12.4.13

Feerismo

Depois de séculos sem escrever, vai aí... reaquecendo as baterias...
Claro que rolou uma putaria do servidor que excluiu meu post. Gábi veio me salvar, tinha impresso o micro-conto assim que eu tinha postado. Vai de novo transcrito e levemente revisado.

A reflexão abaixo escrevi quando comecei a escrever o conto, alguns vários meses atrás. Resolvi mantê-la, ainda que a breve história tenha mudado radicalmente a cada suado parágrafo...

A vida vai se construindo em momentos. Quanto mais amor e alegria atravessando-os, mais intensidade e potência criativa para a vida. Isso é o tempo todo, no cotidiano. Mas existem alguns momentos que são particularmente mais impactantes. Alguns atribuiriam isso a certo alinhamento astral planetário, outros ao destino ou a caprichos de algum deus animador de títeres. Parece-me mais provável que as disposições construídas e presentes em algum momento levem a estes acontecimentos, a estes momentos de explosão de vida. Só os dispostos podem vibrar a esse acontecimento... os demais passam incólumes, como um cego diante de uma linda mulher nua.

Um homem caminhava pelo mundo. Caminhava sem ter muito destino. A cada lugar encontrava e conhecia seres, os quais o levavam a outros lugares e assim por diante. Suas relações eram rápidas, fugazes. Certa vez alguém lhe disse que tinha medo de estar com as pessoas! Mas que absurdo! O que ele mais queria era conhecê-las, como poderia dizer que tinha medo? Isso ele me confessou em carta, recentemente.
Por aqui, passou rapidamente... ficou apenas uns meses. De maneira voraz invadiu nossas vidas. Dizia que tinha vindo para estudar, matriculou-se em algumas disciplinas na Universidade, alugou um quartinho em uma pousada. Raramente contava sobre sua vida, a custo consegui descobrir que a família estava a uns 500 quilômetros de distância, os quais raramente via. Na segunda semana de aula conseguiu convencer-nos de sair para tomar uma cerveja. O grupo ainda se conhecia pouco, mas de bar em bar criou laços importantes de amizade. Fiquei sabendo que toda semana ele fazia uma visita a um ou outro. Vinha em casa com certa frequência, apaixonamo-nos por ele. Sua fala mansa e extrovertida, seus olhos cinzas esverdeados, seu cabelo cacheado e comprido.
Não. Não me perguntem mais do que isso.
Reparei que ele costumava lembrar o que as pessoas tinham dito ou feito de uma semana para outra e que sempre conversava olhando nos olhos. Seria uma estratégia para invadir-nos? Não sei, consciente ou não, funcionava. Um semestre foi o suficiente para que o grupo tivesse criado profunda afeição por ele e entre si. Como algumas pessoas gostam de separar, podemos dizer que várias pessoas viram-se apaixonadas por ele como amigo e outras tantas flagraram-se arrebatadas de paixão pelo homem, mas vários de nós acabamos mesmo apaixonados uns pelos outros, ainda que fosse difícil admitir.
Um dia, quem sabe, conte em mais detalhes as histórias que vivemos naquela época, mas agora queria escrever sobre o momento em que ele nos deixou. Escrevo porque sinto saudades. Sei que ele está bem, ainda que a vida esteja sendo mais difícil, é certo que também está mais feliz. Sinto sua falta.
O semestre acabou e ele nos convidou para uma viagem. Merecido descanso de 10 dias. Passeio cultural e histórico. Viajamos nós três, pegamos o mesmo quarto na pousada. Tudo foi maravilhoso. Ao longo do dia andávamos, muito. De história em história fomos conhecendo a cultura local, seus costumes e suas delícias. Alguns doces fantásticos! E o prato típico então? Comemos todas as suas variações! O romance estava no ar e a felicidade crescia a cada dia.
No final do dia, depois das caminhadas e comilanças voltávamos pra pousada. Um momento de descanso. Calmamente cada um cuidava de suas coisas, enquanto os outros tomavam banho e se arrumavam para a noite. Já no terceiro dia ela comprou um caderno e vários lápis coloridos. Desenhos foram brotando, descompromissadamente. Ela desenhava com graça e tranquilidade e parecia-me ainda mais bela. Sorria enquanto pintava um desenho mais sóbrio ou outro mais alegre. Não sei se a viagem ou o romance a inspiravam, aquilo tudo simplesmente fluía por seus dedos. O corpo estava cansado, mas uma disposição jovial a fazia pular entre as páginas rabiscando livremente.
Eu também estive em uma alegria deliciosa que me fazia saltar de um canto a outro, em uma prontidão inabalável. Garçom grosseiro, ônibus errado, quarto bagunçado, nada era motivo para abalar todo esse bom humor.
Já nosso amigo amante, nesses breves momentos de calmaria punha-se a meditar. A cada dia parecia estar mais inquieto. Não que a viagem estivesse provocando isso, mas algo que nossa convivência intensa de uma quase lua-de-mel pôde desnudar sobre ele. Uma permanente agitação. E foi ficando claro que, ao voltarmos, as coisas já não seriam as mesmas. Sua inquietude era perturbadora e o colocava cada vez mais isolado em si mesmo.
Que poderia fazer? Ele estava escapando por entre nossos dedos!
Esquivou-se de qualquer aproximação que tentei fazer! Dizia que estava bem, apenas estava com a cabeça cheia de pensamentos sobre o que faria ao voltar, mas não me confirmava se partiria para outro lugar. Para tudo respondia: é possível.
Então, um dia, saímos cedo para mais um passeio. As primeiras horas do dia anunciavam calor em uma manhã ensolarada. Pegamos um trem para a cidade vizinha. O clima mudou radicalmente, nuvens cobriram todo o céu e uma garoa intermitente deixou o clima deveras frio. Entretanto, não haveria oportunidade para retornar ali em outro momento, o jeito era continuar e suportar as intempéries climáticas.
De um ponto turístico a outro fomos subindo um íngreme morro, a umidade tornava os paralelepípedos muito escorregadios e o vento cada vez mais frio. Tomamos um ônibus turístico para terminar a subida, ida e volta garantida em meio a uma dezena de pessoas de várias nacionalidades. 
Chegamos a ruínas seculares que guardavam o vale. Pedras enormes cuidadosamente assentadas resistiam a severidade do tempo, preservando muradas e muralhas, lembrando tempos de selvagem beligerância. O clima foi piorando conforme entrávamos nas ruínas de escadas, baixas amuradas e paredes corroídas. O vento era intenso, queria nos arrematar dali de volta ao fundo do vale? E o que impedia isso era uma mureta que mal chegava a meio metro de altura. Apesar disso, ainda tínhamos a sensação de estarmos imersos em uma nuvem espessa, impressionantemente resistente às correntes de ar, de forma que a vista alcançava apenas curta distância. 
Caminhamos de um lado a outro, chegando, finalmente, ao ponto mais alto. Ali, atravessamos um pórtico após o qual tivemos acesso a outra área aberta sobre a muralha na qual andávamos e que dava vista ao outro lado, onde era possível ver outra antiga construção em ponto ainda mais alto. As construções pareciam olhar uma para outra em meio a um tapete de árvores. Dizem, que um antigo governante da região ficava horas naquela plataforma pintando a paisagem e sua própria morada, acompanhado por um séquito inebriante de artistas animados (e sombrios, diriam alguns).
Eis que a névoa dispersou-se momentaneamente, ainda que fosse possível vê-la a apenas alguns metros de distância. Sentada em um canto estava uma moça, vestida com um macacão de flores azuis, com a cabeça envolvida por um xale vermelho com algum bordado. Com cabeça baixa, distraidamente olhava algo em seu celular, talvez fotos. Em uma lufada ela parece perceber nossa presença, ou dá importância para isso. Levanta a cabeça (talvez estivesse curiosa sobre que adentrava sua solidão), cuidadosa e vagarosamente tira o tecido da frente do rosto e o cabelo negro de sobre o olho, revelando uma íris amendoada coroando um olhar penetrante, carinhoso e interessado... Ele a mira exatamente neste momento, ambos ficam parados, flertando-se por um tempo que quase pareceu uma eternidade. O ar ficou pesado, o peso do instante fatal, do momento em que algo acontece. Com um doce sorriso ela rompe a tensão e volta-se para o aparelho novamente, mantendo o sorriso e uma conexão invisível entre aqueles olhares, constantemente, de canto, ela ainda o fita, levantando brevemente o rosto.
Conversas, piadas, histórias e fotos entre nós,  em nada diluíram aquela conectividade, ainda que a interação entre os corpos não tenha passado daquele olhar. Enfim, resolvemos descer. Já tínhamos ido na construção do outro lado. Era tempo de partir. Vamos saindo e a moça ficando. Ainda no primeiro degrau nosso companheiro pára como se pensasse em algo absolutamente abalador, finca o pé, agita os braços praguejando contra si mesmo. Ele volta e, pé-ante-pé, pára diante dela, que com um sorriso retribui o retorno. Lentamente ele se abaixa, toma-lhe a mão e olho a olho declara sua beleza."You are lovely!", foi possível ler em seus lábios, pois quase não tinha som. Ela sorri e agradece inclinando a face com uma largo sorriso e ele volta a descer as escadas... fugindo?
O que aconteceu?
Por um momento fico atônito.
O clima volta a piorar.
No caminho de volta, ele olha para traz o tempo todo. Palpo no ar algo como "quero busca-la, mas não posso" ou "não consigo". Chegando à rua pudemos ver o ônibus passando, não corremos... cansaço ou vontade de não ir embora. Pacientemente esperamos pelo próximo. Conversas soltas no ar parecem não desfazer o impacto que nosso amigo teve com aquele encontro. Parece ansioso, anda para um lado e outro, vez por outra ignora o que estamos conversando para falar daquela moça...
Então...
Ela aparece, segundos antes do ônibus. Uma fila já está formada e ela está no fim, nós no começo. Os olhares se conectam novamente. Sentamos logo nos primeiros bancos, ela acaba indo parar no fundo. Ele vira-se para trás o tempo todo. Porque não vai até ela? Parece tomado por súbita incapacidade de se mover!
A condução pára em outro ponto turístico, descem várias pessoas. Ele a vê já pela janela. Chega a levantar-se esticando os braços para ela, mas o ônibus arranca pondo-o sentado novamente.
O resto do dia é de quase completo silêncio. No trem, no retorno à cidade, fez-nos sentar no fundo e depois passear até a frente dele. "Queria ver como era o trem". Seus passos eram pesados. A noite tem tons de desolação. O dia seguinte foi viajando. Mudamos de cidade. E ele ficou absorto na paisagem vista através da janela do ônibus. Cerca de quatro horas assim...
Uma pontada de ciúmes começou a nos incomodar. Mas ele nunca tinha sido "nosso" e, na real, aquilo poderia ter acontecido a qualquer um, a qualquer tempo. Um arroubo de paixão? Não somos senhores do coração alheio... tão pouco convém tal pretensão de controle.
Chegamos à noite, um pouco cansados, mas ainda querendo passear. Fomos tomar uma cerveja e ainda assim ele pouco falou. De manhã fizemos um tour guiado, com um grupo de pessoas de vários países. Tantas histórias distraíram um pouco e trouxe riso novamente.
Após o almoço insistiu que continuássemos andando. Ele não cessava sua busca. Queria conhecer a outra margem do rio, ficar mais perto daqueles singulares pequenos barcos que ali atracavam, cheios de barris. Cedemos. Atravessamos uma bela ponte de ferro e fomos andando pelo calçadão próximo à água, olhando os barcos, as pessoas sentadas no gramado curtindo uma preguiça.
De repente ele congelou. Olhamos para trás e ele estava parado, com os olhos arregalados.
"É ela!", ele disse. "Ahn?". "Tenho certeza! Ela me cumprimentou com os olhos!"
Até aquele momento eu ainda não tinha entendido exatamente o que tinha acontecido. Só podia ser um encantamento algo tão estuporoso, tão arrebatador. Não tinha como reagir àquele olhar quase desesperado dele. Com um braço acordei-o do transe, mandando-o atrás dela.
Aqueles segundos imobilizados pareceram horas. Um não saber o que fazer, uma falta de coragem, uma não medida de qual seria a reação necessária para aquela situação inusitada... e tão comum...

