6.8.17

Mal que me persegue

Imagem relacionadaEscrevo essas notas em um pequeno momento de lucidez.
Decepcionei minha família. Sobretudo decepcionei minha mãe!
Minha mãe trabalhava 12 horas por dia. Dedicava-se ao máximo, para que nós pudéssemos ter a melhor educação possível. Para pagar comida, material escolar, ônibus! Sempre reconheci isso! Que teria sido da vida sem ela?
Meus irmãos foram em seu encaminhando em seu exemplo. No exemplo de seu trabalho e esforço. Não que eles realmente estivessem mudando de vida, mas pelo menos estavam ganhando suas próprias vidas dignas.
Eu gostava de ler. Ela motivava. Era pouco para resistir à vida. Vida que vinha bater a minha porta e dizer que eu deveria trabalhar, largar tudo, ou que deveria me comprometer com as coisas erradas.
As coisas erradas...
As coisas erradas me perseguiam. Agora mesmo elas estão atrás de mim. Elas me perseguem!
Não sei exatamente quando elas começaram a me perseguir. Só sei que eu sentia. De repente comecei a perceber que elas estavam atrás de mim... olho para trás e... nada!!! Não tinha nada! Eu só sentia que andava atrás de mim, mas não via nada. Agora mesmo, mesmo nesse breve momento lúcido, não sei direito o que veio antes. Sei que não consegui mais me livrar dessa sensação... deles estarem me perseguindo.
Eles estavam o tempo todo ouvindo o que eu dizia, vendo o que eu via. Mas eu olhava para trás e não tinha nada!
Que porra é essa?
Eu tinha certeza que tinha alguém ali atrás, mas eu olhava... e nada.
Assim eu segui. Não sei exatamente. Mas sei que algumas coisas erradas chegaram muito perto de mim e eu não aguentava a pressão! Ou a pressão veio depois? Sei que cedi! Cedi às coisas erradas. Só que por alguns instantes... alguns minutos que fosse... eu parava de olhar para trás. Parava de sentir que tinha alguém prestes a me pegar.
Malditos!!!
Parem com isso!
Não, eles não estão aqui agora.
Parece... mas não...
Sinto-os...
Foda-se!
Não sei exatamente, mas foi algo mais ou menos assim, quando comecei a escutar: eles estavam atrás de mim. No começo apenas sentia, mas depois também ouvia. Sei que agora eles estão me ouvindo e depois me punirão.
Sim eles vão me punir...
A menos que...
...
Então eu comecei a escutá-los também!
Não dá para não escutá-los! Mas não devo! Eles dizem coisas erradas... Eles dizem para eu matar, dizem pra eu me matar! Dói minha mão, dói... ca-da-jun-ta-da-mi-nha-mão. Penso na minha mão apertando um pescoço, apertando um gatilho, atravessando alguém com uma faca. Atravessando a mim mesmo com uma faca! Eles também dizem para eu me dilacerar, para eu me mutilar! 
As vezes só quero acabar com tudo isso logo de uma vez... Parar um pouco de sofrer...
Minha mãe não merece isso! To com um demônio em mim! O pastor disse que quem tem vontade dessas coisas é obra do inominável!
Maldito!
Sai do meu corpo!
Porque você tá aí o tempo todo falando comigo?
Maldito!
Não consigo não escutá-lo...
A menos que...
...
Entende que com tudo que eu fiz eu a decepconei e não poderia deixa-la sofrer tanto!? Não a deixando saber o tanto de coisa que eu fiz, o que eu me tornei. Fugi. Acovardei-me. Mas também não tinha outro jeito de sobreviver a tudo isso e ela a mim...
Ela não poderia resistir ao que estou me tornando! Quero arrancar essas escamas de maldade que invadem minha pele, essa fumaça impura que me corrói por dentro... Alguém arranca meu nariz? Alguém costura minha boca?
Não quero mais...
Não quero mais aquela fumaça. Não quero mais essa vida. Não quero mais essa perseguição! Preciso acabar com isso! Eles estão atrás de mim o tempo todo! Não posso matá-los...
A menos que...
Eles estão em mim...
E eu os odeio! 
Eu sou uma vergonha...
Odeio cada parte de meu corpo por onde eles falam...
Eu sou uma vergonha...
É isso! Vou acabar com cada um deles...
Não tenho coragem... não sozinho...
Covarde além de tudo!
Covarde...

Pois que o ódio venha! Mais agudo e implacável! Porque odiando terei força! E que venha o mal que me persegue, quero todos eles junto de mim, o mais que podem, porque quando nós cairmos daquele viaduto eles irão comigo! 
Uma garrafa, duas, três...
1 pedra, 5, 30 pedras...
Até que eu tenha coragem...

Já vejo aquela ponte em vertigem.

