximando. Agarra-o com as duas mãos para que não fuja mais. Enfim, a moeda!
A moeda e a lua.
A moeda, a lua e o olho.
Aquele olho!
Olho maldito! Olho torturador!
Estava muito claro! Tinham muitas luzes naquele bar!
Várias luas!
Então o olho entrou. Deslocando o ar. Causando impacto.
Todos o percebiam!
Moeda.
Gira. Gira. Um tapa para parar.
Aquele corpo se interpôs. O corpo e o olho, amantes. Deleitavam-se com bebidas alcoólicas enquanto todo o resto da platéia babava em suas belezas. Mas talvez não em sua apenas aparente felicidade.
Não era mais possível desviar o olho do olho.
A lua.
Um movimento e seria como perdê-lo por toda a eternidade. E provocava uma pressão ativa sobre os seres, sobre os outros pequenos corpos que os observavam. Algo que impelia o tórax para frente, os pés para baixo, um após o outro. Um apoio ativo das pálpebras contra os ossos, das pupilas contra as íris. Uma tensão absoluta entre maxilar e mandíbula. Ainda assim, para frente.
Para...
Uma escuridão.
Nem sabe mais como chegou ali.
Mas o olho está longe! Perscrutador! No céu.
Lágrimas. E um grito de dor.
As pálpebras pesam.
O olho vai se perdendo da vista, mas não da mão.
Escuridão.

12.4.13

Feerismo

Depois de séculos sem escrever, vai aí... reaquecendo as baterias...
Claro que rolou uma putaria do servidor que excluiu meu post. Gábi veio me salvar, tinha impresso o micro-conto assim que eu tinha postado. Vai de novo transcrito e levemente revisado.

A reflexão abaixo escrevi quando comecei a escrever o conto, alguns vários meses atrás. Resolvi mantê-la, ainda que a breve história tenha mudado radicalmente a cada suado parágrafo...

A vida vai se construindo em momentos. Quanto mais amor e alegria atravessando-os, mais intensidade e potência criativa para a vida. Isso é o tempo todo, no cotidiano. Mas existem alguns momentos que são particularmente mais impactantes. Alguns atribuiriam isso a certo alinhamento astral planetário, outros ao destino ou a caprichos de algum deus animador de títeres. Parece-me mais provável que as disposições construídas e presentes em algum momento levem a estes acontecimentos, a estes momentos de explosão de vida. Só os dispostos podem vibrar a esse acontecimento... os demais passam incólumes, como um cego diante de uma linda mulher nua.