Ele foi! Correu até ela. Mais pela ansiedade do que pela distância ou risco dela sumir, ela tinha descido até as pedras mais próximas ao leito do rio e ali jogava migalhas de pão aos peixes e aos pássaros. Ali os dois sentaram e ficaram conversando.
Sentamos por perto para beber algo enquanto o esperávamos. Por nada no mundo interromperíamos aquele momento nem por um segundo. Não era possível escutar o que diziam, nem nunca fiquei sabendo. Depois de cerca de uma hora levantaram e pegaram um teleférico para a parte alta da cidade. Nós ficamos ali mais um pouco e voltamos à nossa hospedaria. Ele apareceu de novo no começo da noite, sozinho. Ela nos encontraria para um tour pelos bares da cidade mais tarde.
"O que aconteceu?", "Nada", "Como?", "Só nos encontramos..."
Parecia estar ocorrendo uma revolução naquele corpo. A agitação denotava traços de ansiedade, preocupação e uma alegria profunda.
Choveu. Torrencialmente.
Chegou o horário marcado e continuava chovendo forte.
Foi preciso segura-lo para que não saísse na chuva.
"Eu nunca mais vou encontrá-la"
Saímos atrasados. Pouca coisa. Nada que qualquer pessoa não tivesse esperado. Ela não estava lá. Esperamos. Tomamos um vinho. Ela não chegou. E continuou não chegando...

E todo dia, em todo o passeio, ele passou a olhar pela janela esperando pelo inaudito.
E passou o resto da viagem olhando pela janela.
Ele tinha razão.
Disse-me uma vez que naquela ocasião tinha se sentido invadido. Ela o quebrou. E ao quebrá-lo abriu-o para o inesperado, para o caos...
E assim ele se foi... se rearranjar em um caos para desfazer-se nele novamente...
Ainda nos amamos.

12.10.11

Tinta e Sangue


Inusitadas coisas podem acontecer em um dia de testes. Ideias sendo postas à prova. Sim, talvez mais ideias do que conhecimentos. Propostas, projetos. Questões… É… nada fácil.
Aquele foi um dia destes. Um desafio. O dia começa ansioso, tenso. Ansiedade e tensão que provocam cegueira…
Os quatro começaram a arrumar confusões logo cedo. Mal o sol tinha nascido, um céu azul, a perfeita definição da cor azul celeste, o horizonte com seus amarelos de tom pastel, e ele já estava se arrumando, era necessário atravessar a cidade, para começo de conversa. Para sua surpresa nunca foi tão rápido, com cada segundo tão longo, fazer tal travessia.
Encontrou com as duas. Alguns biscoitos em agitação exponencial! Os preparativos ainda eram muitos e deveras trabalhosos! Saíram em busca da quarta. Algo estranho já se anunciava quando chegaram na casa desta, sempre tão pontual, dessa vez ainda atrapalhada. A de crespos cabelos ficou para ajudá-la, enquanto os outros dois prosseguiam com a missão.
Seriam necessários grandes tapumes de madeira que receberiam as impressões e as expressões de quatro vidas coletivas! Nesses ânimos exaltados os planos podem ser dimensionados de uma maneira disforme. Porque mesmo acharam que as tais madeiras caberiam no carro? Generosamente, sob um olhar de pânico, um carro novo, impecável, foi oferecido para carregar aquele material… o tempo passava…
Diante da delicada situação, o pintor se ofereceu. Seu Scort ano 80 e pedrinha daria conta do recado, estava acostumado a carregar coisas maiores e mais pesadas. O tempo passando… monta suporte… parafusa… o tempo passando… apóia, amarra… jornal… sacola… o tempo passando…
Enquanto isso, em mãos tensas, um copo estilhaçava em outro canto do bairro…
O tempo passando…
Cadê a chave? Serelepe esse saci, que some com as coisas em momentos de tal delicadeza!
Chave encontrada, partem já atrasados. Carro velho, rodando lentamente pelo asfalto, o tempo passando…
Enquanto isso… noutro canto do bairro, pernas bambeiam sobre o desnível territorial de calçada mal assentada! Chão! Tocos de árvores ressequidas rasgando a carne, afastando o quer que impedisse a rota do nariz ao chão!
E então o carro velho faz a curva e seu perspicaz e prestativo motorista imediatamente nota a senhora ensangüentada na esquina!
“Nossa! Ela está sangrando!”
“Ahn?”
“Quem?”
“Vamos socorrer!”
“Ahn?”
“Ok...?”
Ele rapidamente dá a volta no carro. Manobra ousada para quem vinha tão lentamente circulando… A senhora estava lá, na esquina, os dois mal notaram, desorientada…
“Senhora! Está tudo bem? Quer ir pro hospital?”
“É… quero… aquele lá… tenho convênio…”
O rapaz dá espaço a ela no banco da frente. O motorista faz mais uma volta radical e parte, na maior velocidade que o carro agüenta, para o tal hospital. Em meio a saltos do carro e estouros de escapamento, a sensação de que o veículo desmontaria na próxima esquina, o tempo voando, perguntas de “como a senhora está”, mãos dadas apertadas, confusas, sem saber o que pensar, mas pensando, em uníssono, “com a gente tem que ser na intensidade! Não acredito! Estamos fudidos!” As mãos não se descolaram mais…
A senhora foi deixada na entrada da emergência do Pronto Socorro, já sendo atendida por alguém da enfermagem.
Tapumes balançando… “esse escapamento vai cair?”
Tempo voando…
“Sabem, eu tenho diabetes, já até desmaiei algumas vezes… Não posso com sangue!”
E os passageiros pensam: “Ah! Meu Deus!”, “Só falta ele desmaiar agora”
“Até teve uma vez que me tiraram de cima de um barracão na corda, porque desmaiei lá em cima!”
“Porque eles está contando isso pra gente agora?”
“Ai! Ele Vai desmaiar!”
Mas não, finalmente a faculdade, sem desmaios. O tal pintor ainda se ofereceu a ajudar a carregar o material. Não foi necessário. A tensão fez seu trabalho e três franguinhos subiram com as duas pesadas peças.
Um soco caiu no estômago dos dois enquanto terminavam os preparativos. Não por qualquer moralismo babaca, mas pela sensação de que, enquanto cidadãos e trabalhadores de saúde, quase não cumpriram com seus arraigados compromissos éticos com a vida.
Enfim as tintas voaram, a conversa rolou, a tela foi limpa, a pressão retirada, os gases se espalharam nas telas, preenchendo a sala e invadindo as pessoas. Estava feito e tinha dado certo

18.9.11

Um momento


No barco, um churrasco. Ao menos um dia de descanso! Além de carne, banana. A embarcação vai adentrando na selva, que deixa um caminho cada vez mais estreito. Mas não, a margem não estava ali do lado! Não era possível ver margem, apenas selva.
Por fim um calmo braço de rio junto a uma comunidade ribeirinha. Um banho, uma tentativa de lavar aquela dor. Na comunidade um menino… fraco, magro, desnutrido… a comida não obedecia a sua boca rachada… ali talvez morresse de fome. Na cidade grande uma simples cirurgia talvez lhe garantisse uma vida longa e bela… Nem no descanso há descanso por aquelas terras, pelo menos não aos que lhe são estranhos e sensíveis.
O retorno é lento, contra o fluxo do rio… Finalmente caímos em um leito largo. A samaúma reina ao longe. Eis que vários botos surgem acompanhando nosso lento navegar, cristas que despontam em marolas. O sol vai se pondo, dourado, alaranjado, avermelhado, resfriando-se no rio à nossa frente. Mas às nossas costas, seguindo o movimento dos viajantes, uma grande lua cheia prateada emerge das águas marrons.
Não, não estávamos mais sob a luz crepuscular, tão pouco sob a luz do luar. Não, não eram botos. Não, não eram nossos corpos lavados pelo rio. Era outra coisa. Uma composição única. Uma pintura feita às pressas, dedilhada nos detalhes. Sentados no teto do barco, contemplando, sentíamos o acontecimento atravessar-nos… só o choro nos restava.

23.8.11

Ruínas?


Há tempos querendo escrever alguma coisa. Avançando na construção de estados mentais que propiciem tal atividade…
Aí vai um acontecimento que vem retumbando na cabeça…
Na verdade esse texto está pronto faz tempo...