18.7.17

Linhas de vida e de morte

Ariadne e Teseu, Nicolo Bambini, 1651-1739
Ariadne recebeu esse nome porque uma vez sua mãe ouviu uma história... uma história qualquer, não lembra exatamente qual. Algo sobre ela costurar e salvar um herói. Talvez tivesse aí um misto de desejo e esperança... Esperança? Na melhor das hipóteses, teria alguma dignidade costurando para alguém... Sua mãe não poderia desejar nada melhor do que isso ou imaginar que ela poderia ir mais longe, ter melhor sorte...
Aquele seu marido era um filho da puta! Suas gravidezes tinham sido estupros, do começo ao final. E assim nasceu Ariadne, em meio a urros de dores. Múltiplos lugares existenciais doíam a cada contração e carne rasgada.
Assim, ela nasceu apanhando! Já apanhava na barriga. Claro que da barriga não queria sair e ao despertar para o mundo-cão já apanhou do médico, para ver se estava viva, para que chorasse. Chorou daquela vez e mais algumas outras vezes quando ainda era criança. Depois não mais. Quanta fragilidade se expõe em uma lágrima?
Quando tinha uns nove anos chorou de novo. Foi quando percebeu que se continuasse vivendo ali não conseguiria viver. Sim, aos nove anos. Seu corpo já estava muito marcado de cicatrizes, não tinha mais criança ali, só um pequeno ser pré-púbere com ódio do seu mundo. Era preciso ir para outros. Lá longe, no centro, tinham pequenos seres como ela que viviam livres, pelas ruas. Pegou uma mochila com algumas roupas, em uma noite, e foi. Chorou enquanto pulava a janela, corria pelo quintal, escalava o muro por um lado e descia pelo outro. Pensava em sua mãe pela manhã, ao encontrar sua cama vazia.
Sua primeira noite, fria, teria sido totalmente solitária, não fosse por um cachorro. O pequeno cão afeiçoou-se a ela e dormiram juntos, abraçados, esquentando-se. Muito mais carinho do que estava habituada.
Lá no centro encontrou seu bando. E pelos cantos escuros da cidade iam sobrevivendo, mangueando, realizando pequenos furtos. Fugindo da polícia, do conselho tutelar, de incheridos que queriam "melhorar" suas vidas. Não havia melhor do que aquilo para eles. Por alguns anos, Ariadne sumiu através de frestas e buracos nos muros. Via, vez por outra, algum conhecido à distância, até mesmo sua mãe, mas ela sempre via antes e sumia em algum canto escuro.
Até que um dia ela descobriu que estava grande demais para passar entre dois muros. E foi, pela primeira vez, para a Fundação Casa. Mentiu os contatos de sua família. Quando saiu, depois de 2 anos, voltou pra rua. Tinha perdido um pouco o traquejo. Também tinha perdido seu grupo. Também tinha perdido seus animais. Quando foi presa, dormia entre 4, três cachorros e um gato. Ninguém ousava chegar perto. Sua primeira noite foi solitária. Já tinha seus ares de mulher... e não passou a madrugada ilesa... E a aurora veio com ódio e sangue.
Voltou a ter companhia de seus animais. Adotou um ou outro cachorro, depois outro.... Mangueava para ela e para seus amigos e, sempre, eles comiam primeiro. O centro já não tinha tantos adolescentes. Diziam que a polícia estava fazendo o rapa... era preciso estar escondido o tempo todo. Usou de todas artimanhas para sobreviver, mas ainda não se entendia com seu corpo. Acabou pega de novo. Dessa vez para um abrigo. Onde ficou por um tempo. Eram aquelas paredes. E aquelas pessoas. E aquelas ordens todas. Nada daquilo fazia sentido. E nada daquilo penetrava sua pele, seus instintos, seus ouvidos. E na cama estava sozinha. Fugiu.
Pouca gente, hoje, percebe que ela ainda está saindo da adolescência hormonal. Na verdade, pouca gente percebe que ela existe... quem percebe, vê uma mulher.

Um dia, uma mulher estava na frente de uma igreja. Igreja grande. Muita gente passando. Dia de comércio movimentado. Como quase todos os dias por ali. Tinha dois cachorros. Em uma bolsa um gato cinza, na roupa um rato branco. No chão algumas roupas e outra bolsa, e alguma comida em uma marmita. Por algum motivo aquela mulher estava batendo nos cachorros. Batia com força. Cachorros vira-latas fortes. Um esganiçou, o que chamou a atenção indignada de uma transeunte qualquer. Que não era bem qualquer transeunte.
No dia seguinte a tal transeunte voltou. A mulher estava deitada, cercada por seus animais. A tal transeunte apresentou-se como sendo de uma associação protetora dos animais e perguntou de quem eram aqueles pobres famintos (os bichos). A mulher mandou a protetora à merda. Esta insistiu e foi rechaçada com violência. O que a mulher não viu é que duas viaturas da Guarda Municipal estavam protegendo aquela abordagem. Quatro guardas chegaram, fizeram a mulher levantar para passar por revista. Enquanto estava tendo seus pertences e seu corpo revistado, a mulher apenas viu, de canto de olho, a tal protetora colocando seus animais em uma van... os cachorros e o gato. Nesse momento o rato mordeu a mão de um guarda, que o pegou pelo corpo com muita força e o atirou longe. Teria sobrevivido? A mulher reagiu, gritou, gritou mais alto e começou a bater naqueles quatro homens. Ameaçou correr, mas recebeu um chute na perna que a derrubou. Ali mesmo recebeu outros chutes. Dali, com a boca sangrando, viu seu companheiros indo embora. Dali viu a protetora com olhar de medo para ela e para os guardas indo embora. Viu os guardas jogando seu pertences - sua bolsa, um retrato velho, o RG, a receita do anticoncepcional, um par de bijuterias e um perfume barato - no lixo e se afastando devagar, rindo. Dali também viu o lixeiro levando tudo para algum lugar que não existe. E viu a luz do dia acabar.
Ali, Ariadne, com o sangue escorrendo da boca para a calçada de pedras portuguesas, na frente da igreja, chorou de novo.
E nunca mais vimos Ariadne.