Um homem caminhava pelo mundo. Caminhava sem ter muito destino. A cada lugar encontrava e conhecia seres, os quais o levavam a outros lugares e assim por diante. Suas relações eram rápidas, fugazes. Certa vez alguém lhe disse que tinha medo de estar com as pessoas! Mas que absurdo! O que ele mais queria era conhecê-las, como poderia dizer que tinha medo? Isso ele me confessou em carta, recentemente.
Por aqui, passou rapidamente... ficou apenas uns meses. De maneira voraz invadiu nossas vidas. Dizia que tinha vindo para estudar, matriculou-se em algumas disciplinas na Universidade, alugou um quartinho em uma pousada. Raramente contava sobre sua vida, a custo consegui descobrir que a família estava a uns 500 quilômetros de distância, os quais raramente via. Na segunda semana de aula conseguiu convencer-nos de sair para tomar uma cerveja. O grupo ainda se conhecia pouco, mas de bar em bar criou laços importantes de amizade. Fiquei sabendo que toda semana ele fazia uma visita a um ou outro. Vinha em casa com certa frequência, apaixonamo-nos por ele. Sua fala mansa e extrovertida, seus olhos cinzas esverdeados, seu cabelo cacheado e comprido.
Não. Não me perguntem mais do que isso.
Reparei que ele costumava lembrar o que as pessoas tinham dito ou feito de uma semana para outra e que sempre conversava olhando nos olhos. Seria uma estratégia para invadir-nos? Não sei, consciente ou não, funcionava. Um semestre foi o suficiente para que o grupo tivesse criado profunda afeição por ele e entre si. Como algumas pessoas gostam de separar, podemos dizer que várias pessoas viram-se apaixonadas por ele como amigo e outras tantas flagraram-se arrebatadas de paixão pelo homem, mas vários de nós acabamos mesmo apaixonados uns pelos outros, ainda que fosse difícil admitir.
Um dia, quem sabe, conte em mais detalhes as histórias que vivemos naquela época, mas agora queria escrever sobre o momento em que ele nos deixou. Escrevo porque sinto saudades. Sei que ele está bem, ainda que a vida esteja sendo mais difícil, é certo que também está mais feliz. Sinto sua falta.
O semestre acabou e ele nos convidou para uma viagem. Merecido descanso de 10 dias. Passeio cultural e histórico. Viajamos nós três, pegamos o mesmo quarto na pousada. Tudo foi maravilhoso. Ao longo do dia andávamos, muito. De história em história fomos conhecendo a cultura local, seus costumes e suas delícias. Alguns doces fantásticos! E o prato típico então? Comemos todas as suas variações! O romance estava no ar e a felicidade crescia a cada dia.
No final do dia, depois das caminhadas e comilanças voltávamos pra pousada. Um momento de descanso. Calmamente cada um cuidava de suas coisas, enquanto os outros tomavam banho e se arrumavam para a noite. Já no terceiro dia ela comprou um caderno e vários lápis coloridos. Desenhos foram brotando, descompromissadamente. Ela desenhava com graça e tranquilidade e parecia-me ainda mais bela. Sorria enquanto pintava um desenho mais sóbrio ou outro mais alegre. Não sei se a viagem ou o romance a inspiravam, aquilo tudo simplesmente fluía por seus dedos. O corpo estava cansado, mas uma disposição jovial a fazia pular entre as páginas rabiscando livremente.
Eu também estive em uma alegria deliciosa que me fazia saltar de um canto a outro, em uma prontidão inabalável. Garçom grosseiro, ônibus errado, quarto bagunçado, nada era motivo para abalar todo esse bom humor.
Já nosso amigo amante, nesses breves momentos de calmaria punha-se a meditar. A cada dia parecia estar mais inquieto. Não que a viagem estivesse provocando isso, mas algo que nossa convivência intensa de uma quase lua-de-mel pôde desnudar sobre ele. Uma permanente agitação. E foi ficando claro que, ao voltarmos, as coisas já não seriam as mesmas. Sua inquietude era perturbadora e o colocava cada vez mais isolado em si mesmo.
Que poderia fazer? Ele estava escapando por entre nossos dedos!
Esquivou-se de qualquer aproximação que tentei fazer! Dizia que estava bem, apenas estava com a cabeça cheia de pensamentos sobre o que faria ao voltar, mas não me confirmava se partiria para outro lugar. Para tudo respondia: é possível.
Então, um dia, saímos cedo para mais um passeio. As primeiras horas do dia anunciavam calor em uma manhã ensolarada. Pegamos um trem para a cidade vizinha. O clima mudou radicalmente, nuvens cobriram todo o céu e uma garoa intermitente deixou o clima deveras frio. Entretanto, não haveria oportunidade para retornar ali em outro momento, o jeito era continuar e suportar as intempéries climáticas.
De um ponto turístico a outro fomos subindo um íngreme morro, a umidade tornava os paralelepípedos muito escorregadios e o vento cada vez mais frio. Tomamos um ônibus turístico para terminar a subida, ida e volta garantida em meio a uma dezena de pessoas de várias nacionalidades. 
Chegamos a ruínas seculares que guardavam o vale. Pedras enormes cuidadosamente assentadas resistiam a severidade do tempo, preservando muradas e muralhas, lembrando tempos de selvagem beligerância. O clima foi piorando conforme entrávamos nas ruínas de escadas, baixas amuradas e paredes corroídas. O vento era intenso, queria nos arrematar dali de volta ao fundo do vale? E o que impedia isso era uma mureta que mal chegava a meio metro de altura. Apesar disso, ainda tínhamos a sensação de estarmos imersos em uma nuvem espessa, impressionantemente resistente às correntes de ar, de forma que a vista alcançava apenas curta distância. 
Caminhamos de um lado a outro, chegando, finalmente, ao ponto mais alto. Ali, atravessamos um pórtico após o qual tivemos acesso a outra área aberta sobre a muralha na qual andávamos e que dava vista ao outro lado, onde era possível ver outra antiga construção em ponto ainda mais alto. As construções pareciam olhar uma para outra em meio a um tapete de árvores. Dizem, que um antigo governante da região ficava horas naquela plataforma pintando a paisagem e sua própria morada, acompanhado por um séquito inebriante de artistas animados (e sombrios, diriam alguns).
Eis que a névoa dispersou-se momentaneamente, ainda que fosse possível vê-la a apenas alguns metros de distância. Sentada em um canto estava uma moça, vestida com um macacão de flores azuis, com a cabeça envolvida por um xale vermelho com algum bordado. Com cabeça baixa, distraidamente olhava algo em seu celular, talvez fotos. Em uma lufada ela parece perceber nossa presença, ou dá importância para isso. Levanta a cabeça (talvez estivesse curiosa sobre que adentrava sua solidão), cuidadosa e vagarosamente tira o tecido da frente do rosto e o cabelo negro de sobre o olho, revelando uma íris amendoada coroando um olhar penetrante, carinhoso e interessado... Ele a mira exatamente neste momento, ambos ficam parados, flertando-se por um tempo que quase pareceu uma eternidade. O ar ficou pesado, o peso do instante fatal, do momento em que algo acontece. Com um doce sorriso ela rompe a tensão e volta-se para o aparelho novamente, mantendo o sorriso e uma conexão invisível entre aqueles olhares, constantemente, de canto, ela ainda o fita, levantando brevemente o rosto.
Conversas, piadas, histórias e fotos entre nós,  em nada diluíram aquela conectividade, ainda que a interação entre os corpos não tenha passado daquele olhar. Enfim, resolvemos descer. Já tínhamos ido na construção do outro lado. Era tempo de partir. Vamos saindo e a moça ficando. Ainda no primeiro degrau nosso companheiro pára como se pensasse em algo absolutamente abalador, finca o pé, agita os braços praguejando contra si mesmo. Ele volta e, pé-ante-pé, pára diante dela, que com um sorriso retribui o retorno. Lentamente ele se abaixa, toma-lhe a mão e olho a olho declara sua beleza."You are lovely!", foi possível ler em seus lábios, pois quase não tinha som. Ela sorri e agradece inclinando a face com uma largo sorriso e ele volta a descer as escadas... fugindo?
O que aconteceu?
Por um momento fico atônito.
O clima volta a piorar.
No caminho de volta, ele olha para traz o tempo todo. Palpo no ar algo como "quero busca-la, mas não posso" ou "não consigo". Chegando à rua pudemos ver o ônibus passando, não corremos... cansaço ou vontade de não ir embora. Pacientemente esperamos pelo próximo. Conversas soltas no ar parecem não desfazer o impacto que nosso amigo teve com aquele encontro. Parece ansioso, anda para um lado e outro, vez por outra ignora o que estamos conversando para falar daquela moça...
Então...
Ela aparece, segundos antes do ônibus. Uma fila já está formada e ela está no fim, nós no começo. Os olhares se conectam novamente. Sentamos logo nos primeiros bancos, ela acaba indo parar no fundo. Ele vira-se para trás o tempo todo. Porque não vai até ela? Parece tomado por súbita incapacidade de se mover!
A condução pára em outro ponto turístico, descem várias pessoas. Ele a vê já pela janela. Chega a levantar-se esticando os braços para ela, mas o ônibus arranca pondo-o sentado novamente.
O resto do dia é de quase completo silêncio. No trem, no retorno à cidade, fez-nos sentar no fundo e depois passear até a frente dele. "Queria ver como era o trem". Seus passos eram pesados. A noite tem tons de desolação. O dia seguinte foi viajando. Mudamos de cidade. E ele ficou absorto na paisagem vista através da janela do ônibus. Cerca de quatro horas assim...
Uma pontada de ciúmes começou a nos incomodar. Mas ele nunca tinha sido "nosso" e, na real, aquilo poderia ter acontecido a qualquer um, a qualquer tempo. Um arroubo de paixão? Não somos senhores do coração alheio... tão pouco convém tal pretensão de controle.
Chegamos à noite, um pouco cansados, mas ainda querendo passear. Fomos tomar uma cerveja e ainda assim ele pouco falou. De manhã fizemos um tour guiado, com um grupo de pessoas de vários países. Tantas histórias distraíram um pouco e trouxe riso novamente.
Após o almoço insistiu que continuássemos andando. Ele não cessava sua busca. Queria conhecer a outra margem do rio, ficar mais perto daqueles singulares pequenos barcos que ali atracavam, cheios de barris. Cedemos. Atravessamos uma bela ponte de ferro e fomos andando pelo calçadão próximo à água, olhando os barcos, as pessoas sentadas no gramado curtindo uma preguiça.
De repente ele congelou. Olhamos para trás e ele estava parado, com os olhos arregalados.
"É ela!", ele disse. "Ahn?". "Tenho certeza! Ela me cumprimentou com os olhos!"
Até aquele momento eu ainda não tinha entendido exatamente o que tinha acontecido. Só podia ser um encantamento algo tão estuporoso, tão arrebatador. Não tinha como reagir àquele olhar quase desesperado dele. Com um braço acordei-o do transe, mandando-o atrás dela.
Aqueles segundos imobilizados pareceram horas. Um não saber o que fazer, uma falta de coragem, uma não medida de qual seria a reação necessária para aquela situação inusitada... e tão comum...

Ele foi! Correu até ela. Mais pela ansiedade do que pela distância ou risco dela sumir, ela tinha descido até as pedras mais próximas ao leito do rio e ali jogava migalhas de pão aos peixes e aos pássaros. Ali os dois sentaram e ficaram conversando.
Sentamos por perto para beber algo enquanto o esperávamos. Por nada no mundo interromperíamos aquele momento nem por um segundo. Não era possível escutar o que diziam, nem nunca fiquei sabendo. Depois de cerca de uma hora levantaram e pegaram um teleférico para a parte alta da cidade. Nós ficamos ali mais um pouco e voltamos à nossa hospedaria. Ele apareceu de novo no começo da noite, sozinho. Ela nos encontraria para um tour pelos bares da cidade mais tarde.
"O que aconteceu?", "Nada", "Como?", "Só nos encontramos..."
Parecia estar ocorrendo uma revolução naquele corpo. A agitação denotava traços de ansiedade, preocupação e uma alegria profunda.
Choveu. Torrencialmente.
Chegou o horário marcado e continuava chovendo forte.
Foi preciso segura-lo para que não saísse na chuva.
"Eu nunca mais vou encontrá-la"
Saímos atrasados. Pouca coisa. Nada que qualquer pessoa não tivesse esperado. Ela não estava lá. Esperamos. Tomamos um vinho. Ela não chegou. E continuou não chegando...