Foram dias sombrios, dias de pouco sol. Nuvens, sombras, chuva. Vez por outra um frágil raio solar dava a esperança de um dia mais contente. De verdade, não havia a menor expectativa que isso acontecesse no espaço de alguns dias. Nada no ar dava a entender isso. Lembro bem de épocas em que passamos semanas sem uma trégua na garoa.
Mas o ar mudou, o vento mudou e, naquele dia, tão aguardado, tão esperado, tão preparado, as nuvens foram varridas. Um inusitado céu azul fez com que respirássemos fundo e pensássemos, cada qual em seu canto da cidade, hoje será um dia especial, um dia-acontecimento!
A despeito dos temores e na alegria das incertezas, foi!
As ruínas, naquela parte alta do bairro, contrastam fortemente com a tarde ensolarada. Paredes quase caídas, grandes muralhas que delimitam um espaço de sobrevivência. Sobre a vivência em um estigma, ou vários. Em preconceitos, em dores, em violências. Os aldeões daquele castelo, ali, estão dentro, apesar de estarem fora de tudo o mais que poderia acolher-los no mundo.
E eis que corpos alienígenas violam a segurança da aldeia. Tem um fora querendo entrar, querendo colocar para dentro. Olhar uma vida que pulsa onde quase todos supõem que ela não exista. Onde há pessoas assustadas, ressentidas, esperançosas, que amam e que odeiam.
O rapazote que recebe aos visitantes com a cara fechada. Não tem porque achar que se levará algo de bom deste inusitado encontro! Seu corpo reage. Violentamente trata os objetos, grosseiramente fala com seus colegas. Xingos, exclusão. Desconfiança.
“Sai daqui muleque burro!”
Mas o sentido daquele momento era outro. Mesmo a repreensão é um convite.
“Opa! Que letra é essa que você tá mandando aí?”
“O quê?”
“Isso aí! Xingando ele, mandando ele embora! Tem disso aqui não! Deixa ele entrar.” E os olhos diziam, “vem, entra você também!”
Desconfiança… atravessando… rodeando… Homens e mulheres, olham de longe uma roda que começa a se formar. Pessoas estranhas, com instrumentos. Delicada sonoridade quase estranha. A roda também é formada com desconfiança. Também corpos acostumados ao preconceito e à exclusão. Alguns sinais produzem algum comum e também o rumor dos guetos que se cruzam. Narizes feridos.
As tintas, as cores, atraem as crianças e logo os jovens. O agressivo rapaz pouco tem a fazer a não ser acompanhar o movimento. Quando chega então uma palavra amiga. Companheira. Vizinhos que até então pouco se olharam e agora se flertam em compaixão e admiração. Uma dupla que não se desfaz até o fim do dia, agressividade transtornada, transformada pelo carinho. Paixão pela vida transborda, a música invade o corpo e de repente o rapazote mostra como o surdo faz-lhe bem ao responder aos carinhos duros de suas mãos já calejadas. Por alguns minutos, capturado pela lógica que deixa a violência de fora, sua mestre, descontraidamente insiste, “olha aí! Você consegue! Manda bem pra caramba! Aparece lá pra tocar com a gente!” POW! Que bolha explode nesse segundo!
A moça declara-se no muro! Seu companheiro pinta um sonho e sobre ele retribui o carinho. Os filhos andam pela terra, comem a terra! Brincam com as tintas, redescobrem as cores, rostos manchados. Mesmo o carinho nessa família é duro. Mas é carinho. Um amor agressivo, a que um olhar pouco atento apreenderia apenas violência e tristeza. Mas há alegria! Vejam que há! O pai briga com a mulher porque o menino desperdiça a tinta e joga o lixo no terreno vizinho, em seguida confessa, não sei fazer diferente! A mãe responde carregando a pobre criança suja pelo braço, seu olhar diz amor, suas mãos provocam dor. Duro paradoxo.
Outro apenas observa o movimento, vê brotar, dentre os seus, alegria que outrora tivera em sua terra. Mal sabe dizer como, mas seus dedos retratam com precisão imagens imaginadas e vividas, de repente vívidas nos muros de uma ruína.
E eis que as tintas invadem o sorriso maroto do homem desprezado até dentre seus pares. Interagir com a pessoa homem é difícil, mas as tintas suavizaram-lhe a expressão e de repente lá está ele pendurado, marcando o mais alto lugar que pudera alcançar! Afirmava vida, afirmava “eu moro aqui”, para quem quer que quisesse enxergar!
Não… ali não havia teto, tão pouco janelas, as portas apenas separavam os quartos improvisados do pátio comunal. Pátio que agora sambava, recheado de outra estima! Alguns dizem que um incêndio levou tudo, outros maledizem ao proprietário, que fracassadamente teria retirado tudo para evitar “invasões”, outros que os próprios moradores teriam arrancado qualquer coisa que pudessem vender (e aí alguns diriam que para comprar comida e outros para comprar drogas). Restaram as paredes.
Pouco me importa os motivos. Sei que naquele dia-acontecimento furamos janelas invisíveis, feitas de aço! Não, não entramos pela porta. Esgueiramo-nos pela fresta aberta e a escancaramos… quiçá tal rombo feito jamais volte a se fechar. Pois ali, vida e dignidade estão explodindo e pedindo passagem.

4.7.11

Mangas, crepúsculo e cães

Este é um texto para ser lido com calma, em voz alta (foi escrito para assim ser "lido"), respeitando o tempo de cada pontuação e de cada parágrafo.



Eu aqui, sentado neste galho, fico a pensar em coisas da vida (sentado, pernas balançando, olhar perdido). Mas não me basta pensar, tenho que lhes falar, caros companheiros. Bem...
Vejam bem essa árvore! Anos atrás costumava vir aqui, não para pensar, mas apenas para chupar mangas! Eram horas, nem saberia dizer ao certo quantas... Nesses momentos de puro deleite um minuto vale por uma hora e passa mais rápido que um segundo!
É assim...
Mas bem. Naqueles tempos, costumavam vir alguns amigos comigo. Não vocês, nobres companheiros, que ainda não agraciavam minha existência àquela época!
E eu sempre sentava exatamente neste galho! Por dois motivos. Sempre me pareceu que ele tem o formato perfeito de minhas costas! Vejam (tenta deitar-se, meio mal acomodado)... É... bem... além disso, daqui a vista do pôr-do-sol me era privilegiada! Eternamente apaixonado pela luminosidade crepuscular, a luz em que as bordas das formas se contorcem, se deformam... o real imaginadamente real confundindo-se com o imaginado realmente imaginado.
Ahn!?
Quanta inspiração, né?
Talvez...
Talvez seja a melancolia das memórias. Tempos melhores? Não sei... tempos de fato diferentes, de fato mais alegres. Ou, sem dúvida, menos preocupados.
Dizem que cabelos brancos trazem responsabilidades... A merda com isso viu! Explicações tolas e inúteis.
As mangas. Onde estão? É mesmo, é julho, não é época. Agora só em Outubro...
Amigos! Eram as mangas que nos uniam então!
Claro!
Víamo-nos muito mais no verão do que no inverno e isso não era simplesmente medo do frio! Era compartilhar de um prazer pueril. As mangas que partilhávamos enquanto conversávamos sobre a vida!
Por um tempo era sobre os jogos da escola.
Ahá! Adorávamos falar daquele jogo em que o Daniel fechou o gol! Até pênalti ele defendeu! Enquanto isso Miguel e eu fazíamos miséria do adversário em uma tabelinha assassina! Tudo bem que não éramos os melhores boleiros... e isso nunca mais se repetiu... Mas ficamos com o vice-campeonato da escola!
Mas quando as meninas invadiram nosso cardápio, aí a coisa ficou complicada! Às vezes uns meninos os invadiam também!
Ei!
Não riam de mim, seus tolos! Paixão é coisa séria! Apesar... de que... também... não é. A boa é seriamente extrovertida. Ou não?
Sei que é arrebatadora! Enche. Pulsos batem mais rápidos. O coração vem à boca, o suor é gélido! É uma paixão! Paixão “adolescêntica”! Ah...
Mas, nem sempre é assim, é verdade. Em alguns momentos ela tem um outro furor, o carnal. O corpo inteiro pulsa! O desejo consome as vistas, consome a língua, entorpece o pensamento. E aí perdemo-nos nele! Até explodir!
Ah! A explosão!
E ninguém pode falar que se apaixonar é ruim! E ninguém, há de discordar que estas são boas descrições de paixão!
Também temos que ver bem, não há limite de quantidade! Onde nessas descrições está inserida quantidade? Lugar algum! Apaixono-me! Diariamente! Ininterruptamente! Voluptuosamente! Consumidoramente de mim mesmo! Apaixono-me por vocês meus caros amigos! Adolescentemente apaixonado! Carnalmente apaixonado! Doce e ingenuamente apaixonado...
É a pupila que dilata, vorazmente plena de si, enlouquecida em engolir o outro!
Veja... não há mal algum aí... Não sei o que escandaliza as pessoas! O que você diria se eu me confessasse apaixonado por ti?
Sei...
Não diria nada!
E nem é preciso que se diga!
Ambos temos a manga, é isso! Vamos prová-la ao máximo que for possível... simples e complexo assim!
Mas ainda assim, tem um limite! Porque a causa disso tudo, é o outro! E o que nos faz bem, queremos para nós! Capturar o pôr-do-sol em uma rede!
E o amor?
O amor...
O amor!
Pula da árvore, quase caindo, se abaixa, anda de um lado para o outro como se temesse estar sendo vigiado.
Xiiii! Isso não nos é permitido! (fala em sussurros)
Isso sim é realmente perigoso!
Imaginem! Se apaixonar pela alegria que a alegria do outro provoca em nós!
Afetar, afetando, afetado!
Sabe, é esse carinho... de quando eu coço a sua nuca!
É um pôr-se ao lado!
Uh! E com fogo também! Que destila nossas mentes! Embriaga os sentidos!
De toda forma leal, ao que somos, ao que se é, ao que construímos... e é isso...
Pura produção de vida!
Amar não é querer levar a luz crepuscular para si, mas sim esvanecer seus limites ao próprio crepúsculo!
E imaginem só! Não há de fato limite! Nem em intensidade, nem em quantidade! Ufff
Que perigo! Que força! Imagina só esse nosso mundo invadido por isso! ( fala em empolgação crescente) Imagine só tudo e todos cheios disso!? O que não se poderia!? Amar intensamente e cada vez mais! O que não se poderia!? (ápice, gritando e cansando)
Ei! Ei!
Seus merdas!
Não me olhem com esses sorrisos sarcásticos!
Não me olhem com esse ar de incredulidade!
É isso!? É assim então!?
Então me deixem delirando sozinho!
(sobe de volta na árvore, joga galhos)
Vamos! Deixem-me só com meu delírio!
Cães malditos...
(atira galhos e vira-se de costas).

31.3.11

A Notícia

(... continuando...) Voltando a escrever...