15.7.17

Carlos se fudeu

Carlos se fudeu.
Veio da perifa. Lá onde Judas perdeu as meias... porque as botas já tinham ficado no último lugar em que as pessoas ainda tinham algum tipo de direito. Negro. Porque isso ainda coloca uma âncora no pé.
De um casebre, que está com alguma alvenaria só há poucos anos, talvez uma década. Até hoje no osso... aquele acabamento que não foi possível comprar porque acabava com o orçamento familiar.
E que família. Vários irmãos. Uns tantos doentes. Os quartos eram 2, três com a sala. Casinha de cubículos de lego ocupada por vários bonequinhos.
Carlos de fudeu.
Pinga, cocaína e crack.
O tráfico dá muito mais futuro que a rotina semiescrava de trabalho para algum senhorio branco. Não nos enganemos. Não há futuro, por um lado ou outro. E não há família "Doriana" na miséria. E é aí que a rua alberga.
Na real? As portas estão fechadas. Umas brechas às vezes aparecem, mas a negritude já acaba com metade dessas. A situação fecha o resto. Ainda assim segue-se na luta. "Sou brasileiro e não desisto nunca", a Esperança, o último mal da Caixa de Pandora.
Não há futuro. Não há porque cuidar-se. Real? A pinga causa, mas também cura a dor. E se a dor é uma permanente certeza cotidiana... A vida de Carlos valia menos, não há dúvida. A vida de Carlos mal valia algum esforço, nem dele mesmo, nem da família. A vida de Carlos talvez valesse um cigarro soltinho, um corote ou uma pedra (das de 5...). Certamente não mais do que isso.
Carlos ainda teve quem tentasse no mínimo cuidar de algum resquício de dignidade, do que poderia ser uma fagulha de vida que se produzia naquele corpo. Foi pouco...
Carlos se fudeu.
Cerca de 40kg perdidos depois, morreu em casa, num quarto pequeno e escuro, mal acabado. Mas não morreu sozinho na calçada... ali, naqueles últimos minutos reconciliou-se com a família, com o colchão, com o teto, com a vida, com o afeto. Naqueles últimos minutos recebeu e deu, descobriu um pouco do que a vida poderia dar.
Não romantizemos... claro que Carlos foi um babaca também. A vida tem muitos tons de cor... sofreu, mas também revidou. Evidentemente, eventualmente, de modo execrável à sociedade e, talvez, à própria vida.
Já nos seus últimos dias, ao vistá-lo, tive a oportunidade de presenciar uma fundamental transformação. Aquele corpo esquelético encontrou-se com aquele seu afeto e não soube dar palavras às suas emoções. Antes do fim, viu amor e carinho. Antes de ir, como um pai, ainda coube-lhe dizer: "cuidado na volta, a pista está molhada".
Carlos não morreu de câncer. Carlos morreu de pobreza, negligência, preconceito, racismo. Morreu quando ainda estava vivo.


Ah... claro... só não esqueçamos que a morte também é parte da vida e nela também se produz vida... e quem poderia entender a vida que Carlos produziu?

11.4.17

A Glória e a Cachoeira

Com seu palheiro de canto de boca, Dona Glória cuidava da casa. Quando não, cuidava do filho. Quando não, cuidava do neto. Quando não, do marido adoentado. Dona Glória existia para servir. Entretanto a vida de Glória foi seguindo o caminho que tinha que seguir. Moedas contadas. Economizava-se em cada pequeno detalhe do cotidiano. Fosse a boa pesquisa das marcas e mercados mais baratos para a compra do mês, fosse preferir o frango à carne, se é que teria mistura, fosse tomar um banho expresso e funcional para economizar nas contas de água e luz.
No esforço e no sacrifício a vida de sua família andou. Não haveria outra maneira. O filho virou homem, com um bom emprego. Os tempos de carestia estavam em um passado. Os velhos hábitos seguiam, não havia porque mudá-los. Vida simples, casa simples, dedicação total a isso.
O neto cresceu, já não necessitava da atenção tão esmiuçada de uma criança pequena. Ele mesmo já não estava tão interessado assim no colo da velha. O marido acamou-se. O mundo fora de casa seguia não existindo, existia apenas o aplacamento do sofrimento de seu velho companheiro.
Enfim, seguindo o inexorável curso da vida, ele faleceu. E Dona Glória já não lhe servia. Tampouco servia Dona Glória para cuidar do filho, dinâmica vida urbana moderna que ele já levava. Tampouco servia muito ao neto, que apenas aparecia aos domingos para comer de sua macarronada ao almoço e de seus biscoitos cuidadosamente preparados à tarde.
Dona Glória já não servia de nada.
E a vida fica cinza quando já não se tem serventia. Quando não se encontra cor e ritmo.
E a velha não via o sol. Em tantas décadas pouco tinha saído para apenas apreciar uma tarde e já não sabia como fazê-lo. E a velha já pouco cozinhava, pois já não tinha a quem alimentar. E a si própria aquele arroz com feijão perdera o sabor. A televisão gastava muita eletricidade, por não mais do que duas horas estava ligada. Os banhos seguiam sendo rápidos. Os livros... algum momento da vida teve gosto por leitura, mas então já não teve tempo para dedicar a tão banal atividade. Os poucos que lhe sobraram agora eram calço. De toda forma, o aguçamento de seus olhos já não servia a essas coisas de gente inteligente.