E todo dia, em todo o passeio, ele passou a olhar pela janela esperando pelo inaudito.
E passou o resto da viagem olhando pela janela.
Ele tinha razão.
Disse-me uma vez que naquela ocasião tinha se sentido invadido. Ela o quebrou. E ao quebrá-lo abriu-o para o inesperado, para o caos...
E assim ele se foi... se rearranjar em um caos para desfazer-se nele novamente...
Ainda nos amamos.

12.10.11

Tinta e Sangue


Inusitadas coisas podem acontecer em um dia de testes. Ideias sendo postas à prova. Sim, talvez mais ideias do que conhecimentos. Propostas, projetos. Questões… É… nada fácil.
Aquele foi um dia destes. Um desafio. O dia começa ansioso, tenso. Ansiedade e tensão que provocam cegueira…
Os quatro começaram a arrumar confusões logo cedo. Mal o sol tinha nascido, um céu azul, a perfeita definição da cor azul celeste, o horizonte com seus amarelos de tom pastel, e ele já estava se arrumando, era necessário atravessar a cidade, para começo de conversa. Para sua surpresa nunca foi tão rápido, com cada segundo tão longo, fazer tal travessia.
Encontrou com as duas. Alguns biscoitos em agitação exponencial! Os preparativos ainda eram muitos e deveras trabalhosos! Saíram em busca da quarta. Algo estranho já se anunciava quando chegaram na casa desta, sempre tão pontual, dessa vez ainda atrapalhada. A de crespos cabelos ficou para ajudá-la, enquanto os outros dois prosseguiam com a missão.
Seriam necessários grandes tapumes de madeira que receberiam as impressões e as expressões de quatro vidas coletivas! Nesses ânimos exaltados os planos podem ser dimensionados de uma maneira disforme. Porque mesmo acharam que as tais madeiras caberiam no carro? Generosamente, sob um olhar de pânico, um carro novo, impecável, foi oferecido para carregar aquele material… o tempo passava…
Diante da delicada situação, o pintor se ofereceu. Seu Scort ano 80 e pedrinha daria conta do recado, estava acostumado a carregar coisas maiores e mais pesadas. O tempo passando… monta suporte… parafusa… o tempo passando… apóia, amarra… jornal… sacola… o tempo passando…
Enquanto isso, em mãos tensas, um copo estilhaçava em outro canto do bairro…
O tempo passando…
Cadê a chave? Serelepe esse saci, que some com as coisas em momentos de tal delicadeza!
Chave encontrada, partem já atrasados. Carro velho, rodando lentamente pelo asfalto, o tempo passando…
Enquanto isso… noutro canto do bairro, pernas bambeiam sobre o desnível territorial de calçada mal assentada! Chão! Tocos de árvores ressequidas rasgando a carne, afastando o quer que impedisse a rota do nariz ao chão!
E então o carro velho faz a curva e seu perspicaz e prestativo motorista imediatamente nota a senhora ensangüentada na esquina!
“Nossa! Ela está sangrando!”
“Ahn?”
“Quem?”
“Vamos socorrer!”
“Ahn?”
“Ok...?”
Ele rapidamente dá a volta no carro. Manobra ousada para quem vinha tão lentamente circulando… A senhora estava lá, na esquina, os dois mal notaram, desorientada…
“Senhora! Está tudo bem? Quer ir pro hospital?”
“É… quero… aquele lá… tenho convênio…”
O rapaz dá espaço a ela no banco da frente. O motorista faz mais uma volta radical e parte, na maior velocidade que o carro agüenta, para o tal hospital. Em meio a saltos do carro e estouros de escapamento, a sensação de que o veículo desmontaria na próxima esquina, o tempo voando, perguntas de “como a senhora está”, mãos dadas apertadas, confusas, sem saber o que pensar, mas pensando, em uníssono, “com a gente tem que ser na intensidade! Não acredito! Estamos fudidos!” As mãos não se descolaram mais…
A senhora foi deixada na entrada da emergência do Pronto Socorro, já sendo atendida por alguém da enfermagem.
Tapumes balançando… “esse escapamento vai cair?”
Tempo voando…
“Sabem, eu tenho diabetes, já até desmaiei algumas vezes… Não posso com sangue!”
E os passageiros pensam: “Ah! Meu Deus!”, “Só falta ele desmaiar agora”
“Até teve uma vez que me tiraram de cima de um barracão na corda, porque desmaiei lá em cima!”
“Porque eles está contando isso pra gente agora?”
“Ai! Ele Vai desmaiar!”
Mas não, finalmente a faculdade, sem desmaios. O tal pintor ainda se ofereceu a ajudar a carregar o material. Não foi necessário. A tensão fez seu trabalho e três franguinhos subiram com as duas pesadas peças.
Um soco caiu no estômago dos dois enquanto terminavam os preparativos. Não por qualquer moralismo babaca, mas pela sensação de que, enquanto cidadãos e trabalhadores de saúde, quase não cumpriram com seus arraigados compromissos éticos com a vida.
Enfim as tintas voaram, a conversa rolou, a tela foi limpa, a pressão retirada, os gases se espalharam nas telas, preenchendo a sala e invadindo as pessoas. Estava feito e tinha dado certo

18.9.11

Um momento


No barco, um churrasco. Ao menos um dia de descanso! Além de carne, banana. A embarcação vai adentrando na selva, que deixa um caminho cada vez mais estreito. Mas não, a margem não estava ali do lado! Não era possível ver margem, apenas selva.
Por fim um calmo braço de rio junto a uma comunidade ribeirinha. Um banho, uma tentativa de lavar aquela dor. Na comunidade um menino… fraco, magro, desnutrido… a comida não obedecia a sua boca rachada… ali talvez morresse de fome. Na cidade grande uma simples cirurgia talvez lhe garantisse uma vida longa e bela… Nem no descanso há descanso por aquelas terras, pelo menos não aos que lhe são estranhos e sensíveis.
O retorno é lento, contra o fluxo do rio… Finalmente caímos em um leito largo. A samaúma reina ao longe. Eis que vários botos surgem acompanhando nosso lento navegar, cristas que despontam em marolas. O sol vai se pondo, dourado, alaranjado, avermelhado, resfriando-se no rio à nossa frente. Mas às nossas costas, seguindo o movimento dos viajantes, uma grande lua cheia prateada emerge das águas marrons.
Não, não estávamos mais sob a luz crepuscular, tão pouco sob a luz do luar. Não, não eram botos. Não, não eram nossos corpos lavados pelo rio. Era outra coisa. Uma composição única. Uma pintura feita às pressas, dedilhada nos detalhes. Sentados no teto do barco, contemplando, sentíamos o acontecimento atravessar-nos… só o choro nos restava.