- É importante que eu diga a vocês! Se as coisas foram dessa forma, a culpa é minha!
O homem de calça social, camisa azul muito clara, já chamava atenção por seu porte e distinção. Seus traços duros mas bonitos. Ao dizer isso várias pessoas naquela ampla sala pararam de falar e olharam para ele. Não puderam conter a surpresa, a curiosidade e até a indignação! O rumor se espalhou, conversas viraram cochichos, todos prestavam atenção no que ele iria falar.
A viúva, uma mulher que nem chegava à casa dos 40, bela, de rosto delicado mas altivo. Sua tristeza não marcava sua beleza, mas transpirava pelos poros. Estava sentada, cansada, um peso inclinava seu tronco. Uma senhora de uns 70 anos estava sentada ao lado, simplesmente a abraçava. Outras, igualmente tristes e igualmente não abatidas estavam em cadeiras próximas. O homem, do lado contrário do salão.
Ao falar, sentou, exasperado!
Apoiou os cotovelos nos joelhos. Sua boca repuxou, sua culpa desmanchou seus olhos! Apoiou a face nas mãos. Alguns olhavam de soslaio, outros fitavam diretamente. Um a um, os que estavam por ali foram se sentando, deixando um livre caminho de olhar entre ele e a viúva.
- O que te atormenta meu filho? - perguntou a senhora.
- Ele ainda poderia estar vivo! Sem dúvida que sim! Perdoe-me por matá-lo!
- Mas quem é o senhor? Por que pensa esse despropósito? - surpreendida a viúva.
- Diego, o médico que deu a notícia...
- Meu rapaz... conte sua história, por que carrega uma culpa tão grande? Não tenho dúvidas que meu filho seguiu o caminho que achou mais importante, não deve haver culpa sua, mas se te conforta o espírito, conte-nos.
Todos sentaram para ouvi-lo.
- Eu não lembrava bem dele. Só lembrei de toda a história porque vocês me mandaram o recado para vir ao velório.
- Sim. Ele deixou uma lista de contatos. Para você também tinha deixado o número do prontuário.
- De fato eu sequer viria se não fosse isso. São dezenas de pacientes todos os dias. É impossível lembrar de todo mundo. Um ou outro deles falecer é algo até corriqueiro. A gente sempre lamenta não é, mas eu já não me abalava. Mas quando chegou o recado, o nome completo dele... veio-me todo aquele dia para a memória. Que dia terrível!
Sim! Primeiro chegou um a meu consultório que queria que eu prescrevesse o mesmo remédio que o vizinho tomava, achava que iria melhorar tanto quanto ele. Mas aquela medicação não lhe era indicada! Era um homem grosseiro, um rosto quadrado, nunca mais me esqueci! Cabelo pouco! Começou a esbravejar. Eu continuei a negar, ele levantou-se, bateu na mesa e disse que fizesse o que estava mandando porque era ele quem estava pagando! Fiquei transtornado e o expulsei do consultório.
Depois veio outro, uma mulher obesa. Já tinha perdido muito tempo com ela, mas dessa vez ela chegou quase morrendo! Paramos tudo para atendê-la. Foi uma confusão sem tamanho. Meu estresse estava no limite! Estava irritado! As pessoas não seguiam o que eu falava e depois vinham dar trabalho! Eu orientava, explicava, mas nada!
Então a enfermeira trouxe os papéis de seu filho. Ela dava uma olhada em tudo antes de me trazer, adiantava uma coisa ou outra. Chegou com aqueles lindos olhos azuis arregalados. Pôs os papéis na minha mesa e apontou o resultado do laudo. Câncer! No cérebro! Estava chocada, tão novo, tão bonito! E iria morrer!
Os lábios de Diego se contorciam. Ele os mordia, mas nesse momento não foi mais possível conter. As lágrimas vertiam, intensas, buscavam expiação por suas falhas.
- Eu fiquei louco com a intervenção dela! Lembro das minhas terríveis palavras como se fosse hoje! Bonito?, perguntei eu. Vi no laudo que de fato o prognóstico era péssimo! É mais um que morre! Os cabelos negros da Silvana caíram, percebi, em seus olhos o quanto ela me reprovou naquele momento! O quanto estava decepcionada! Não dei importância e ela saiu.
Quando ele entrou, fui rápido e taxativo. Você tem um câncer cerebral. "Mas..." É! É maligno! "Mas tem tratamento?" Tem sim, mas poucas chances de cura. "O que se pode fazer?" Sobretudo cirurgia, mas talvez não seja operável. "E qual o risco?" Você pode morrer durante a cirurgia, ou ter seqüelas importantes, motoras, cognitivas e perceptivas. Eu não lembro! Simplesmente não lembro do rosto dele, não lembro do corpo dele, não lembro da expressão dele! Não sei como ele recebeu a notícia. Nada! "Quanto tempo eu tenho?" Na melhor das hipóteses alguns meses, se tiver sucesso no tratamento talvez alguns poucos anos. Ele ficou calado, eu preenchi os papéis com os encaminhamentos todos que deveria ter. E ele saiu.
Depois que ele fechou a porta a Silvana entrou, deixou um papel na minha mesa e saiu. Era um pedido de demissão! Fiquei furioso! Aceitei na hora! Só a vi uma vez depois daquilo... e eu era apaixonado por ela! Só agora me dou conta!
E então ele chorou... as comportas foram abertas...
Levou um tempo até que alguém falasse algo novamente. E foi ele, ele continuou.
- Dois dias depois, quando eu estava saindo do consultório, ele apareceu. Lívido, mas com certo sorriso no rosto. "Obrigado doutor, você me libertou!" Apertou minha mão e foi embora! Tive a certeza que o tinha tratado mal, que tinha feito mal a ele, mas ainda assim ele me agradecia! Essa frase ecoa na minha cabeça até hoje!
- Vai ver foi por isso que meu filho o quis aqui hoje. Não por ele, mas por você. No cabeçalho da lista com os nomes das pessoas que estão aqui hoje estava escrito: "Pessoas que eu amo e que eu espero que se conheçam!" Você traz um pedaço da história dele... talvez ajude a entender tudo o que aconteceu. O falecimento dele está sendo muito doloroso, pois ele passou meses desaparecido e nós não entendemos o que estava acontecendo.
Dentre os cochichos era possível perceber que uns e outros amaldiçoavam o médico. Palavrões e xingamentos. O homem perdeu toda a pose, estava encolhido como criança assustada.
De traz de uma coluna de mármore encimada por um vaso com folhagens verdes saiu uma mulher de pele branca, cabelos muito escuros e olhos azuis luminosos. Movia-se silenciosa a tal ponto de passar despercebida por quase todos. Naquele momento a maioria estava sentada em um irregular círculo, à borda do qual ela se aproximou e falou em tom imperioso:
- Alguém aqui pode trazer Zeca de volta? Então não sejam tão apressador em condenar o Diego! - ela olhou para ele com doçura.
- Silvana?
- Eu o desculpo, mas não carregue culpa. Zeca fez uma escolha... consciente... ele foi embora comigo!
Houve um choque entre os presentes. Ninguém entendia nada! A viúva se contraía na cadeira, a mãe levantou e sentou de novo... Silvana sentou com os outros.
(continua...)

28.1.11

A história da moça de leve melodia

Bom.... a história da morte do Zeca não está saindo. Mas tem outras coisas por aí...


Vou falar para vocês. Luana não era uma moça qualquer. Foi uma das mais impressionantes pessoas que já conheci. Bondosamente atrapalhada. Quando tínhamos contato, sim, porque já faz muitos anos que não a vejo, vi-a em diversas situações deliciosamente inusitadas.
Certa vez estava lá ela brincando com as crianças. Sabe, ela é dessas pessoas que de quando em tanto vão a um creche ou a um asilo. Dizem que é levar alegria aos outros, mas ela reconhece que aquilo enchia a ela mesma de felicidade! Se fosse para sofrer, não iria. Dor a deixa mal humorada e agressiva! Ah! Sono também!
Então, aquele dia tinha uma certa magia no ar! O clima estava agrável, ensolarado, mas de temperatura amena. Ela foi àquela creche, ou seria orfanato? Não me lembro. Levar alguns brinquedos para as crianças. Chegou, estacionou o carro e os encontrou brincando com bola no terreno baldio ao lado da casa (era um sobrado, baixo mas comprido). Já se conheciam e se adoravam!!
-- Tia! Eba! - gritaram em coro! - vem jogar com a gente!
Imediatamente ela saltou do carro e foi atender ao chamado! Como não! Em segundos já estava fazendo embaixadinhas e lançando um drible ou outro que deixava alguns dos meninos boquiabertos.
Depois de algum tempo de jogo teve uma estranha sensação. Estranha enquanto sentido, mas não enquanto familiaridade. Era um certo frio na barriga, com uma dorzinha no ombro que lhe repuxava o braço direito. Sim! Tinha esquecido de algo! Mas o que seria? Chave de casa? No bolso da calça jeans azul. Chave do caro? Na bolsa! Bolsa... Ali no canto, atrás do gol de traves imaginárias marcadas por dois tijolos. Mas o carro... Cadê o carro? Não estava mais onde tinha estacionado! Olhou em volta! Todo mundo parou o que estava fazendo para entender o que estava acontecendo! Ela mostrava-se apreensiva, que raro! Corpo agitado, olhar apressado. Enfim o viu, tinha descido alguns metros e estava parado quase na esquina. Tinha esquecido o freio de mão abaixado!
Correu até o carro. Pernas finas, mas bonitas e elegantes, mesmo ao correr atrapalhada sobre o paralelepípedo. Ao chegar nele atrapalhou-se um pouco com a chave, que caiu. Luana apoiou-se no carro para pega-la e então ele começou a descer novamente! Mas dessa vez era uma ladeira íngreme. O veículo desceu e ganhou velocidade. Ela desceu correndo atrás do carro. E atrás dela, as crianças. Então, no fim da descida, ele arrebentou a traseira em um muro, derrubando-o inclusive!
E os brinquedos? Estavam todos no porta-malas ainda! Destruídos agora... alguns pedaços de plástico estavam até pelo chão em volta do lugar da colisão. As crianças ficaram injuriadas e voltaram todas para dentro. Fim de brincadeira.Entretanto, depois de uma ou duas horas ela apareceu na creche de novo. Chorou um pouco por seu querido carro, é verdade, mas já tinha acionado o seguro e o guincho já tinha levado o carro. O que poderia ser feito já o tinha sido. Então ela entrou na creche com uma grande sacola, as crianças a cercaram cheias de esperança e expectativa, mas quando abriu o saco, tudo o que viram foram pedaços de brinquedos.
Foi então que ela sacou de uma outra bolsa tubo de cola, tinta, pincel. Enquanto cantarolava, os pequenos a seguiam, hipnotisados, e começavam a criar novos brinquedos a partir daqueles destroços ou a enfeitar objetos. Várias camas ganharam adereços coloridos, algumas maçanetas foram cobertas de cores!
Cantarolando, pulando e dançando ela se foi. Deixando para trás pequenas pessoas prontas para jantar sonhos.
Mas como disse, esse foi apenas um caso exemplificar de uma situação deliciosamente inusitada. Sempre se produz coisas novas onde se enxerga potência! Devemos avançar pois um fato "periculoso" deve ser contado! E tudo o que disse antes só serviu para saberem um pouco mais sobre a Luana!

(continua...)

19.1.11

A vida insiste em perseverar

A vida insiste em perseverar. É isso. E nós insistimos em perseverar a vida daquilo com que nos identificamos. Explicação simples.
Estamos vendo, nesses tempos, as grandes tragédias ocorridas no Rio de Janeiro. Há que se escrever sobre isso e tirar alguns argumentos da boca de jornalistas tacanhos.
Tragédia Ecológica? Isso é um tragédia política e social, isso sim! Não há dúvidas que fúria das águas e da lama se abateria sobre a região não importa o que se fizesse. Não há dúvidas de que haveriam mortos (isso para contra argumentar aqueles que colocam toda a culpa nos governantes). Mas também é importante que se diga algumas coisas. Já se sabia que muitas das áreas ocupadas, urbanizadas, apresentavam risco aos moradores e freqüentadores. Isso era sabido, entretanto, as pressões políticas permitiam as construções. Qual vereador/prefeito não cede mediante a ameaça de retirada de recursos da cidade? (sem contar os esquemas mais corruptos em que a permissão para ficar/ocupar faz circular dinheiro entre os poderosos das cidades) O clientelismo e o populismo ofereciam esses terrenos à falta de moradia. Mas aí também tem sempre aquele que põe a culpa no pobre coitado que ocupou o barranco. Duvido que tenha ido para lá por alguma preferência pessoal, seria mais adequado dizer que "foi parar lá", na falta de outras opções para uma existência digna, sob um teto acolhedor.

Desses absurdos todos que temos escutado nos jornais para explicar, justificar, acusar, culpar etc teve algo que me mobilizou demais. Está relacionado com a reportagem colocada abaixo. Uma senhora se refugia da forte correnteza de lama no terraço de sua casa. Os tijolos ainda por cobrir dá a impressão que é um parte da casa onde ela ainda está investindo algo. Não temos como saber nada sobre o andar debaixo pois já está inteiramente coberto. A água continua subindo. Ela está só, com seus três cachoros, e começa e ver as paredes não terminadas daquele terraço ruirem. Nos prédios vizinhos as pessoas se mobilizem, de um que está próximo à casa lhe é atirada uma corda. Todos gritam orientações para ela. A senhora amarra a corda entorno da cintura. Tenta amarrar o cachorro menor junto, mas não consegue. Então ela o põe de braço do baixo e pula na direção do prédio tendo uma grande tormenta de água, coisas carregadas por esta e lama no meio do caminho. A correnteza era exatamente a de um rio caudaloso descendo uma serra íngreme, nada menos do que isso. Uma cachoeira horizontal. Quem quer que já tenha passado por águas turbulentas assim entende do que estou falando (ainda que ver o video torne esse imaginado algo bastante claro). A câmera mostra os pretensos salvadores, dois homens no terraço do prédio, talvez uns três andares acima da altura em que a mulher se encontra.
Ela salta! O que garantia que eles iriam agüentar? Nada! Ela é grande! A morte está a seu encalço e a única esperança era pular para a possível morte e confiar. Ela afunda na tormenta, a correnteza a leva um pouco para o lado e eles conseguem erguê-la para fora. O cãozinho foi levado, as mãos dela estão vazias. Ela é pesada, o rio é forte, mesmo assim os dois conseguem puxa-la. Não há nada no video que nos faça acreditar que os dois salvadores sejam maiores do que a média dos homens, nem mais fortes, mesmo assim eles a erguem em segurança (não sem grande esforço! Os mais atentos podem ouvi-los gritando, antes de cada puxão, "um, dois, três"). Ela é salva.
Bom, aí o repórter diz que a mulher se salvou por sorte! Sorte do que? De haver uma corda? De ter um prédio do lado? Pois eu digo que a vida insiste em perseverar e nisso explode a potência de cada um em pura coragem e solidariedade! Sorte? Famoso, "eu truco!"
Foi sorte o pai ter encontrado uma fresta na lama onde pudesse proteger seu bebê? Digo que foi coragem ter resistido e ter hidratado o filho com a própria saliva e tranquilizado-o enquanto ele próprio estava ferido e devia amedrontado.
A lógica seria morrer. O corpo e a vida são frágeis diante das intempéries todas que os cercam. Muito frágeis! Mas a vida, em tendo uma chance, menor que seja, insiste em perseverar!