A própria Dona Glória ficou cinza e corcunda. O peso da vida não era mais possível de sustentar.
Então um dia seu filho chegou. Era um domingo. Parecia acometido de alguma febre, uma ansiedade adolescente ou sei lá o que. O neto também estava muito animado. Mais do que o comum. Entretanto, nada de diferente lhe falaram. Dona Glória serviu a mesa. Rezaram, comeram. Dona Glória tirou a mesa, lavou a louça e sentou corcunda e cinza em sua velha poltrona.
"Vamos mãe! Vamos sair!" Disse um agitado filho, enquanto o menino pulava sorridente de um lado a outro.
Tomaram um caminho que ela mesma nunca havia feito... em tantas décadas de vida... desde seu nascimento, naquela mesma cidade. Passaram por fazendas. A estrada asfaltada cedeu lugar à terra. A terra batida à lama, aos buracos. O carro balançava e ela agarrava-se fortemente aos anteparos do banco de passageiro. Fazenda após fazenda entremeavam-se com uma vegetação arbustiva, árvores retorcidas, lindas. Nunca havia reparado na existência daquelas flores, pequeninas, roxas, amarelas.
E então uma ponte de madeira. Madeira grossa. Certamente vinda de outro lugar. Atravessaram-na pelo mero prazer de atravessá-la. Foram para um lado de carro e de volta ao outro a pé.
Resistente e ressabiada, mas ela acaba deixando-se conduzir por um caminho de lama batida que desce ao lado de um mourão onde começa uma pequena mureta da ponte. Descendo paralelo à estrutura de madeira, seguem a um caminho que margeia rente ao raso e semi-cristalino rio. A cor amarronzada da água não permitia ver o fundo onde o leito se tornasse um pouco mais profundo, por uma curva ou um buraco nas pedras.
Que maluquice a desse menino! Levar uma velha ao rio! E fazê-la andar por entre as pedras. E fazê-la andar no próprio rio. E ir de uma pedra a outra até atravessá-lo. Para, enfim, do outro lado, descer por uma escada tosca e naturalmente esculpida entre pedras amontoadas. Finalmente, chegando a uma pequeníssima praia de areia marrom quase-escura de frente a uma bela cachoeira. Nenhuma grande queda, talvez uns 2 ou 3 metros até o nível d'água, mas em volume suficiente para fazer uma razoável pressão em quem se aventurasse por ali. Seu poço permitia aproximar-se dela andando, ainda que, facilmente, uma pessoa alta teria a água pela cintura.
Uma cachoeira... já ouvira falar disso, mas nunca se arriscaria, nunca ousou tanto atrevimento... e sempre parecia tão distante... Seu filho e neto logo estavam de sunga. Ela não tinha biquini, maiô, nem sabia nadar... Sentou em um pedra e calmamente fez seu cigarro de palha, vendo as crianças brincarem felizes na água, anquele bicho estranho.
- Faz vinte anos que acampo aqui! Aquela pedra ali, caiu dali ano passado, com a chuva!
Falava e indicava, animadamente, um homem de uns 50 anos, conversando com seu grupo, de homens, enquanto bebiam uma cerveja barata.
Vinte anos...
Vinte anos e ela nem sabia da existência daquele lugar!
- Pai, tem um ninho aqui!
Apontava o neto, dentro de um pequena gruta que se formava sobre o rio, após o poço da cachoeira. O sol se refletia no rio e iluminava o teto, pedras polidas pelo tempo, brilhavam. E seu assombro só aumentava. Hipnotizada pelas luzes levantou, lentamente entrou na água fria até a gruta, apoiada eu seu cigarrete. E de repente sentiu como se entrasse em outro mundo. E de repente lembrou de qualquer história de saci, curupira e onça que já nem se contam mais. E cada história lembrada levantava um pouco mais sua cabeça e cada momento a mais de água gelada colocava seus ossos um pouco mais no lugar.
- Vem mãe!
- Vem vó!
Gritavam eles do poço.
Não ousou.
- De roupa?
- É!
- Vai mãe que a água está acabando!
Ela ainda vacilou!
- Vai mãe que essa não gasta eletricidade! - e disse baixo, ao filho - Agora ela vem!
E foi! Ora essa! Estava brincando com a cara dela! E como não entraria!
Dez segundos de coragem, até a água à cintura. Alguns minutos de vacilo, de pé, olhando de pertinho a dança das gotas em queda. De canto de olho viu que suas crianças a observavam, de perto, com um sorrisso terno.
Entrou! E foi tomada pela pressão da água! Instintivamente estacou as pernas cansadas e ganhou força. E foi invadida pelo frio. E foi tomada pelo calor da força hidráulica. Frio e calor. E endireitou o tronco. E entregou os ombros à massagem das forças da natureza. E ali deixou-se. Entregue. Não passiva como em toda a sua vida, mas equilibrando-se com toda aquela energia... cinética, térmica, emocional, espiritual, da natureza.
E depois de muito tempo saiu... e, talvez pela primeira vez, viu o horizonte...