23.8.11

Ruínas?


Há tempos querendo escrever alguma coisa. Avançando na construção de estados mentais que propiciem tal atividade…
Aí vai um acontecimento que vem retumbando na cabeça…
Na verdade esse texto está pronto faz tempo...

Foram dias sombrios, dias de pouco sol. Nuvens, sombras, chuva. Vez por outra um frágil raio solar dava a esperança de um dia mais contente. De verdade, não havia a menor expectativa que isso acontecesse no espaço de alguns dias. Nada no ar dava a entender isso. Lembro bem de épocas em que passamos semanas sem uma trégua na garoa.
Mas o ar mudou, o vento mudou e, naquele dia, tão aguardado, tão esperado, tão preparado, as nuvens foram varridas. Um inusitado céu azul fez com que respirássemos fundo e pensássemos, cada qual em seu canto da cidade, hoje será um dia especial, um dia-acontecimento!
A despeito dos temores e na alegria das incertezas, foi!
As ruínas, naquela parte alta do bairro, contrastam fortemente com a tarde ensolarada. Paredes quase caídas, grandes muralhas que delimitam um espaço de sobrevivência. Sobre a vivência em um estigma, ou vários. Em preconceitos, em dores, em violências. Os aldeões daquele castelo, ali, estão dentro, apesar de estarem fora de tudo o mais que poderia acolher-los no mundo.
E eis que corpos alienígenas violam a segurança da aldeia. Tem um fora querendo entrar, querendo colocar para dentro. Olhar uma vida que pulsa onde quase todos supõem que ela não exista. Onde há pessoas assustadas, ressentidas, esperançosas, que amam e que odeiam.
O rapazote que recebe aos visitantes com a cara fechada. Não tem porque achar que se levará algo de bom deste inusitado encontro! Seu corpo reage. Violentamente trata os objetos, grosseiramente fala com seus colegas. Xingos, exclusão. Desconfiança.
“Sai daqui muleque burro!”
Mas o sentido daquele momento era outro. Mesmo a repreensão é um convite.
“Opa! Que letra é essa que você tá mandando aí?”
“O quê?”
“Isso aí! Xingando ele, mandando ele embora! Tem disso aqui não! Deixa ele entrar.” E os olhos diziam, “vem, entra você também!”
Desconfiança… atravessando… rodeando… Homens e mulheres, olham de longe uma roda que começa a se formar. Pessoas estranhas, com instrumentos. Delicada sonoridade quase estranha. A roda também é formada com desconfiança. Também corpos acostumados ao preconceito e à exclusão. Alguns sinais produzem algum comum e também o rumor dos guetos que se cruzam. Narizes feridos.
As tintas, as cores, atraem as crianças e logo os jovens. O agressivo rapaz pouco tem a fazer a não ser acompanhar o movimento. Quando chega então uma palavra amiga. Companheira. Vizinhos que até então pouco se olharam e agora se flertam em compaixão e admiração. Uma dupla que não se desfaz até o fim do dia, agressividade transtornada, transformada pelo carinho. Paixão pela vida transborda, a música invade o corpo e de repente o rapazote mostra como o surdo faz-lhe bem ao responder aos carinhos duros de suas mãos já calejadas. Por alguns minutos, capturado pela lógica que deixa a violência de fora, sua mestre, descontraidamente insiste, “olha aí! Você consegue! Manda bem pra caramba! Aparece lá pra tocar com a gente!” POW! Que bolha explode nesse segundo!
A moça declara-se no muro! Seu companheiro pinta um sonho e sobre ele retribui o carinho. Os filhos andam pela terra, comem a terra! Brincam com as tintas, redescobrem as cores, rostos manchados. Mesmo o carinho nessa família é duro. Mas é carinho. Um amor agressivo, a que um olhar pouco atento apreenderia apenas violência e tristeza. Mas há alegria! Vejam que há! O pai briga com a mulher porque o menino desperdiça a tinta e joga o lixo no terreno vizinho, em seguida confessa, não sei fazer diferente! A mãe responde carregando a pobre criança suja pelo braço, seu olhar diz amor, suas mãos provocam dor. Duro paradoxo.
Outro apenas observa o movimento, vê brotar, dentre os seus, alegria que outrora tivera em sua terra. Mal sabe dizer como, mas seus dedos retratam com precisão imagens imaginadas e vividas, de repente vívidas nos muros de uma ruína.
E eis que as tintas invadem o sorriso maroto do homem desprezado até dentre seus pares. Interagir com a pessoa homem é difícil, mas as tintas suavizaram-lhe a expressão e de repente lá está ele pendurado, marcando o mais alto lugar que pudera alcançar! Afirmava vida, afirmava “eu moro aqui”, para quem quer que quisesse enxergar!
Não… ali não havia teto, tão pouco janelas, as portas apenas separavam os quartos improvisados do pátio comunal. Pátio que agora sambava, recheado de outra estima! Alguns dizem que um incêndio levou tudo, outros maledizem ao proprietário, que fracassadamente teria retirado tudo para evitar “invasões”, outros que os próprios moradores teriam arrancado qualquer coisa que pudessem vender (e aí alguns diriam que para comprar comida e outros para comprar drogas). Restaram as paredes.
Pouco me importa os motivos. Sei que naquele dia-acontecimento furamos janelas invisíveis, feitas de aço! Não, não entramos pela porta. Esgueiramo-nos pela fresta aberta e a escancaramos… quiçá tal rombo feito jamais volte a se fechar. Pois ali, vida e dignidade estão explodindo e pedindo passagem.

4.7.11

Mangas, crepúsculo e cães

Este é um texto para ser lido com calma, em voz alta (foi escrito para assim ser "lido"), respeitando o tempo de cada pontuação e de cada parágrafo.