1.1.11

Férias

Agora é este autor que vos fala em si!
Não é um conto, uma fábula ou qualquer coisa assim.
Mas conto-lhes que já faz uns 5 anos que não tiro umas boas férias. As que formalmente tirei foram usadas para propósitos, digamos, que não meus. Não eram para descanso, para reflexão, para passeios ou qualquer coisa assim que as pessoas costumam fazer nesse período.
Mas... por incrível que pareça! E por uma conjunção de fatores até mesmo fora de minha alçada 2011 começa assim! Férias de trabalho em janeiro!
A primeira semana será dedicada ao tão sonhado descanso! Uma viagenzinha mochilada! Daquelas de baixo custo!
O resto do mês será da luta para que o mestrado entre em trabalho de parto!!
Dessa forma o próximo post e, talvez, a continuação do post anterior, venha apenas lá pela metade do mês.
Descansam, divirtam-se, sejam felizes.

27.12.10

Funeral

Longo período de jejum, os motivos de sempre!
Agora talvez comece uma nova seqüência de histórias, que talvez seja interrompida por umas ou outras histórias que não tem a ver com esta. Quem tiver paciência que acompanhe até o final.
Para ficar mais fácil, os poucos leitores devem ter percebido que introduzi uma nova página no blog (em uma aba acima), a Histórias Completas. Ali estão as histórias que foram publicadas em mais de um post, colocadas em seqüência de publicação.
Poderão achar estranho que bem no período das festividades eu tenha iniciado uma história por um velório, paciência... isso já tava cozinhando na minha cabeça fazia muito tempo e preciso realmente começar a desovar algumas coisas!



Já estamos nessa faz bastante tempo não é? Sabe que nunca vi algo como vi essa semana!? Foi impressionante.
Sabe, costuma ter um certo senso comum em velórios. Algumas pessoas choram ao caixão. Ficam olhando pensativos para o morto. As pessoas vão chegando e vão indo embora. Se abraçam. Choram. Lembram das últimas histórias, ou das primeiras, com o defunto. Alguns conversam e arriscam risos ao fundo. Isso é o mais lugar comum, o mais padrão.
Ah! E as histórias são aquelas totamente desinteressantes não é? Ah! Quando ele andou, quando ele falou, quando ele casou! E todos viram boa gente. "Me enganou várias vezes, mas era boa gente!".
Só agora percebo o quanto é sombrio isso que vivemos todos os dias. Acho que já perdemos um pouco a sensibilidade não é?
É! Com certeza sim...
E sempre contar as horas pra acabar... passar o turno e sumir para a casa. E arrumar algum passatempo para não ficar lembrando de toda aquela dor.
Mas não naqueles dois dias!
Eu simplesmente não consegui ir embora!
Não, estava muito cheio, mas não ficaram muito atrás da gente não.
Aliás! Que tanto de gente! Fui pesquisar o nome do morto, quando tem muita gente assim costuma ser da elite né! Não encontrei nada! Pessoa comum. Homem, adulto jovem. Caso trágico, aparentemente alguma doença rara. Não sei bem. Quase todos ali se referiam a ele como Zeca. Em volta do caixão algumas mulheres. Não dava para saber muito bem quem era a esposa dele. Todas olhavam para ele com muito amor. Se abraçavam, se consolavam, mas não estavam desoladas. Muitos estavam mesmo felizes. Foi bom pra ele? Deixou de sofrer? Não sei se era bem por aí não. Não ouvi ninguém com aquele típico tom de piedade: "ah, foi melhor assim né..." Fico louco no quanto escutamos isso todo dia! Que raio de consolo mais tosco! O desgraçado morre sofrendo, cheio de dores, se cagando, sem entender nada, sem reconhecer ninguém, muitas vezes sem o carinho de uma família já exausta de cuidar daquele carma de gente! E ainda vem falar que foi melhor assim? Isso lá é forma de morrer?
Não. Não era esse o caso. Havia lamentações sim, mas ninguém questionou o fato dado, ele morreu! Ninguém se perguntava o porquê, amaldiçoava a Deus ou ao Inferno. Ninguém questionava o porquê de morrer tão jovem. Saudades! Era disso que se falava!
Porque eu não conseguia ir embora? Oras... porquê... não dava para deixar de ficar ouvindo as histórias que se contava dele. No começo eram conversas paralelas. Uns falavam da infância, outros da adolescência.
Conta-se que tinha sido uma criança calma, amiga, inteligente... não dava trabalho, não causava transtorno. A adolescência tinha sido típica. Contestatória, com lascas de juventude transviada. Um ou outro se supreendia com inesperados casos de bebedeiras.
Os contos se sucediam. Vez por outra alguém contava algum mais animadamente e atraía mais ouvintes. A roda ia se abrindo. Em pouco tempo o caixão tangenciava uma formação irregular de cadeiras, meio circular. Um falava e todos ouviam. Riam e choravam com as histórias.
Em pouco tempo me veio à mente aquelas coisas de acampamento. Um monte de jovens em torno de uma fogueira, às vezes um violão, às vezes uma história de terror. Todos ali, mulheres e homens, jovens e velhos, com um caixão ao lado ouvindo histórias do defunto. Todos atentos, um por vez contando cada uma das histórias...
Histórias...
Naqueles dois dias de vigília desfiaram toda a vida do morto. Compartilharam suas próprias vidas! E quando acabou chorei como menino novo. E não foi de tristeza, foi de beleza! Foi de amor! Você não está entendendo não é? Vou tentar te contar um pouco do que eu ouvi. Um ou outro trecho eu perdi. De tantas em tantas horas tinha que sair para passar uma grande garrafa de café. Mas vamos ver o que ainda lembro...

8.12.10

Frango Verde

Essa não é uma história de ficção científica. Não nos remeteremos a nenhum godzilla, acidente nuclear, experiências genéticas ou qualquer coisa assim. Entretanto, não se pode deixar de considerar a cena deveras singular!

A jovem alegre, extrovertida, comunicativa sempre levava seus amigos confraternizar em sua casa. Seguindo o padrão da adolescência, isso se dava quando seus pais iam viajar. Por sorte daquele grupo de amigos isso acontecia com certa freqüência. Uns três ou quatro chegavam primeiro. Colocavam o assunto em dia, ou simplesmente ficavam falando bobagens sem parar (isso na verdade era o mais comum, qualquer outra pessoas descontextualizada recomendaria medicações psiquiátricas em alta dosagem para os protagonistas da conversa!)

Tinha também a preparação. Uma comidinha ou outra para fazer, a TV para arrumar, o DVD para encontrar (ou naquela época ainda era fita cassete? Esqueceram de dar-me esse detalhe!).
- Pipoca? - perguntou uma
- Pode ser!
- Tem milho?
- Ahn... deixa eu ver... tem sim!
- Oba!
- Eu faço – interpelou a outra, certa resignação, sempre sobrava para ela mesmo. Ninguém mandou ser uma boa cozinheira, respondiam-lhe. No fundo bem que gostava desse reconhecimento. E todos eram sempre muito solícitos e dispostos em fazer a coisa acontecer (em geral, após um longo tempo debatendo até conseguirem decidir o que fazer).
- Onde ficam as panelas?
- Toda vez tenho que explicar! Vocês tão cansadas de saber!
- Ah! Eu sei! - disse a primeira.
- Tudo isso pra uma pipoca? – disse outro vendo a confusão das três na cozinha.
- A meu! VOLTA PRA SALA! - foi respondido em coro
- Ui! Desculpa. - respondeu com sorriso maroto.
- Opa! Pera! - interpelou a primeira, puxando a panela – Si! Que porcaria é essa?
- Ahn?
- Deixa eu ver – a cozinheira lançou-se para cima da amiga olhando dentro da panela – é um frango!!!
- É! Eu sei! Mas é VERDE!
- Argh! - ressoou, talvez até os vizinhos uns três andares de distância tenham escutado.
- Ah!!! Eu odeio minha mãe!! O que ela fez aqui? Só me faz passar vergonha!!!
- Calma Si... tudo bem...
- Calma Si, mas eu não encosto nisso daí!! - consolou a outra a gargalhadas.
Enquanto os três olhavam estupefatos para a panela, na qual tinha um frango quase inteiro, assado, mas tão coberto de fungos que estava completamente verde, Si foi ligar para a mãe.
- Oi mãe!
- Que droga!
- Que foi? Tem um frango verde no armário!
- É mãe! No armário!
- É MÃE! Tá VERDE!
- AH!! É CLARO QUE TÁ MORTO MÃE!!!
- Alguém além de mim imaginou um frango radioativo correndo pela cozinha? - disse a cozinheira, sendo respondida por largas gargalhadas pelos outros dois amigos, o que fez a anfitriã fugir rapidamente e se trancar no quarto, afinal ela não sabia que tinham todos aqueles amigos ali em casa!
Claro que hoje em dia a história do frango verde, já virou um mito entre aqueles amigos. Talvez seus netos ainda sejam entretidos por essa história, sempre contada às gargalhadas, com diversas repetições ao final: “É CLARO QUE TÁ MORTO MÃE!”