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* história fictícia, inspirada na vida e nas paragens observadas.

Junto com os cursos d’água e cachoeiras a cidade de Agudos possui uma flora nativa com floresta de cerrado. A Cachoeira da Glória é particular. Seu acesso é livre por estar à beira da estrada da fazenda. Para chegar, entra-se em Agudos pela entrada principal, seguindo reto até atravessar completamente a zona urbana, sentido Fazenda São Benedito, localizada no quilômetro 5 da SP-273. Em seguida segue-se em frente até acabar o asfalto e continua o percurso na terra até a sede da Fazenda Glória que terá um portal à direita. Quando chegar nesse portal, vira-se à esquerda e segue-se a estrada até chegar numa pequena ponte de madeira que dá acesso à cachoeira. O lugar não possui infraestrutura turística, não é necessário pedir autorização e nem agendamento prévio. É só descer a trilha junto ao rio.

18.1.17

Sara arrebentada

Como a maior parte das negras, Sara nasceu pobre, em uma cidade no sul do país. Ainda que pobre, a família conseguia prover a subsistência, os estudos, a comida, o sono. Sara viveu sua puberdade naquele ambiente em que a violência é uma legítima linguagem. A “boca” era a meio quarteirão da escola, o beck, a farinha e a pedra eram fáceis, o tráfico dava as regras. De jovem já se começava, com alguma frequência, a usar em uma praça ali perto. A etiqueta da inclusão em um grupo adolescentil.
O problema dela, naquela época, não foram as drogas, foi a ardência da paixão juvenil, mas foi também o machismo. Ela se apaixonou por um rapaz. Diziam que era um bom rapaz, simpático, educado. E assim era, no começo. Romântico, seduziu-a. Levou-a pela cidade. Bebiam e transavam. Mas as sensações ainda eram poucas. O sangue dele pedia mais intensidade, mais explosão. Começou com um tirinho. Dois, três. Pegava-a com força. O sexo era com força, mesmo quando ela não queria! E para relaxar, para sentir mais, fazia-a cheirar também.
Quando ela engravidou, disse a todos que era uma puta. Sim, Sara era uma puta! Não merecia respeito! Estaria grávida de outro. Jogou-a na sarjeta e sumiu. Sua mãe a acolheu. O dinheiro não dava para a coca, passou a fumar pedra. Parou quando a criança nasceu, ainda era uma boneca para ela, mas era uma boneca que ela amava muito. Precisou largar a escola. No seu bairro seguiu sendo a puta, entrava e saía de casa buscando o trabalho e os olhares tortos a marcavam, denunciavam sua devassidão, mesmo a não cometida. Trabalho? A única chance de uma negra pobre, mãe jovem e solteira, sem estudo, é trabalhar muito e não ganhar nada.
Tão insuportável situação amainou quando outro homem se aproximou. Ele calou, de uma forma ou de outra, a maledicência da vizinhança. Ele também a calou, a puta estava dentro de casa e ele era dono dela agora. Se não era com ofensas, calava-a com tapas. Sara bebia. Um ou outro corote por dia. Era para anestesiar o latejamento dos hematomas do corpo e da alma.
Ela engravidou de novo. Em grávida não se bate. Assim suportou mais 7 meses, entre ofensas e cachaça. O parto doeu como nada! Seu salvo conduto tinha acabado! A dor era tamanha que mal podia escutar o médico mandando-a calar a boca, “para dar não gritou, não é”! O bebê nasceu bem, era um milagre, dizia esse mesmo médico, no dia seguinte.
Mais um ano apanhando… Num dia gritos, noutro tapas. Quando ele cheirava, descia a mão mais pesado. Num dia tapas, noutro pontapés, uma vez usou uma tesoura para fazer pequenos furos. A cicatriz do cigarro apagado em seu nariz ela carrega até hoje.
O bebê não poderia viver ali, a avó ficou com mais esse. Até que o tráfico deu um fim no homem. Só que quando isso aconteceu a bebida já não era mais suficiente para anestesiar, estava fumando pedra de novo. Qualquer um notaria no dedo queimado, nos lábios rachados, nas costelas aparecendo, no olho fundo.
Voltou para a mãe. Doente. Ambas estavam. Encontrou uma porta fechada. Ela não ficaria ali, com as crianças, drogada como era, mulher da vida. A mãe fechou-lhe a porta, não tinha mais saúde para os desvarios da filha, para busca-la na rua. Agora Sara não tinha para onde ir… vagou pelas ruas… por um tempo trocou seu corpo por um teto e umas pedras de crack, apanhava, mas já não era tanto. De um canto a outro ouviu falar de uma cidade, para onde muitas mulheres iam fazer programa, rendia um bom dinheiro. Todas iam e vinham e sempre tinha espaço para mais uma que soubesse fazer bem o trabalho. E ela sabia… há tantos anos…
E foi… e ainda não voltou. Porque lá chegando encontrou bordéis e encontrou dinheiro. Ainda recebia pouco, mas sonhava que em pouco tempo poderia subir umas duas ruas e ganhar umas três vezes mais. Só que assim como pobre não fica rico, puta barata não vira garota de programa. Os homens não a batiam mais, mas a cafetina sim. A mulher, dona do puteiro, ameaçava “suas” meninas. E concretizava cada ameaça! E forçava as meninas a fazerem os programas sem preservativo. E também forçava o aborto. E chegou a vez de Sara. Sara engravidou de novo. E então a chibata cantou. Mas aí que algo de quilombo despertou e Sara revidou.
Mais uma vez estava na rua. Fugiu rápido, pois se ficasse não acordaria no dia seguinte. Cidade grande é bom, porque é só mudar de região para já sumir do mapa. Foi para uma boca, às margens de um córrego. Ali encontrou um senhor que lhe dava um teto ocasionalmente. Mas a vizinhança se perguntava quem era aquela puta craqueira prenha que estava por ali. E logo já não pôde mais ficar ali. Gestante é ruim para os negócios, chama a atenção.
Finalmente encontrou outro rapaz por quem se apaixonou. Apaixonou ou sentiu-se um pouco mais segura? Ele não batia nela. Cuidava dela. Ficava em um buraco de uma estação de trem urbano abandonada. E ali os dois passaram a morar. Ele conseguia comida, cuidava dela, mas o crack era permanente em suas vidas, mesmo não tendo dinheiro. Fumavam juntos e se cuidavam, se protegiam, se respeitavam. Sim, na rua também há cuidado.
Sara, por um momento, encontrou quem cuidasse dela. Um breve momento. Grávida encontraram-na por ali, olharam para ela e insistiram. Apesar de, a essa altura, o crack gritar a uma altura ensurdecedora, e a violência ser um modo de vida, e a rua ser um habitat.
Sara conseguiu sair da rua. Conseguiu não fumar. E por algumas semanas conseguiu se cuidar, se maquiou, comeu, engordou. E voltou para a rua, seu companheiro ainda estava lá, dependia dele tanto quanto do crack.
E quase pariu no buraco. Sara sentiu seu útero contrair, sentiu o líquido escorrer por suas coxas. Sentiu a pressão. Sentiu que ia nascer. Apesar disso, ainda esperou um pouco. Não podia nascer no buraco, mas também não queria ir para o hospital. Fumou uma pedra, criou coragem. A ambulância chegou no exato momento para que ela pudesse chegar ao hospital e lá ter sua bebê em pouco tempo. Foi tão pouco tempo que não precisou escutar os arroubos moralistas de algum médico ou enfermeira babacas. Pensou nisso em meio à última contração, à última força para parir e com um sorriso de canto de boca, "venci", pariu.
E parou de novo. Parou tudo. Largou aquele homem. E prometeu não mais fumar. Queria aquela filha. E queria voltar para a casa da mãe. Esta já tinha dito que a aceitaria de volta com a criança, “limpa”. Mas aí alguma coisa deu errado. "Dinheiro na mão é vendaval". E simplesmente não sabia mais o que podia fazer com um algum dinheiro à disposição. Há muito tempo que tinha pouquíssimas opções, talvez só tivesse uma coisa que soubesse fazer…
Fumou…
Na linha do trem, por onde vagava, uma mulher cuidou de sua filha. Cuidou? Nem Sara sabia direito o que estava fazendo.
Sara já não sabe direito que será de sua filha…
Sara não acredita na Sara. Desde a adolescência. E ninguém acredita na Sara. E agora, Sara está internada… tenta ser menos louca ou mais adequada? Por ali alguéns ainda acreditam nela e quem sabe, em algum momento, ela consiga tentar de novo… ali ou lá…