Eu aqui, sentado neste galho, fico a pensar em coisas da vida (sentado, pernas balançando, olhar perdido). Mas não me basta pensar, tenho que lhes falar, caros companheiros. Bem...
Vejam bem essa árvore! Anos atrás costumava vir aqui, não para pensar, mas apenas para chupar mangas! Eram horas, nem saberia dizer ao certo quantas... Nesses momentos de puro deleite um minuto vale por uma hora e passa mais rápido que um segundo!
É assim...
Mas bem. Naqueles tempos, costumavam vir alguns amigos comigo. Não vocês, nobres companheiros, que ainda não agraciavam minha existência àquela época!
E eu sempre sentava exatamente neste galho! Por dois motivos. Sempre me pareceu que ele tem o formato perfeito de minhas costas! Vejam (tenta deitar-se, meio mal acomodado)... É... bem... além disso, daqui a vista do pôr-do-sol me era privilegiada! Eternamente apaixonado pela luminosidade crepuscular, a luz em que as bordas das formas se contorcem, se deformam... o real imaginadamente real confundindo-se com o imaginado realmente imaginado.
Ahn!?
Quanta inspiração, né?
Talvez...
Talvez seja a melancolia das memórias. Tempos melhores? Não sei... tempos de fato diferentes, de fato mais alegres. Ou, sem dúvida, menos preocupados.
Dizem que cabelos brancos trazem responsabilidades... A merda com isso viu! Explicações tolas e inúteis.
As mangas. Onde estão? É mesmo, é julho, não é época. Agora só em Outubro...
Amigos! Eram as mangas que nos uniam então!
Claro!
Víamo-nos muito mais no verão do que no inverno e isso não era simplesmente medo do frio! Era compartilhar de um prazer pueril. As mangas que partilhávamos enquanto conversávamos sobre a vida!
Por um tempo era sobre os jogos da escola.
Ahá! Adorávamos falar daquele jogo em que o Daniel fechou o gol! Até pênalti ele defendeu! Enquanto isso Miguel e eu fazíamos miséria do adversário em uma tabelinha assassina! Tudo bem que não éramos os melhores boleiros... e isso nunca mais se repetiu... Mas ficamos com o vice-campeonato da escola!
Mas quando as meninas invadiram nosso cardápio, aí a coisa ficou complicada! Às vezes uns meninos os invadiam também!
Ei!
Não riam de mim, seus tolos! Paixão é coisa séria! Apesar... de que... também... não é. A boa é seriamente extrovertida. Ou não?
Sei que é arrebatadora! Enche. Pulsos batem mais rápidos. O coração vem à boca, o suor é gélido! É uma paixão! Paixão “adolescêntica”! Ah...
Mas, nem sempre é assim, é verdade. Em alguns momentos ela tem um outro furor, o carnal. O corpo inteiro pulsa! O desejo consome as vistas, consome a língua, entorpece o pensamento. E aí perdemo-nos nele! Até explodir!
Ah! A explosão!
E ninguém pode falar que se apaixonar é ruim! E ninguém, há de discordar que estas são boas descrições de paixão!
Também temos que ver bem, não há limite de quantidade! Onde nessas descrições está inserida quantidade? Lugar algum! Apaixono-me! Diariamente! Ininterruptamente! Voluptuosamente! Consumidoramente de mim mesmo! Apaixono-me por vocês meus caros amigos! Adolescentemente apaixonado! Carnalmente apaixonado! Doce e ingenuamente apaixonado...
É a pupila que dilata, vorazmente plena de si, enlouquecida em engolir o outro!
Veja... não há mal algum aí... Não sei o que escandaliza as pessoas! O que você diria se eu me confessasse apaixonado por ti?
Sei...
Não diria nada!
E nem é preciso que se diga!
Ambos temos a manga, é isso! Vamos prová-la ao máximo que for possível... simples e complexo assim!
Mas ainda assim, tem um limite! Porque a causa disso tudo, é o outro! E o que nos faz bem, queremos para nós! Capturar o pôr-do-sol em uma rede!
E o amor?
O amor...
O amor!
Pula da árvore, quase caindo, se abaixa, anda de um lado para o outro como se temesse estar sendo vigiado.
Xiiii! Isso não nos é permitido! (fala em sussurros)
Isso sim é realmente perigoso!
Imaginem! Se apaixonar pela alegria que a alegria do outro provoca em nós!
Afetar, afetando, afetado!
Sabe, é esse carinho... de quando eu coço a sua nuca!
É um pôr-se ao lado!
Uh! E com fogo também! Que destila nossas mentes! Embriaga os sentidos!
De toda forma leal, ao que somos, ao que se é, ao que construímos... e é isso...
Pura produção de vida!
Amar não é querer levar a luz crepuscular para si, mas sim esvanecer seus limites ao próprio crepúsculo!
E imaginem só! Não há de fato limite! Nem em intensidade, nem em quantidade! Ufff
Que perigo! Que força! Imagina só esse nosso mundo invadido por isso! ( fala em empolgação crescente) Imagine só tudo e todos cheios disso!? O que não se poderia!? Amar intensamente e cada vez mais! O que não se poderia!? (ápice, gritando e cansando)
Ei! Ei!
Seus merdas!
Não me olhem com esses sorrisos sarcásticos!
Não me olhem com esse ar de incredulidade!
É isso!? É assim então!?
Então me deixem delirando sozinho!
(sobe de volta na árvore, joga galhos)
Vamos! Deixem-me só com meu delírio!
Cães malditos...
(atira galhos e vira-se de costas).

31.3.11

A Notícia

(... continuando...) Voltando a escrever...