3.12.10

A história da menina que tinha medo de morrer de forma idiota - Parte Final

Bom pessoal, finalmente, depois de um tempo de jejum, essa fábula vai chegando ao final. Acho que o resultado não é mal, apesar de cru (nunca revisei nenhum texto após escreve-lo e antes de publica-lo).
Outras ideias já estão correndo, na verdade mesmo, uma encomenda! ;-)
Tomara que de alguma forma os entretenha:



Noite estava estrelada. Sem lua no céu. Meri andava com medo, assustada. Cada passo, cada esquina, cada rua eram previstos com centenas de olhares para todos os lados. Ao mesmo tempo não podia deixar de pensar que seus desenhos tiveram uma estranha função nisso tudo. Eles aconteceram. Assim como a maldição. Tudo bem, por mais que quisesse acreditar em magia e em seres místicos nunca achou de fato que isso pudesse acontecer.
E agora? Qual seria o próximo passo?
Aferrou-se àqueles desenhos e foi para casa. Seu pai já dormia e ela levantou bastante tempo para consegui-lo. No dia seguinte resolveu que ficaria em casa. Menos chance das coisas acontecerem, mesmo assim não desprendeu-se daqueles desenhos nem por um segundo.
No meio da tarde, depois de ter ficado o tempo todo no quarto resolveu sair para comer. Estava preparando algo, quando escorregou no xixi da cachorra! O trajeto era certeiro de sua nuca com a quina da mesa, mas seu pai puxou o móvel no mesmo instante! Estava achando que mesa atrapalhava a passagem. Meri bateu com ombro esquerdo na mesa e com o lado direito do corpo no chão.
- Você não muda!? Isso é topeirice! Como você conseguiu escorregar no xixi da cadela?
Ela esboçou um “ah pai”, mas achou melhor comer no quarto sozinha E lá ficou o resto do dia, remoendo dores, medos e amores.
Quanto ao carro, no boletim de ocorrência constou roubo, sendo o carro abandonado após uma batida. Ninguém acreditava mesmo que ela o dirigiria. Seu namorado achou todas aquelas coincidências estranhas demais. Ligou algumas vezes. Questionou, tentou entender o que estava acontecendo. Ela até pensou em abrir o jogo, mas para quê?
No dia seguinte ele tentou visita-la. Ela não deixou. Disse que era melhor ir embora. Que ela seria um perigo para ele! Mas por quê? Tensões pré-menstruais! (eram lendários seus rompantes de raiva nesse período, desculpa perfeita!) Ele foi embora, mas não deixou de ligar e de procurá-la novamente naquele dia e no dia seguinte. Já seria seu terceiro dia trancada no quarto. Seu pai estava estranhando e o namorado estressando, começou a brigar com ela e ameaçar de tomar alguma atitude mais drástica caso ela não abrisse o jogo. Não dava para continuar nesse silêncio.
Ela olhou para um amontoado de folhas que estavam em sua mesa. Já deveria ter desenhado uma centena de formas de escapar de mortes estúpidas, acidentes inusitados etc. Não poderia mais fugir. A morte mais estúpida de todas seria passar por tudo isso e ainda morrer depois dele ter terminado com ela! Ou então morrer de inanição naquele quarto!
Junto seus desenhos, colocou alguns na mochila e outro prendeu na face interna do casaco e foi encontrar com ele. Olhos paranoicos, ouvidos atentos.
Desceu do ônibus no centro da cidade. Agora precisaria andar por entre prédios. Apertou o passo.
De repente um zunido, em segundos pensou em um guarda-chuva, ele apareceu dentro de seu casaco. Puxou e abriu. Pein! Uma lata caía de um apartamento, sua trajetória seria a cabeça de Meri, mas ficou cravada na ponteira de ferro do guarda-chuva. Cheiro doce, uma lata de goiabada. Soltou-a e deu para a primeira criança que passou.
Começou a correr. Sentiu um movimento em sua mochila, eis que ela se abriu com muita força, atirando a moça no chão. Da mala saiu um toldo que aparou a queda de um suicida sobre ela. Morreria de suicídio alheio! Que cruel! Quando olhou para cima teve tempo de ver um vaso caindo do mesmo prédio, em sua direção, rolou na calçada. Ele explodiu do seu lado, deixando-a com o cabelo cheio de terra e folhas. O que era aquilo? Cheiro de hortelã?
Levantou, pegou a mochila e correu, apavorada, o máximo que pôde.
Finalmente chegou na casa dele. Abraçou-o o mais forte que pôde! (e isso é bastante forte!) Beijou-o várias vezes! Resmungou diversos “te amo”.
- Mas o que está acontecendo?
- Ai... é difícil de explicar.
- Quer tentar?
- Podemos deixar pra outra hora?
- Talvez.
- Podemos só ficar juntinhos sentados no sofá assistindo desenhos e filmes? Namorando um pouquinho?
Ele desarmou.
- Ok! Tudo bem. Vou pegar algo para comermos. Você não liga a TV e coloca no que quer ver?
Ela olhou para aquele rack, cheio de fios atrás. Viu-se sendo arremessada pela sala por um grande choque.
- É... amor... eu... Você não faz isso enquanto eu acho umas coisas na mochila que quero te mostrar?
- Ahn... tá bom...
- Ah! Não traga nada de comer que a gente possa engasgar... Estragaria o clima né... Ah! E nem que a gente possa se cortar!
- Meu deus! Você estão TÃO estranha! Mas tudo bem.
Fingiu procurar algo na mochila, depois, quando ele se foi, deixou-a ao seu lado, no sofá.
- E aí, que queria me mostrar?
- Deixa pra lá, depois mostro. Vamos ver o desenho primeiro.
Não se levantou do sofá por toda tarde. E foi uma das melhores de sua vida. Sentiu-se calma, aquecida, amada e, por alguns momentos, até mesmo segura. Sim, era por aquilo que tudo estava acontecendo. Por aquilo que estava passando por tudo isso. E dormiram os dois, abraçados no sofá. Acordou no dia seguinte, como se tivesse nascido de novo. Mal sentia a dor nas costas que objetivamente sentiria. Ânimo e disposição! Nada mais poderia abatê-la! Entendeu que tinha um motivo para enfrentar tudo. Ele foi trabalhar e ela foi para casa. Altiva e confiante. Andava pela rua a passos firmes.
Tão distraída. Tropeçou com ênfase, racharia a cabeça na guia da rua não tivesse saltado uma almofada de seu casaco. Quando viu, tinha enroscado os pés em uma cueca, caída de um lixo tombado na rua. Mas se morresse naquele momento, percebeu que não seria mais tão estúpido (embora só ela soubesse que não), morreria amando e por amor. Parece piegas e senso comum, mas existe outra forma melhor de encontrar a morte senão no amor?
A partir dali soube que não morreria mais. Pelo menos não naquele momento e não pela maldição. Passou por balas (e pedras) perdidas, objetos que caíam de qualquer lugar, caiu e se levantou, engasgou com amendoim, mas escorregou na casca de banana, caiu de costas e o cuspiu. Acidentes de carro, moto, bicicleta, triciclo de criança (!). Um pedaço de avião que caiu. O pedalinho afundou no meio do lago. Um quero-quero nervoso errou seu olho e acertou um tronco de árvore.
Todos aqueles eventos a assustaram, mas mal teve a ajuda daquele misterioso efeito de seus desenhos para escapar disso tudo. Simplesmente não seria mais estúpido morrer de qualquer uma dessas formas e quase tudo desviou dela. Tá certo que a materialização de um capacete e de um snorkel foi útil quando estava soterrada por uma carga de balas de goma de um caminhão que tombou após errá-la. Não tinha como pensar que seria muito estúpido morrer sufocada daquela forma!
Mas enfim, aquela amaldiçoadora ainda estava a solta por aí! Precisava fazer algo! Ficou de plantão em casa, no fim do último dia da maldição. Ela deveria aparecer por lá para certificar-se que o que fez tinha dado resultado. Meri ficou no escuro, aguardando-a. Na mão, uma caixa de giz de cera com os quais poderia desenhar em quase qualquer superfície e algumas folhas de papel. Eis que a mulher apareceu. Mesmo no escuro, agora a reconhecia, afinal tinha feito uma investigaçãozinha sobre aquela pessoa na internet. Uma ex-vizinha de seu namorado e que, “coincidentemente”, fazia várias atividades em comum com ele.
Meri desenhou uma corda e uma porta, saiu atrás da inimiga e laçou-a de surpresa. Ela escapou com facilidade inexplicável e acertou-lhe alguns socos na cara A moça era forte, mas pequena, poderia bater nela facilmente, mas ela ainda seguiria no seu pé. Então Meri baixou a guarda, deixou-se apanhar um pouco, até ser atingida por um chute que a projetou para alguns metros para trás (pouco pelo chute e mais pelo seu próprio impulso. Sentou, com cara de abatida, pegou um papel e um giz.
- Certo, tudo bem. Você ganhou, eu desisto. Pode ficar com ele. To aqui escrevendo que eu abro mão de tudo. Uma carta para ele, terminando, que você mesma pode entregar.
- Como é?
- Isso. Veja. - jogou a folha para ela, com relaxo e pouca força.
Quando ela foi pegar aquele papel, atirou outro, sob um de seus pés, quando ia pisar. Um buraco abriu-se no chão. A vilã ficou equilibrada em um só pé à margem, mas acabou caindo.
Meri correu e puxou o papel, o buraco sumiu. Sentou, respirou e colocou o papel novamente no chão. O buraco não muito fundo. A moça, de pé, quase alcançava a borda.
- Desiste?
- Jamais!
Meri fechou a abertura de novo e voltou a abrir após umas duas horas. A prisioneira estava sentada no chão, um pouco sufocada.
- Olha só. Não sei quanto tempo esse buraco vai ficar existindo, não sei se tem jeito do ar entrar, não sei o que acontece se a folha rasgar ou o desenho apagar. Você quer arriscar? Ficar presa aí até sei lá quando?
- Nunca vou perder!
A heroína fechou o buraco de novo, desenhou dois grandes cilindros de oxigênio e jogou para ela. “Seja econômica”. Dobrou o desenho do buraco e o enviou, pelo correio, com as orientações para resgatar a moça e ensinar-lhe alguma coisa sobre amor, para um templo budista no Tibet.
E assim Meri teve seu caminho livre para ficar com seu amor. E foram felizes! (não digo para sempre, pois sempre é tempo demais! Se não forem mais felizes algum dia volto aqui para contar a história)

20.11.10

A história da menina que tinha medo de morrer de forma idiota 2

(Continuando...)