26.6.16

Amor aquarela

Certo homem levanta-se todo dia no mesmo horário. Lá por aquela hora em que o sol está nascendo nas épocas de equinócio. O despertador toca, leniente com aquele corpo que custa a despertar de um sono torporoso e sem sonhos. Repleto de autocomiseração, arrasta-se para o banheiro e procedimentalmente lava o rosto, escova os dentes e diz ao espelho que hoje será um dia melhor (segundo a receita de um livro de auto-ajuda "para vencedores"). Na cozinha engole um pão com um café preto, desjejum apressado e cheio de culpa. Não pode atrasar no trabalho e deveria comer melhor... o médico diz que come muito carboidrato e que café sobe a pressão. Mas o tempo urge...
Apressado, parte para um trabalho. Um trabalho sem graça. Não é muito feliz nele, não. É meio tedioso, meio irritante, mas precisa de um meio de vida... está temporariamente nele há anos... um dia muda de emprego pra algo que goste (Será que sabe do que gosta?). Está construindo seu caminho. Procura convencer-se (se repetir muito, quem sabe torne-se verdade) disso no caminho de ida ao início do expediente, entre atropelos e xingos de um trânsito caótico.
O dia passa, sem sobressaltos. Mal é possível lembrar no que ele trabalha, é praticamente irrelevante... qualquer coisa massificadora, mais um serviço automático qualquer que lhe obtusa o pensamento...
O caminho de volta costuma ser marcado por audaciosas manobras em um trânsito do inferno enviado apenas para transtornar ainda mais seu dia tenebroso. Chega em casa, atira as coisas em um canto da sala, serve-se uma dose dupla de whisky on the rocks, afinal, depois de um dia desse, é mais do que merecido! Trabalha pra quê afinal? Na TV, alguma comédia pastelão ou algum filme de ação.
Um dia repete-se após o outro, quase como se o anterior não tivesse existido ou como se o seguinte não estivesse porvir ou já estivesse tão determinado que não é possível (ou relevante) pensar a respeito dele. Ah sim! Eventualmente, uma vez por ano, consegue férias. Qualquer viagem de 15 dias justificam o sacrifício do ano anterior...
Seria, sinceramente, uma vida que não valeria em nada ser contada...

https://www.behance.net/gallery/Aqueous/46946
Então, apareceu branco. Como uma cor qualquer, cruzou sua vida em um breve momento em que desviou-se de sua rotina para um programa mundano (desses provocados por algum incidente ou amigo insistente). Branco apareceu, lhe falou não mais que meia dúzia de palavras e fez uma pequena marca em sua mão. Uma curiosa marca que prendia sua atenção e seu olhar.
Todo dia olhava para ela! Todo dia pensava nela. Então, enamorou-se de branco. Para todo lugar que ia levava-a junto. A marca expandiu-se, ocupou seu braço e logo, em mais um par de dias, todo o seu corpo. E seguiu avançando... logo tudo tinha que ser branco... as roupas, depois a casa. Pouco a pouco, tudo ficou branco. Amava branco e branco ocupou toda a sua vida. Seus olhos foram cobertos por um véu branco. Uma vida feliz e branca! Como se não pudesse mais existir sem isso.
Mas as cores são lépidas e faceiras! Branco pulou! Cansou até de si mesmo! E começou a escorrer, escorrer pelo ralo, pelas frestas, por qualquer pequeno vão pelo qual pudesse passar. O homem foi invadido por pleno desespero. A todo custo procurou conter o movimento de branco. Mas o movimento de uma cor não é contível. Construiu barricadas. Comprou tinta para ele mesmo pintar tudo de branco, mas essa cor de seu pincel não passava de uma sombra, uma emulação, da cor que lhe escapava por entre os dedos, literalmente.
Em um ato intempestuoso tentou conter a cor em um balde. Mas, em seu nervosismo, escorregou e virou o recipiente que continha os últimos rastros de branco de seu corpo. Via agora, sempre e em todo lugar, os vultos brancos de seu véu, agudizando sua angústia. Branco estava, mas não estava...
No auge da impotência, o homem perde o movimento e começa a definhar. Definha, seca, murcha, não há nada que valha a pena sem sua amada cor, que o abandona, cruel, mas mantém-se em sua vista.
Qualquer vontade de movimento vai abandonando-o. Convertendo-se em uma casca seca e decrépita.
Junto às portas de um suspiro final, da total falta de vontade, converte sua paixão em raiva. E sobre a raiva firma novamente seus joelhos e cotovelos e ergue-se em um novo corpo. Reencontra-se com o espelho de seu banheiro que lhe confidencia "amanhã talvez seja um dia melhor", "branco só atrapalhou sua vida tão bem engendrada".
A rotina o ocupa novamente e as matizes brancas de seu olhar vão se anuviando. A vida toma seu rumo novamente. Um dia após o outro. Sem dia seguinte, sem dia anterior. O véu branco já repousa em um bolso, que vez por outra aperta em uma lembrança ou saudade dolorosas.