- É importante que eu diga a vocês! Se as coisas foram dessa forma, a culpa é minha!
O homem de calça social, camisa azul muito clara, já chamava atenção por seu porte e distinção. Seus traços duros mas bonitos. Ao dizer isso várias pessoas naquela ampla sala pararam de falar e olharam para ele. Não puderam conter a surpresa, a curiosidade e até a indignação! O rumor se espalhou, conversas viraram cochichos, todos prestavam atenção no que ele iria falar.
A viúva, uma mulher que nem chegava à casa dos 40, bela, de rosto delicado mas altivo. Sua tristeza não marcava sua beleza, mas transpirava pelos poros. Estava sentada, cansada, um peso inclinava seu tronco. Uma senhora de uns 70 anos estava sentada ao lado, simplesmente a abraçava. Outras, igualmente tristes e igualmente não abatidas estavam em cadeiras próximas. O homem, do lado contrário do salão.
Ao falar, sentou, exasperado!
Apoiou os cotovelos nos joelhos. Sua boca repuxou, sua culpa desmanchou seus olhos! Apoiou a face nas mãos. Alguns olhavam de soslaio, outros fitavam diretamente. Um a um, os que estavam por ali foram se sentando, deixando um livre caminho de olhar entre ele e a viúva.
- O que te atormenta meu filho? - perguntou a senhora.
- Ele ainda poderia estar vivo! Sem dúvida que sim! Perdoe-me por matá-lo!
- Mas quem é o senhor? Por que pensa esse despropósito? - surpreendida a viúva.
- Diego, o médico que deu a notícia...
- Meu rapaz... conte sua história, por que carrega uma culpa tão grande? Não tenho dúvidas que meu filho seguiu o caminho que achou mais importante, não deve haver culpa sua, mas se te conforta o espírito, conte-nos.
Todos sentaram para ouvi-lo.
- Eu não lembrava bem dele. Só lembrei de toda a história porque vocês me mandaram o recado para vir ao velório.
- Sim. Ele deixou uma lista de contatos. Para você também tinha deixado o número do prontuário.
- De fato eu sequer viria se não fosse isso. São dezenas de pacientes todos os dias. É impossível lembrar de todo mundo. Um ou outro deles falecer é algo até corriqueiro. A gente sempre lamenta não é, mas eu já não me abalava. Mas quando chegou o recado, o nome completo dele... veio-me todo aquele dia para a memória. Que dia terrível!
Sim! Primeiro chegou um a meu consultório que queria que eu prescrevesse o mesmo remédio que o vizinho tomava, achava que iria melhorar tanto quanto ele. Mas aquela medicação não lhe era indicada! Era um homem grosseiro, um rosto quadrado, nunca mais me esqueci! Cabelo pouco! Começou a esbravejar. Eu continuei a negar, ele levantou-se, bateu na mesa e disse que fizesse o que estava mandando porque era ele quem estava pagando! Fiquei transtornado e o expulsei do consultório.
Depois veio outro, uma mulher obesa. Já tinha perdido muito tempo com ela, mas dessa vez ela chegou quase morrendo! Paramos tudo para atendê-la. Foi uma confusão sem tamanho. Meu estresse estava no limite! Estava irritado! As pessoas não seguiam o que eu falava e depois vinham dar trabalho! Eu orientava, explicava, mas nada!
Então a enfermeira trouxe os papéis de seu filho. Ela dava uma olhada em tudo antes de me trazer, adiantava uma coisa ou outra. Chegou com aqueles lindos olhos azuis arregalados. Pôs os papéis na minha mesa e apontou o resultado do laudo. Câncer! No cérebro! Estava chocada, tão novo, tão bonito! E iria morrer!
Os lábios de Diego se contorciam. Ele os mordia, mas nesse momento não foi mais possível conter. As lágrimas vertiam, intensas, buscavam expiação por suas falhas.
- Eu fiquei louco com a intervenção dela! Lembro das minhas terríveis palavras como se fosse hoje! Bonito?, perguntei eu. Vi no laudo que de fato o prognóstico era péssimo! É mais um que morre! Os cabelos negros da Silvana caíram, percebi, em seus olhos o quanto ela me reprovou naquele momento! O quanto estava decepcionada! Não dei importância e ela saiu.
Quando ele entrou, fui rápido e taxativo. Você tem um câncer cerebral. "Mas..." É! É maligno! "Mas tem tratamento?" Tem sim, mas poucas chances de cura. "O que se pode fazer?" Sobretudo cirurgia, mas talvez não seja operável. "E qual o risco?" Você pode morrer durante a cirurgia, ou ter seqüelas importantes, motoras, cognitivas e perceptivas. Eu não lembro! Simplesmente não lembro do rosto dele, não lembro do corpo dele, não lembro da expressão dele! Não sei como ele recebeu a notícia. Nada! "Quanto tempo eu tenho?" Na melhor das hipóteses alguns meses, se tiver sucesso no tratamento talvez alguns poucos anos. Ele ficou calado, eu preenchi os papéis com os encaminhamentos todos que deveria ter. E ele saiu.
Depois que ele fechou a porta a Silvana entrou, deixou um papel na minha mesa e saiu. Era um pedido de demissão! Fiquei furioso! Aceitei na hora! Só a vi uma vez depois daquilo... e eu era apaixonado por ela! Só agora me dou conta!
E então ele chorou... as comportas foram abertas...
Levou um tempo até que alguém falasse algo novamente. E foi ele, ele continuou.
- Dois dias depois, quando eu estava saindo do consultório, ele apareceu. Lívido, mas com certo sorriso no rosto. "Obrigado doutor, você me libertou!" Apertou minha mão e foi embora! Tive a certeza que o tinha tratado mal, que tinha feito mal a ele, mas ainda assim ele me agradecia! Essa frase ecoa na minha cabeça até hoje!
- Vai ver foi por isso que meu filho o quis aqui hoje. Não por ele, mas por você. No cabeçalho da lista com os nomes das pessoas que estão aqui hoje estava escrito: "Pessoas que eu amo e que eu espero que se conheçam!" Você traz um pedaço da história dele... talvez ajude a entender tudo o que aconteceu. O falecimento dele está sendo muito doloroso, pois ele passou meses desaparecido e nós não entendemos o que estava acontecendo.
Dentre os cochichos era possível perceber que uns e outros amaldiçoavam o médico. Palavrões e xingamentos. O homem perdeu toda a pose, estava encolhido como criança assustada.
De traz de uma coluna de mármore encimada por um vaso com folhagens verdes saiu uma mulher de pele branca, cabelos muito escuros e olhos azuis luminosos. Movia-se silenciosa a tal ponto de passar despercebida por quase todos. Naquele momento a maioria estava sentada em um irregular círculo, à borda do qual ela se aproximou e falou em tom imperioso:
- Alguém aqui pode trazer Zeca de volta? Então não sejam tão apressador em condenar o Diego! - ela olhou para ele com doçura.
- Silvana?
- Eu o desculpo, mas não carregue culpa. Zeca fez uma escolha... consciente... ele foi embora comigo!
Houve um choque entre os presentes. Ninguém entendia nada! A viúva se contraía na cadeira, a mãe levantou e sentou de novo... Silvana sentou com os outros.
(continua...)

28.1.11

A história da moça de leve melodia

Bom.... a história da morte do Zeca não está saindo. Mas tem outras coisas por aí...


Vou falar para vocês. Luana não era uma moça qualquer. Foi uma das mais impressionantes pessoas que já conheci. Bondosamente atrapalhada. Quando tínhamos contato, sim, porque já faz muitos anos que não a vejo, vi-a em diversas situações deliciosamente inusitadas.
Certa vez estava lá ela brincando com as crianças. Sabe, ela é dessas pessoas que de quando em tanto vão a um creche ou a um asilo. Dizem que é levar alegria aos outros, mas ela reconhece que aquilo enchia a ela mesma de felicidade! Se fosse para sofrer, não iria. Dor a deixa mal humorada e agressiva! Ah! Sono também!
Então, aquele dia tinha uma certa magia no ar! O clima estava agrável, ensolarado, mas de temperatura amena. Ela foi àquela creche, ou seria orfanato? Não me lembro. Levar alguns brinquedos para as crianças. Chegou, estacionou o carro e os encontrou brincando com bola no terreno baldio ao lado da casa (era um sobrado, baixo mas comprido). Já se conheciam e se adoravam!!
-- Tia! Eba! - gritaram em coro! - vem jogar com a gente!
Imediatamente ela saltou do carro e foi atender ao chamado! Como não! Em segundos já estava fazendo embaixadinhas e lançando um drible ou outro que deixava alguns dos meninos boquiabertos.
Depois de algum tempo de jogo teve uma estranha sensação. Estranha enquanto sentido, mas não enquanto familiaridade. Era um certo frio na barriga, com uma dorzinha no ombro que lhe repuxava o braço direito. Sim! Tinha esquecido de algo! Mas o que seria? Chave de casa? No bolso da calça jeans azul. Chave do caro? Na bolsa! Bolsa... Ali no canto, atrás do gol de traves imaginárias marcadas por dois tijolos. Mas o carro... Cadê o carro? Não estava mais onde tinha estacionado! Olhou em volta! Todo mundo parou o que estava fazendo para entender o que estava acontecendo! Ela mostrava-se apreensiva, que raro! Corpo agitado, olhar apressado. Enfim o viu, tinha descido alguns metros e estava parado quase na esquina. Tinha esquecido o freio de mão abaixado!
Correu até o carro. Pernas finas, mas bonitas e elegantes, mesmo ao correr atrapalhada sobre o paralelepípedo. Ao chegar nele atrapalhou-se um pouco com a chave, que caiu. Luana apoiou-se no carro para pega-la e então ele começou a descer novamente! Mas dessa vez era uma ladeira íngreme. O veículo desceu e ganhou velocidade. Ela desceu correndo atrás do carro. E atrás dela, as crianças. Então, no fim da descida, ele arrebentou a traseira em um muro, derrubando-o inclusive!
E os brinquedos? Estavam todos no porta-malas ainda! Destruídos agora... alguns pedaços de plástico estavam até pelo chão em volta do lugar da colisão. As crianças ficaram injuriadas e voltaram todas para dentro. Fim de brincadeira.Entretanto, depois de uma ou duas horas ela apareceu na creche de novo. Chorou um pouco por seu querido carro, é verdade, mas já tinha acionado o seguro e o guincho já tinha levado o carro. O que poderia ser feito já o tinha sido. Então ela entrou na creche com uma grande sacola, as crianças a cercaram cheias de esperança e expectativa, mas quando abriu o saco, tudo o que viram foram pedaços de brinquedos.
Foi então que ela sacou de uma outra bolsa tubo de cola, tinta, pincel. Enquanto cantarolava, os pequenos a seguiam, hipnotisados, e começavam a criar novos brinquedos a partir daqueles destroços ou a enfeitar objetos. Várias camas ganharam adereços coloridos, algumas maçanetas foram cobertas de cores!
Cantarolando, pulando e dançando ela se foi. Deixando para trás pequenas pessoas prontas para jantar sonhos.
Mas como disse, esse foi apenas um caso exemplificar de uma situação deliciosamente inusitada. Sempre se produz coisas novas onde se enxerga potência! Devemos avançar pois um fato "periculoso" deve ser contado! E tudo o que disse antes só serviu para saberem um pouco mais sobre a Luana!