É a famosa sinuca de bico! Se correr o bicho pega! Se ficar o bicho come!
Foi para casa. Escreveu um testamento, dava destino a cada uma de suas obras de arte, cada um de seus desenhos, a seu computador, a seus DVDs e dava uma série de recomendações a seu pai sobre o cuidado com a casa e com a cachorra.
Ideia! Sentou e começou a desenhar. Afinal, o que poderia acontecer se ela não saisse do seu quarto a semana inteira? Pois então ficou ali.
Foram horas ininterruptas. Tentava não pensar, mas quando era quase onze da noite foi olhar para o que já tinha feito. Morte, morte, morte. Diversos personagens seus estavam morrendo de forma estranha! Desesperou-se! Solto um "ahhh" angustiado, pôs as mãos no rosto, deles ao cabelo, sacudiu a cabeça e levantou jogando longe a cadeira. Maldita! Como isso podia ter acontecido? Socou a parede! Então viu os desenhos, de canto de olho, no chão. Pegou de volta a cadeira e voltou a desenhar. Afinal, outras coisas também poderiam acontecer, de forma tão bizarra quanto, a ponto de salva-la daquelas situações!
Seu lápis e sua borracha correram de forma tensa, intensa. Eram múltiplas formas! Em cerca de vinte minutos já havia desenhado várias delas. Olhou para tudo. Estava horrível! Vários traços mal feitos, apagados falhos, proporções ruins, falta de sombras, falta de cores.
Onze e vinte!
Tinha mais 40 minutos de segurança! Ainda dava tempo de terminar! Pegou aqueles desenhos e foi para fora! A pé jamais chegaria a tempo. Estava perdida! Não sabe mais dirigir, não sabe se achar. Sentou e chorou. Onze e trinta e cinco. Tinha que se despedir! Poderia morrer, mas não sem ao menos vê-lo uma última vez! Assim não poderia. Saltou, pegou a chaves do carro e saiu. Quando deu-se conta estava a 140 quilômetros por hora. Avenida vazia!
Onze e cinqüenta parou na frente da casa dele. Nem sabe qual caminho fez. Não o faria de novo! Só estava lá. Bateu à porta nervosamente. Alguém apareceu à janela. Pouco tempo depois a luz se acendeu e ele apareceu, com um sorriso, cara amassada de sono e olhos de quem não está entendendo nada.
Ela o abraçou com força! Ele a puxou para dentro de casa e fechou a porta. Ela o beijou longamente. Era impossível magoa-lo! Não seria capaz de falar nada. Ele a sentou no sofá.
- O que está acontecendo? O que houve?
Meri ficou sentada olhando para ele. Incapaz de dizer qualquer coisa. De repente veio a voz ácida de um amigo seu:
- Idiota! Ele vai sofrer mais com você morta do que com você viva!
- Você tem razão... - disse tristemente.
- Tenho? Do que?
- Ahn? Disse isso em voz alta?
- É... disse... Você está muito estranha! O que quer me falar?
- Eu?
- Não... o padre! - respondeu fazendo uma careta e rindo.
Ela não riu. Ele fechou a cara. Normalmente riria.
- É... desculpa.
- Não tem nada. É que eu to com um problema.
- Me fala.
O relógio começou a badalar a meia noite. Uma, duas, três...
- Terminar - disse com a voz fraca
Quarta, quinta...
- O que?
- Eu preciso...
Sétima, oitava...
- Com...
COVARDE! - Gritou tão alto uma voz em sua cabeça que ela até tampou os ouvidos!
- O que?
Décima.
- É...
Décima-segunda.
- Nada. Desculpa. O problema está resolvido.
- Ahn?
- Nada! Já disse! Vai dormir. Te amo!
Ela o beijou intensamente e saiu. Ele ficou parado, sentado, tentando entender o que se passava.
Meri, foi para o carro de cabeça baixa. Arrasada. Passa um caminhão. Ela abriu a porta do carro e ouvi uma forte batida contra o vidro da janela, trincando o mesmo, no exato momento em que estava abaixada para sentar. Uma pedra foi espirrada pela roda do caminhão, rota, sua cabeça.
Entrou e fechou a porta. Pânico! Estava começando! Mas como tinha sobrevivido? Respirava rápido. Lembrava dessa cena... Seus desenhos! Pegou os papéis dobrados que estavam em seu casaco. O carro foi ficando quente e foi sendo tomada por uma sensação de falta de ar. Abriu-os e enquanto os folheava os papéis, instintivamente abaixou o vidro. Uma golfada de ar levou uma das folhas para fora do carro. Saiu correndo para pega-la. E no segundo seguinte um carro esporte, vermelho, em alta velocidade bateu na traseira do seu e capotou sobre ele.
O desenho voava pela rua e ela estava de pé, em choque, ao lado de um pilha de veículos que não chegava à sua altura. Sua mão ainda tentava pegar a porta, agora já alguns metros à frente, para fechá-la.
A folha pousou na calçada do outro lado da rua. Meri olhou para um lado, para o outro, atrassou correndo. Pegou a folha. Nela estava retratada exatamente essa cena após o desenho dela sendo esmagada dentro de um carro parado, por outro carro.
As luzes das casas da rua se acenderam. Ela a desceu rapidamente, sumindo de olhares curiosos.

Então... ainda continua...
Vamos seguindo assim?

13.11.10

A história da menina que tinha medo de morrer de forma idiota

Era uma vez, há não muito tempo atrás, uma moça muito corajosa. Buscando ajudar seus amigos, ela já pulou em lagoa sem fundo, que terminava em cachoeiras sem fim, mergulhou sem pensar duas vezes. Nadou para um lado e para o outro. Atravessou a grande quantidade de água sem se intimidar, enfrentou a correnteza e lutou contra as grandes serpentes que viviam nas margens. Tão escuras quanto o lugar onde moravam, essas serpentes eram mais grossas que canos, capazes de engolir um boi inteiro! Comiam todas as criaturas pulavam naquela água. Eram preguiçosas, ficavam esperando que suas presas afogassem, cansadas de tanto lutar contra as águas! E então, surpresa! A moça nadou! Nadou e nadou! E quando viu as cobras, foi contra elas! Atacou-as sem piedade! Espantadas que estavam, não conseguiram reagir! Foram enforcadas em seus próprios rabos.
De uma vez salvou três amigos. Salvou-os de suas vidinhas sem emoção, afogando em seus esforços!
Outro dia, foram bandidos que entraram em sua casa. Seu pai, bravo e temperamental, reagiu, mas foi nocateado pelos meliantes! Ela esperou, foi amarrada. Não iria reagir, era perigoso. Mas começaram a ameaçar matar seu pai! Começaram a pegar seus desenhos, amassá-los de qualquer forma para coloca-los em uma mochila. Foram para a cozinha, ouvia-se como quebravam as louças e resfatelavam-se de comidas deliciosas que estavam na geladeira. Era coisa de mais, mesmo para ela!!
Ela se levantou, soltou-se do nó. Amadores! Furtivamente chegou à cozinha. Que nojo! Que sujeira! Comida e cacos no chão, muita sujeira na pia e na mesa... Comentavam, "o que a gente vai fazer com velho?", "tem que apagar né!" O sangue ferveu. Ela avançou em um deles. Deu-lhe um soco no rosto. Empurrou. Bateu com a cabeça dele na pia. O corpo caiu mole, ensangüentado. Os outros dois pularam nela. Antes que conseguissem a derrubar, ela quebrou o nariz de um, mordeu o outro até quase tirar um pedaço do braço! Mas eles eram maiores e mais fortes, estavam bastante machucados mas ainda assim conseguiram segura-la e amarra-la de novo. Amordaçaram-na e a jogaram na piscina. Tolos! Esperavam que ela se afogasse! Mas não essa moça! Ela já tinha aprendido a nadar com as serpentes. E... serpenteou... Saiu da piscina! Mesma amarrada! Sorte! Contrariando as ordens do pai (sem querer é verdade, ela é meio distraída), esqueceu as chaves da caminhonete no contato! Subiu, ligou a caminhonete e ficou esperando. Um dos bandidos saiu para colocar as coisas no carro que eles também iriam roubar! Ela o atrapelou! Quando o outro saiu para ver o que estava acontecendo teve o tempo apenas de ver a cabeça da moça. E caiu nocateado! Ela salvava o dia novamente! Seu pai, sua arte, mas a cozinha e sua comida já estavam destruídas... paciência... A fúria que a tomou só passou quando viu dois indo embora de ambulância o terceiro sendo colocando estupidamente dentro do furgão da polícia. Sorte deles que o socorro veio rápido!
Bom, mas não disso tudo que se trata essa história. Acontece-se que essa intrépida moça tinha um medo! E teve que dar de cara com ele!
Por muito tempo ela não namorou. Mas um dia ela conheceu um rapaz. Formoso, inteligente, gostava de desenhos animados e Engenheiros do Hawaií! Foi assim que a paixão lhe acometeu. Também não havia como não se apaixonar por ela. Introvertida, mas de humor sagaz. Longos cabelos compridos, cacheados, escuros, contrastavam com seus olhos cor de mel. Quase atlética, só não o é, por pouco, devido aos churrascos constantes.
O amor mútuo nasceu e cresceu. Um dia eles começaram a namorar. Era um sábado de noite. Domingo de tarde, quando saía da padaria, uma jovem veio-lhe abordar. Magricela, loira, franzina, com roupas escuras.
- Ele não poderá ser seu! Não será! Você tem que larga-lo hoje! Senão, daqui para sete dias você morrerá! Morrerá de forma estúpida! Será patético!
Riu de forma estranha e saiu correndo. Nossa heroína levou 1 minuto para processar o que estava acontecendo! Quando foi atrás, ela já tinha sumido após virar uma esquina.
Nossa! Uma semana! Terminar estava fora de cogitação, mas em uma semana ela morreria deforma estúpida! Quem era aquela pessoa? Como poderia ser tão cruel? E como sabia do pior de seus medos?

(continua...)

29.10.10

Rapa da minha área!

Estavam os quatro jovens ali, comemorando. Não vem bem ao caso o que, não é disso que se trata. Fato foi que foram a um mercado, compraram uma bebida forte e barata, sentaram naquelas cadeiras de ferro, pintadas em branco, com diversos pontos de ferrugem, assim como a mesa. Pediram uma porção de torresmo. Não podia ter cardápio mais insalubre. E estavam os quatro ali bebemorando algo.
Dois homens, um com cabelos compridos lisos, densos, ásperos, rosto oval, porte atlético com uma pequena barriga. O outro mais alto, cabelos não tão compridos, mais volumosos, ameaçando cachear. Ambos riam soltamente. Duas mulheres, da mesma altura, ou próximas. Uma de cabelos muito longos, muito cacheados, de roupas tão fechadas quanto sua risada contagiava e ecoava no ar. Tantos gargalhos por causa da quarta personagem. A moça de rabo de cavalo, castanho, sem dúvida não era sedentária, mas talvez os risos que provocava que a mantinham em forma também!
Ela falava alto, articuladamente. Piadas? Não! Histórias! Sempre inéditas, construídas ali, na hora. Sem dúvida que já tinham seus construtos pré-prontos, mas qual incorporava naquela noite era peculiar! Uma sátira histórica, um francês, judeu, de educação nazista. Não era falta de respeito com a história ou com o sofrimento alheio, apenas a expressão de uma mente criativa em uma cena inusitada.
- No sê o que facer – dizia – Mamã e judii, papá e nascista! Malllditos nascitas! Malllditos rudeus!!
Enquanto as reflexões daquele ser em crise se desenrolavam, o assunto chamava a atenção da mesa ao lado. Um homem negro, não lembro muito bem dele, porque em certo momento ele desapareceu e não teve influência nenhuma no que se desenrolou em seguida. Uma mulher, deveria ter seus trinta e tantos anos, já estava bêbada, conversava já desarticuladamente. Não havia ninguém sóbrio naquele lugar? Franzina, cabelos curtos, face emagrecida. Olhos negros perdidos que passaram a fintar aquele grupo inusitado conversando. Seria impossível sequer supor o que se passava naquela mente alcoolicamente transtornada.
De repente ela se levanta, caminha lentamente para a mesa ao lado, abaixa-se de cócoras à quina da mesa, entre duas das cadeiras. O grupo silencia. Ela põe a mão na mesa, apoia o queixo fino na mão magra, acena um sim com a cabeça e erguendo do dedo indicador direito diz, vagarosamente:
- Vocês estão falando da minha vida... - fica em silêncio um tempo. Acena outro sim com a cabeça e repete: - Vocês estão falando da minha vida.
Põe a mão no queixo e a retira com força, levantando em seguida e voltando ao seu próprio copo, na mesa ao lado. Os quatro se entreolharam, levantaram sombrancelhas, viraram mãos, com faces de “o que foi isso?” e girando os dedos na cabeça, como quem diziam “louca coitada!” Um dos rapazes acena desdém e eles continuam a conversa totalmente non sense.
Então, finalmente, o álcool acabou, a porção de torresmo acabou, sendo o dinheiro suficiente apenas para pagá-la. Os quatro devidamente bêbados, diriam que teria sido festa digna, extremamente divertida! O rapaz dos cabelos lisos recolheu as moedas e foi pagar o aperitivo. Assisti de camarote! A moça magra levantou-se de um salto e chutou o bunda deste moço quando o mesmo voltava a seus amigos. Não pareceu ter doído, mas ele virou-se totalmente sem reação, sem entender o que estava acontecendo, etilicamente letárgico. Os três companheiros de copo levantaram-se. A mulher gritava:
- Rapa da minha área! RAPA DA MINHA ÁREA!
A moça de rabo-de-cavalo foi confrontá-la.
- Que foi? Essa praça não é sua não!
- Filha da puta!
- Filha da puta é (pausa) a SENHORA!
Singular! O rapaz de cabelo-quase-cacheado interpôs-se entre ambas no momento em que iriam começar a se bater. Com a mão no tórax de cada uma via as duas debaterem-se em palavrões! Uma com um linguajar repleto de gírias, a outra quase formal. Enquanto isso a outra moça estava no chão, sentada, rindo tanto que simplesmente não conseguia reagir a nada. Quase rolava de rir. O chutado fazia posições marciais, embriagado demais para tomar alguma atitude! A cena surreal pareceu durar uns 5 minutos!
- Vagabunda!!
- Vagabunda é a senhora TUA MÃE! Deixa ela comigo! Vou te quebrar!!!
- Cara, tira as meninas daqui!!
- U! Uh!
- CARA! Se mexe PORRA!
- U! Uh!
- FILHA DA PUTA!
- Levanta sua loca!
- (gargalhadas) Nã...o com...sigo... (gargalhadas). Minha... barrrrriga dóóóiiii (gargalhadas)
Quatro ou cinco outras pessoas assistiam perplexas, igualmente imóveis!
A distância entre as duas combatentes já era quase nula, quando finalmente chegou uma senhora e carregou a magra embora. Ninguém viu para onde. A cena destencionou-se de súbito, os quatro gritavam uns com os outros e davam risadas.
- O que foi isso?
- O que foi isso?
Sentindo o momento mais tranquilo foram rápido para o carro. Pareciam levemente assustados apesar da comicidade da situação. Um pressionava para que os outros agilizassem-se. Quando estavam entrando no carro a mulher aparece novamente. Na janela de uma casa ao lado da praça. Parecia um leão enjaulado. Eles entraram como um raio no carro e sumiram!