Ocorre que, outro dia, uma serelepe e pulante "criança" passa correndo por ele quase derrubando-o. Ao perceber seu descuido ela corre para longe. Ele a pragueja, mas ela retorna tão rapidamente quanto foi e com uma flor. Uma flor azul. E que danada! Olhou-o com aqueles olhos-de-bem-querer, deixou a flor e se foi. Simplesmente se foi e deixou aquela flor azul ali pulsando. Um coração azul que batia de maneira tênue e constante. Não poderia simplesmente jogá-la fora, ainda que invasora de seu ritual cotidiano tão bem controlado.
Cuidadosamente colocou a flor azul em um vaso de vidro com água e os depositou sobre a mesa. Todo dia ao acordar conversava com a flor. Toda noite trocava-lhe a água cansada do dia por água fresca. E ela tinha mais a mostrar de sua exuberância! Uma e outra pétala foram se abrindo, compondo algo realmente maravilhoso. A cada dia sua pulsação era mais forte!
Não sabe quando começou, ou como isso se deu, mas quando percebeu seus braços já estavam azuis! Azuis e quentes e vivos e fortes! Deixou-se arrebatar! E logo sentiu-se todo azul! Cada canto obscuro de sua existência estava tomado por essa cor forte e pulsante.
E que êxtase no dia em que uma pequena pétala se despegou do conjunto. Claro! Era um presente! Uma dádiva! Recolheu-a com todo o carinho e fez dela um broche. E passava o dia inteiro olhando para aquela pequena pétala. Mas alguns dias depois outra caiu, também a recolheu cuidadosamente. E no dia seguinte outra. E mais outra...
Quando precisou de uma caixinha para guardar aquelas gotas celestes, percebeu que ela o estava deixando! Ela estava partindo! Ela também não! O lenço branco apertou-lhe a mão direita. Tentou trocar de água mais vezes, tentou borrifar, tentou mudar de lugar, alterar a incidência do sol... nada disso afetou o inexorável processo de despetalamento. Recolhia cada partezinha de sua paixão e não a deixava partir, guardando-as, uma a uma em uma pequena caixinha, talvez uma de uma antiga aliança. E ali depositou todo seu querer. Não foi trabalhar, ficou sentado vendo-a despedaçar-se. Assistindo, em profunda tristeza, sua partida.
Quando a última pétala caiu tentou colocar-se junto com ela, dentro da caixa. Mas na impossibilidade de unir-se ao azul, simplesmente escorregou pelo chão... Dias passou deitado olhando para aquele sagrado recipiente de inúteis esperanças anis.
Dizem que um amigo o encontrou em deplorável estado. Seu corpo macilento e inerte jazia, já fétido, no chão. A muito custo ele foi levantado, lhe deram banho e o fizeram comer. O véu e a caixa não saíram de perto nem um segundo. Com algum esforço o homem pôs-se  caminhar novamente.
E, agora, de maneira alguma, deixaria qualquer outra ardilosa cor se aproximar. Andava sem tirar as mãos do bolso, pois quando alguma maledicente cor vinha cortejar-lhe os sentidos sentia apertar o véu branco em uma mão e a caixinha de azul pesar na outra.

Retomou sua pacata e rotineira vida de antigamente. Retomar, é uma maneira genérica de dizer e pouco condizente com a realidade, pois algo ficou marcado em seu ser, em seu pensamento. Não sabia bem se seria uma memória ou se seria um ressentimento, um passado ou uma tristeza perene. O fato é que nada do que aconteceu realmente o deixou, mas não conseguia enxergar ou entender por onde isso passava. Alguma inquietude passou a ser permanente, ainda que frequentemente obtusada pela pressão da rotina. E tornou-se ainda mais produtivo no trabalho e menos no pensamento (ou no sentimento).
Por mais que não quisesse, branco e azul continuaram povoando sua cama, seu café da manhã, seu banho e seu tênis. Estavam ali. E seu coração endureceu. Endurecer é uma palavra boa para descrever isso. Nada passa, nada entra, mas também nada sai. Mantém-se integramente protegido, mas pode simplesmente estourar em migalhas se o peso da existência for maior que sua dureza. E assim ficou muito tempo.

Só que a vida tem suas sordidezas e não é possível passar incólume a tudo. As modificações podem ir acontecendo, mesmo que lentamente. Ele mal percebia, mas amarelo estava rondando-o. Por muito tempo o fez com alguma distância. Pouco a pouco aproximou-se, tocou-o, acariciou-o. Talvez nem este mesmo percebesse seu próprio movimento e suas próprias intenções, quanto mais ele. O fato é que em algum tempo estavam se acompanhando, nas luzes e nas ideias, nos caminhos e nos silêncios.
E um cuidado assim, tão sensível e sutil, abranda. E assim ele foi aquecendo e a casca foi derretendo. Uma suave mudança, imperceptível na passagem dos minutos, mas de inexorável era volumosa na passagem dos meses. O toque vinha em múltiplas direções, de diversas fontes, mas vinha sempre.
Assim amarelo amoleceu-o e penetrou sua vontade, abriu pequenas fissuras. Uma vontade que não é solitária já é outra, de outra coisa, é um desejo de vida cada minuto mais poderoso. E o homem firmou seus pés e ergueu seu tórax. E amarelo estava com ele nessa caminhada. E ficou forte! E contava com amarelo para tudo e qualquer coisa. E já sentia que não seria se não tivesse amarelo.
Só que "felizes para sempre" não é algo da vida real e concreta. Na montanha russa da existência algumas coisas escapam do carrinho naquela curva a alata velocidade e, parece, que só se sobe para poder desabar em mais alta velocidade ainda. Bem... numa esquina da vida ele seguiu, mas amarelo dobrou. E quando percebeu-se aquele o dia claro e sem nuvens foi tomado por uma longa tempestade de muitos dias. Amarelo foi-se e agora seu espírito era só lágrimas e relâmpagos, ventos raivosos e correntezas de tristeza.
E toda aquela água pesou em seu corpo, fraquejou suas coxas e panturrilhas, dobrou seus joelhos, curvou suas costas. E as costas não sustentavam mais aquele mundo que desabava, nem seus braços poderiam mais suportar, então foi ao chão.
Ali, jogado ao solo, foi confundindo-se com o próprio chão, deixando de ser si. Escorrendo, cada vez mais flácido, em uma musculatura sem tesão.
E quando já quase não havia mais ser a que se apegar, estourou um relâmpago. Nessa repentina e estrondosa energia trovoou um grito poderoso de desespero. Suas fibras tencionaram-se uma vez mais, eletrocutadas. Uma tensão quase explosiva! Suficientemente forte para que se erguesse e se rasgasse em dor e tristeza. Sob sua pele, da profundeza de sua pele, emergiu aquele líquido denso, rubro. Vermelhalmente escorreu, diluído em lágrima, sobre um corpo em farrapos vestido de migalhas. Sentiu, por um instante, sentiu, aquele dedo quente suavemente percorria seu corpo de cima para baixo, escutou a gota-dedo pingando. E quando permitiu-se olhar, viu. Sim, o que sempre esteve ali, tatuado. Branco fazia parte de seu corpo. Azul fazia parte de seu corpo. Amarelo ainda estava marcado. E em sangue permitiam-se carregar-se de um ponto a outro, diluíam-se e misturavam em tons alaranjados, esverdeados. Espectros multicoloridos compunham seu corpo. Irmanavam-se, amavam-se e o constituíam. Presenças que ainda eram, ainda que distintamente constituídas, e faziam parte da existência de si mesmo. Bastava que ele mesmo seguisse re-existindo tais quais todas aquelas cores que passavam (e eternamente estariam, ainda que não mais ficassem), pois tudo é impermanente.
Assim ergueu-se.
E não foi feliz para sempre.
Mas entendeu que eternamente resistiria. Resistiriam em si. E então, só então, amou.
Jessica Damasceno
https://www.facebook.com/jessicadamascenoart