(continua...)

19.1.11

A vida insiste em perseverar

A vida insiste em perseverar. É isso. E nós insistimos em perseverar a vida daquilo com que nos identificamos. Explicação simples.
Estamos vendo, nesses tempos, as grandes tragédias ocorridas no Rio de Janeiro. Há que se escrever sobre isso e tirar alguns argumentos da boca de jornalistas tacanhos.
Tragédia Ecológica? Isso é um tragédia política e social, isso sim! Não há dúvidas que fúria das águas e da lama se abateria sobre a região não importa o que se fizesse. Não há dúvidas de que haveriam mortos (isso para contra argumentar aqueles que colocam toda a culpa nos governantes). Mas também é importante que se diga algumas coisas. Já se sabia que muitas das áreas ocupadas, urbanizadas, apresentavam risco aos moradores e freqüentadores. Isso era sabido, entretanto, as pressões políticas permitiam as construções. Qual vereador/prefeito não cede mediante a ameaça de retirada de recursos da cidade? (sem contar os esquemas mais corruptos em que a permissão para ficar/ocupar faz circular dinheiro entre os poderosos das cidades) O clientelismo e o populismo ofereciam esses terrenos à falta de moradia. Mas aí também tem sempre aquele que põe a culpa no pobre coitado que ocupou o barranco. Duvido que tenha ido para lá por alguma preferência pessoal, seria mais adequado dizer que "foi parar lá", na falta de outras opções para uma existência digna, sob um teto acolhedor.

Desses absurdos todos que temos escutado nos jornais para explicar, justificar, acusar, culpar etc teve algo que me mobilizou demais. Está relacionado com a reportagem colocada abaixo. Uma senhora se refugia da forte correnteza de lama no terraço de sua casa. Os tijolos ainda por cobrir dá a impressão que é um parte da casa onde ela ainda está investindo algo. Não temos como saber nada sobre o andar debaixo pois já está inteiramente coberto. A água continua subindo. Ela está só, com seus três cachoros, e começa e ver as paredes não terminadas daquele terraço ruirem. Nos prédios vizinhos as pessoas se mobilizem, de um que está próximo à casa lhe é atirada uma corda. Todos gritam orientações para ela. A senhora amarra a corda entorno da cintura. Tenta amarrar o cachorro menor junto, mas não consegue. Então ela o põe de braço do baixo e pula na direção do prédio tendo uma grande tormenta de água, coisas carregadas por esta e lama no meio do caminho. A correnteza era exatamente a de um rio caudaloso descendo uma serra íngreme, nada menos do que isso. Uma cachoeira horizontal. Quem quer que já tenha passado por águas turbulentas assim entende do que estou falando (ainda que ver o video torne esse imaginado algo bastante claro). A câmera mostra os pretensos salvadores, dois homens no terraço do prédio, talvez uns três andares acima da altura em que a mulher se encontra.
Ela salta! O que garantia que eles iriam agüentar? Nada! Ela é grande! A morte está a seu encalço e a única esperança era pular para a possível morte e confiar. Ela afunda na tormenta, a correnteza a leva um pouco para o lado e eles conseguem erguê-la para fora. O cãozinho foi levado, as mãos dela estão vazias. Ela é pesada, o rio é forte, mesmo assim os dois conseguem puxa-la. Não há nada no video que nos faça acreditar que os dois salvadores sejam maiores do que a média dos homens, nem mais fortes, mesmo assim eles a erguem em segurança (não sem grande esforço! Os mais atentos podem ouvi-los gritando, antes de cada puxão, "um, dois, três"). Ela é salva.
Bom, aí o repórter diz que a mulher se salvou por sorte! Sorte do que? De haver uma corda? De ter um prédio do lado? Pois eu digo que a vida insiste em perseverar e nisso explode a potência de cada um em pura coragem e solidariedade! Sorte? Famoso, "eu truco!"
Foi sorte o pai ter encontrado uma fresta na lama onde pudesse proteger seu bebê? Digo que foi coragem ter resistido e ter hidratado o filho com a própria saliva e tranquilizado-o enquanto ele próprio estava ferido e devia amedrontado.
A lógica seria morrer. O corpo e a vida são frágeis diante das intempéries todas que os cercam. Muito frágeis! Mas a vida, em tendo uma chance, menor que seja, insiste em perseverar!


1.1.11

Férias

Agora é este autor que vos fala em si!
Não é um conto, uma fábula ou qualquer coisa assim.
Mas conto-lhes que já faz uns 5 anos que não tiro umas boas férias. As que formalmente tirei foram usadas para propósitos, digamos, que não meus. Não eram para descanso, para reflexão, para passeios ou qualquer coisa assim que as pessoas costumam fazer nesse período.
Mas... por incrível que pareça! E por uma conjunção de fatores até mesmo fora de minha alçada 2011 começa assim! Férias de trabalho em janeiro!
A primeira semana será dedicada ao tão sonhado descanso! Uma viagenzinha mochilada! Daquelas de baixo custo!
O resto do mês será da luta para que o mestrado entre em trabalho de parto!!
Dessa forma o próximo post e, talvez, a continuação do post anterior, venha apenas lá pela metade do mês.
Descansam, divirtam-se, sejam felizes.

27.12.10

Funeral

Longo período de jejum, os motivos de sempre!
Agora talvez comece uma nova seqüência de histórias, que talvez seja interrompida por umas ou outras histórias que não tem a ver com esta. Quem tiver paciência que acompanhe até o final.
Para ficar mais fácil, os poucos leitores devem ter percebido que introduzi uma nova página no blog (em uma aba acima), a Histórias Completas. Ali estão as histórias que foram publicadas em mais de um post, colocadas em seqüência de publicação.
Poderão achar estranho que bem no período das festividades eu tenha iniciado uma história por um velório, paciência... isso já tava cozinhando na minha cabeça fazia muito tempo e preciso realmente começar a desovar algumas coisas!