18.10.10

Desconfiança do Vazio 2

Injustiça fazer meus raríssimos leitores esperarem mais de uma semana para o término de um continho de nada... Desculpem. Quem dera eu ter o talento e a oportunidade de viver apenas do escrever. Atividade ingratamente reconhecida nessa país... Bem, quando o trabalho e a pós permitirem volto com mais alguma coisa. Espero não demorar uma semana novamente.


Nada neste saguão de entrada. As únicas cores eram as dos vitrais da porta de entrada. Corredores vazios. Um para frente, um para cada lado. Bloqueados por portas de madeira, pintadas de branco, pareciam ser de compensado. Droga. Deve ser para frente. Agora penso, porque raios achei que era para frente?
A porta estava aberta. Outro corredor. Branco. Portas nas duas paredes, várias, indistintas. Um homem de feições emagrecidas estava sentado em um banco de madeira, tipo de praça de cidade pequena. Seu tronco balançava para frente e para trás. Cabelos raspados, cuja aspereza de seu crescimento relevava uma meia idade grisalha. Pois, não tivesse visto isso, arriscaria dizer ter idade para uma cabeleira inteiramente alva.
- Senhor?
Ele continuou balançando.
- Senhor? - encontei-lhe no ombro.
Parou por alguns segundos. Ergueu os olhos. Quase caí de costas. Era um olhar tão vazio! Tão vazio! Por um momento senti que mergulharia nele, ou seria tragado para dentro. Afastei-me. Ele continuou a balançar.
Por de trás de algumas portas ouvia batidas, gemidos, às vezes gritos. Um homem passou por mim. Carregava baldes. Tentei falar-lhe, não deu tempo. Parece nem ter notado minha presença.
Ao atravessar a porta seguinte (semelhante à anterior) saí em um grande salão. Algumas pessoas andavam aleatoriamente, arrastando os pés, quietas, outras falavam sozinhas. Alguns assistiam televisão. Outros estavam sentados a mesas. Um parecia jogar damas sozinho. Sim! Quatro pessoas de jaleco branco. Deviam ser funcinários. Eles me ajudariam, sem dúvidas. Dois estavam sentados a um balcão olhando para o nada, uma estava à janela, olhava para algo do lado de fora (será que procurava o nada que não habitava ali?), outro folheava uma revista (no máximo estaria olhando para as figuras)
Quando dei dois passos para dentro um homem começou a gritar.
- Quero cigarro!
Algo ainda existia ali dentro dele! O cigarro!
- Quero MEU cigarro!
Um enfermeiro levantou-se e a enfermeira atentou-se. Ambos foram na direção do rapaz. Altura mediana. Cabelos muitos pretos, revoltos. Barba bem aparada. Rosto quadrado. Descrição toda que compunha de forma estranha com aquela bata de interno que estava usando, sobrecimada por uma jaqueta preta.
Quando os dois se aproximavam, ele subiu no sofá, espantou outros pacientes. Olhou na minha direção. Olhar profundo. Decidido? Esperançoso? De socorro? Pulou por cima da mobília no momento exato em que seria apanhado. Correu pela sala derrubando pacientes, cadeiras. De repente estava sobre mim. Segurou-me pelo colarinho, quase ergueu-me e gritou:
- DÁ MEU CIGARRO! POR FAVOR!
No momento seguinte eu era puxado pela frente. Não dava para entender muito bem o que estava acontecendo. Ele se debatia. Uma mão não largava minha camisa. Segurou-a com intensa força, enquanto era puxado para trás por dois homens de branco. Ao tentar se libertar dos homens segurou-me nos ombros. Por um segundo olhou-me dentro dos olhos. Desespero! Meu? Dele? Atrás da retina havia algo além do vácuo! Cada um foi puxado para um lado. Dois botões da camisa arrebetaram. A mão dele escorregou e no que se corpo oscilou para trás, seu braço foi pego por um homem, que imediatamente injetou-lhe algo. Ainda pude ver o sangue escorrer-lhe antes de o levarem para o outro lado da sala e sumirem por uma porta enquanto eu ofegava, tentava recompor minha roupa e alguém tentava acalmar-me, desculpar-se, com uma mão em minhas costas e a outra em meu braço.
Aqueles olhos negros impregnaram-se em minha córnea! Não vi para onde fui conduzido. Apenas vi que fui colocado sentado em um poltrona confortável. Dada-me água com açúcar. Na minha frente uma moça, formalmente vestida.
- Apenas queria entregar isso.
Entreguei o envelope. Ela o abriu, viu do que se tratava (o que seria?) e agradeceu. Pedi pela saída. Ela indicou-me, oferecendo-me milhões de desculpas etc. Andei por um corredor, no qual passei pela porta em que entrei. O homem com os baldes trancava a porta de vitrais. Ao terminar o corredor saí na recepção, cuja porta de entrada era na lateral do prédio mais próxima da guarita.
Bom... foi assim que conheci aquele prédio. Não entro mais lá nem por pagamento. É impressionante como é tudo vazio. A grana, as paredes, os pacientes, os funcionários.... Vazio.... Mas naquele homem, naquele que entrou em minha alma, talvez para que eu visse a dele, nele havia algo trancado lá dentro, pedindo para sair.
- Impressionante. Realmente acho que não se trata alguém trancafiando assim.
- É! Chegamos.
- Quanto ficou?
- Vinte e sete. Pode dar esses vinte e cinco, está ótimo. Boa viagem apra o senhor.
- Obrigado. Tudo de bom para o senhor. Ah! Cobrou essa bagunça daquela a quem fez o favor?
- Estou indo lá agora... vai ficar um pouco caro! Se é quem me entende...
- Ah! Ok! Boa sorte.

8.10.10

Desconfiança do Vazio

bom... semana muitíssimo conturbada, indo de excesso de trabalho até destruição de um teclado de R$300,00!!! É de chorar!!



Não sei porque justamente eu tinha que ir àquele lugar. Ele é estranho. Dizem que mal-assombrado. Isso é uma bobagem, mas é verdade que paira algo muito anormal ali. Passei com o táxi na frente pela manhã. Que imagem! Um prédio com altura para uns 4 ou 5 andares, mas parecia ter apenas dois. Seis pavilhões interligados pelo o que parecia ser um corredor. Fachada de construção antiga, pintura velha, desgastada, manchada, mal-cuidada. Na frente um comprido jardim, com grama e um ou outro arbusto. Nenhuma pessoa. Vazio. De fora só é possível ver o guarda que regula a entrada de carros, mais ninguém.
Teria que levar o documento para lá pela tarde. Passei o dia pensando naquele lugar. Nas pessoas que lá estavam internadas. Como seriam? Loucas, é o que dizem. Devem até ser perigosas! Para ficarem trancadas assim... Nunca conheci alguém que tenha trabalhado em um lugar assim, ou sido internado. Será que alguém sai de lá?
Almocei distraído. Sem perceber direito o que comia. João estava comigo.
- Bah, onde tu tá hoje?
- Perdido... tenho que levar um documento naquele hospital
- O de gente doida?
- Esse...
- Bah...
- O quê?
- Eu não iria lá não.
- Ahn? Por quê?
- Tchê! Parece que não sabe! Tem uns guris perigosos por lá! Doidos! E se eles resolvem te pegar?
- Quem resolve me pegar? Tu que tá louco!
- Os doidinhos ué!
- Eles ficam trancados lá?
- Não sei! Talvez seja o mais seguro a fazer!
- Mas aí como é que melhora trancado?
- E tem jeito de melhorar?
- Deve ter né! Ninguém fica doente o resto da vida!
- Diz que o avô da minha vizinha morreu doente assim! Diz que via coisas, que batia nos guris, chegou a sair pelado na rua...
- Que triste.
- Ah! Acho que nem sofre tanto assim não! Eles nem sabem o que estão fazendo!
- Talvez.
- Enfim, eu não iria e se eu fosse você, menos ainda!
- Por quê?
- Vai que os médicos resolvem te prender lá dentro também!
- Pára!
- Sabe que a diferença entre o médico e o paciente desses lugares é só quem é o dono da chave né?
- Porra, só vou entregar um documento e sair. Não tem erro!
- Boa sorte.
O tom fúnebre do "boa sorte" foi irritante demais! Fui embora calado. E agora? É... porque não tem jeito! As coisas que aquele infeliz falaram ficaram se rebatendo na minha cabeça! Ser perseguido. Apanhar. Ser preso.
Entrei no carro. Olhar estatelado para o volante. Nem saberia dizer quanto tempo fiquei ali perdido em pensamentos. Pensamentos perdidos.
Tentei ligar para a causadora de tudo isso. Aquela que pediu-me esse favor a quem gentilmente cedi. O que um homem não faz por uma merda de par de olhos azuis e uma voz carinhosa? Impressionante como os celulares ficam convenientemente desligados ou fora de área em momentos estratégicos!
Cheguei pelo outro lado da avenida. Tem um córrego entre as pistas. Uma lanchonete de frente ao hospital. Que lugar mórbido para se comer. Parei ali, pedi uma garrafa de cerveja. Parece que eu precisava tomar coragem. Doidos, loucos, preso, ficar preso. Violência. A garrafa secou em dois tempos. Secou. Precisava resolver logo esse assunto. Quanto mais demorava, mais dinheiro perdia. É isso! Paguei a conta, manobrei o carro e fui obstinado à guarita.
- Preciso entregar um documento. Posso entrar com o carro?
- Pode.
Guarda gordinho. Olhou-me de esgueio. Desconfiado. Abriu a cancela como se olhasse para o nada. Entrei, parei o carro em uma vaga perto da entrada. Silêncio.
Janelas um pouco opacas. Ninguém nelas. Grana verdejante, brilhante. Ninguém nela. Mesmo os passarinhos estavam muito calados. Uma porta grande, pesada, alta, toda decorada com vitrais, mas com o verniz e a pintura bastante gastos. Foi preciso algum esforço para abri-la. Um corredor, branco, corredores transversais, brancos. Ninguém ali. Onde estão todos?

(continua...)