Já estamos nessa faz bastante tempo não é? Sabe que nunca vi algo como vi essa semana!? Foi impressionante.
Sabe, costuma ter um certo senso comum em velórios. Algumas pessoas choram ao caixão. Ficam olhando pensativos para o morto. As pessoas vão chegando e vão indo embora. Se abraçam. Choram. Lembram das últimas histórias, ou das primeiras, com o defunto. Alguns conversam e arriscam risos ao fundo. Isso é o mais lugar comum, o mais padrão.
Ah! E as histórias são aquelas totamente desinteressantes não é? Ah! Quando ele andou, quando ele falou, quando ele casou! E todos viram boa gente. "Me enganou várias vezes, mas era boa gente!".
Só agora percebo o quanto é sombrio isso que vivemos todos os dias. Acho que já perdemos um pouco a sensibilidade não é?
É! Com certeza sim...
E sempre contar as horas pra acabar... passar o turno e sumir para a casa. E arrumar algum passatempo para não ficar lembrando de toda aquela dor.
Mas não naqueles dois dias!
Eu simplesmente não consegui ir embora!
Não, estava muito cheio, mas não ficaram muito atrás da gente não.
Aliás! Que tanto de gente! Fui pesquisar o nome do morto, quando tem muita gente assim costuma ser da elite né! Não encontrei nada! Pessoa comum. Homem, adulto jovem. Caso trágico, aparentemente alguma doença rara. Não sei bem. Quase todos ali se referiam a ele como Zeca. Em volta do caixão algumas mulheres. Não dava para saber muito bem quem era a esposa dele. Todas olhavam para ele com muito amor. Se abraçavam, se consolavam, mas não estavam desoladas. Muitos estavam mesmo felizes. Foi bom pra ele? Deixou de sofrer? Não sei se era bem por aí não. Não ouvi ninguém com aquele típico tom de piedade: "ah, foi melhor assim né..." Fico louco no quanto escutamos isso todo dia! Que raio de consolo mais tosco! O desgraçado morre sofrendo, cheio de dores, se cagando, sem entender nada, sem reconhecer ninguém, muitas vezes sem o carinho de uma família já exausta de cuidar daquele carma de gente! E ainda vem falar que foi melhor assim? Isso lá é forma de morrer?
Não. Não era esse o caso. Havia lamentações sim, mas ninguém questionou o fato dado, ele morreu! Ninguém se perguntava o porquê, amaldiçoava a Deus ou ao Inferno. Ninguém questionava o porquê de morrer tão jovem. Saudades! Era disso que se falava!
Porque eu não conseguia ir embora? Oras... porquê... não dava para deixar de ficar ouvindo as histórias que se contava dele. No começo eram conversas paralelas. Uns falavam da infância, outros da adolescência.
Conta-se que tinha sido uma criança calma, amiga, inteligente... não dava trabalho, não causava transtorno. A adolescência tinha sido típica. Contestatória, com lascas de juventude transviada. Um ou outro se supreendia com inesperados casos de bebedeiras.
Os contos se sucediam. Vez por outra alguém contava algum mais animadamente e atraía mais ouvintes. A roda ia se abrindo. Em pouco tempo o caixão tangenciava uma formação irregular de cadeiras, meio circular. Um falava e todos ouviam. Riam e choravam com as histórias.
Em pouco tempo me veio à mente aquelas coisas de acampamento. Um monte de jovens em torno de uma fogueira, às vezes um violão, às vezes uma história de terror. Todos ali, mulheres e homens, jovens e velhos, com um caixão ao lado ouvindo histórias do defunto. Todos atentos, um por vez contando cada uma das histórias...
Histórias...
Naqueles dois dias de vigília desfiaram toda a vida do morto. Compartilharam suas próprias vidas! E quando acabou chorei como menino novo. E não foi de tristeza, foi de beleza! Foi de amor! Você não está entendendo não é? Vou tentar te contar um pouco do que eu ouvi. Um ou outro trecho eu perdi. De tantas em tantas horas tinha que sair para passar uma grande garrafa de café. Mas vamos ver o que ainda lembro...

8.12.10

Frango Verde

Essa não é uma história de ficção científica. Não nos remeteremos a nenhum godzilla, acidente nuclear, experiências genéticas ou qualquer coisa assim. Entretanto, não se pode deixar de considerar a cena deveras singular!

A jovem alegre, extrovertida, comunicativa sempre levava seus amigos confraternizar em sua casa. Seguindo o padrão da adolescência, isso se dava quando seus pais iam viajar. Por sorte daquele grupo de amigos isso acontecia com certa freqüência. Uns três ou quatro chegavam primeiro. Colocavam o assunto em dia, ou simplesmente ficavam falando bobagens sem parar (isso na verdade era o mais comum, qualquer outra pessoas descontextualizada recomendaria medicações psiquiátricas em alta dosagem para os protagonistas da conversa!)

Tinha também a preparação. Uma comidinha ou outra para fazer, a TV para arrumar, o DVD para encontrar (ou naquela época ainda era fita cassete? Esqueceram de dar-me esse detalhe!).
- Pipoca? - perguntou uma
- Pode ser!
- Tem milho?
- Ahn... deixa eu ver... tem sim!
- Oba!
- Eu faço – interpelou a outra, certa resignação, sempre sobrava para ela mesmo. Ninguém mandou ser uma boa cozinheira, respondiam-lhe. No fundo bem que gostava desse reconhecimento. E todos eram sempre muito solícitos e dispostos em fazer a coisa acontecer (em geral, após um longo tempo debatendo até conseguirem decidir o que fazer).
- Onde ficam as panelas?
- Toda vez tenho que explicar! Vocês tão cansadas de saber!
- Ah! Eu sei! - disse a primeira.
- Tudo isso pra uma pipoca? – disse outro vendo a confusão das três na cozinha.
- A meu! VOLTA PRA SALA! - foi respondido em coro
- Ui! Desculpa. - respondeu com sorriso maroto.
- Opa! Pera! - interpelou a primeira, puxando a panela – Si! Que porcaria é essa?
- Ahn?
- Deixa eu ver – a cozinheira lançou-se para cima da amiga olhando dentro da panela – é um frango!!!
- É! Eu sei! Mas é VERDE!
- Argh! - ressoou, talvez até os vizinhos uns três andares de distância tenham escutado.
- Ah!!! Eu odeio minha mãe!! O que ela fez aqui? Só me faz passar vergonha!!!
- Calma Si... tudo bem...
- Calma Si, mas eu não encosto nisso daí!! - consolou a outra a gargalhadas.
Enquanto os três olhavam estupefatos para a panela, na qual tinha um frango quase inteiro, assado, mas tão coberto de fungos que estava completamente verde, Si foi ligar para a mãe.
- Oi mãe!
- Que droga!
- Que foi? Tem um frango verde no armário!
- É mãe! No armário!
- É MÃE! Tá VERDE!
- AH!! É CLARO QUE TÁ MORTO MÃE!!!
- Alguém além de mim imaginou um frango radioativo correndo pela cozinha? - disse a cozinheira, sendo respondida por largas gargalhadas pelos outros dois amigos, o que fez a anfitriã fugir rapidamente e se trancar no quarto, afinal ela não sabia que tinham todos aqueles amigos ali em casa!
Claro que hoje em dia a história do frango verde, já virou um mito entre aqueles amigos. Talvez seus netos ainda sejam entretidos por essa história, sempre contada às gargalhadas, com diversas repetições ao final: “É CLARO QUE TÁ MORTO MÃE!”