15.9.15

As durezas dos chãos e das flores II

(1ªparte)

Entre pinga, graxa, caixa e marquise viveu por uns dois anos. Não que fizesse essa crítica sobre si mesmo, mas havia algo hedônico em viver exclusivamente um dia de cada vez. O dia seguinte não existia e poderia realmente não existir. O dia anterior, só tristeza e dor.
Um par de sapatos, um gole de cachaça. Um trocado, uma nova garrafa. Um prato de arroz e feijão baratos ocasionalmente. Os vermes do chão, da água, da louça mal lavada, garantiam algum aporte proteico... suficiente só para despertar um dia de cada vez.
Mas você que não viesse com qualquer oferta idiota! Era homem limpo! Não usava mais drogas. Só o corote mesmo... fazer o quê! Mas sai pra lá, seu vagabundo com essa sua pedra de crack!
Sai pra lá seu viado, com essa sua sem-vergonhice! O negócio mesmo, era pegar o dinheiro dos dois últimos sapatos e ir na rua de cima. Lá tinha puta da boa. Dessas que enchem a mão e que cobram nada! Para ele, naquela situação, uma gozada por semana era suficiente, mas aproveitava cada minuto!
Mas foi aí, quando já não tinha mais sujeira nova que experimentar. Quando já era amigo da maior parte dos calçamentos do centro da cidade, quando já tinha trocado socos com metade dos seus companheiros de rua (abusados, quem pensavam que eram pra questionar o quanto ele era homem?), que ela apareceu.
Todo dia passava justo ali por perto de onde estacionava seu caixote. Insinuava-se entre as barracas de camelô, ancas largas, seios fartos em um decote que engolia seu olhar. Depois de desfilar, indiscretamente interromper as conversas masculinas, receber, como se não estivesse ouvindo, cantadas de baixo calão e assobios evocativos se postava atrás de um balcão de frutas. Cada fruta era uma sedução... rebolava o quadril para vender a melancia, apertava os peitos para exibir a maçã, parecia sacar o cacho de uva de dentro do decote, para pegar um cacho de bananas debruçava-se sobre o balcão a ponto em que a blusinha era totalmente dispensável...
Vê-la todo dia enlouqueceu seu juízo!
Largou o corote...
Maneira de dizer...
Bem dizer, bebia um trago sim outro não, para amaciar o chão sob a marquise...
Arrumou uma roupa limpa.
Ergueu o tronco, erigiu a coluna.
Passou a calçar pares de sapatos, como se sua vida dependesse disso! E dependia...
Acordava sob a marquise junto com o nascer do sol. A cada dia dava um jeito para lavar-se, aparar a barba, pentear o cabelo justo ao crânio, partido no meio, passar uma colônia barata.
- Vai dar o cú! - gritava algum companheiro de rua.
- Viado!  - gritava outro.
E os ignorava. Melhor, simplesmente não os escutava racionalmente.
Conseguiu juntar um dinheiro. Muito mais do que houvera conseguido nos últimos anos!
Então comprou a ela o mais bonito buquê de flores que encontrou naquelas paragens. E gastou todo o pouco dinheiro que tinha. Ela estava fechando a barraca quando chegou a seu lado. Não sabia o que fazer ou o que dizer. Todas as mulheres com as quais houvera estado nos últimos anos tinha sido compradas! E de forma meio gutural, atrapalhada e desconexa emitiu alguma cantada de mau gostou e entregou-lhe as flores.
- De você não quero nada! Sai daqui!
Aquilo doeu. Mais, rompeu os tímpanos. Mais, quebrou algo dentro de si!
Saiu dali abatido, carregando o buquê. Sua mão era capaz, no máximo, da contração de repouso, na qual os nódulos dos ramos das flores se apoiavam para não irem ao chão... ainda que suas pétalas arrastassem por ele...
Sem conseguir pensar em mais nada, subiu no viaduto e se jogou de cima.
Malditos médicos! Trouxeram-no de volta, miserável, infeliz e manco!
A caixa da graxa, abadonada a um canto, foi destruída. Sobrou o corote. E o corote depois do corote. E o seguinte depois deste... e o outro ao amanhecer, e mais um ao anoitecer, além do para dormir. Adoeceu. Foi internado e voltou. Adoeceu, foi internado e voltou. Adoeceu, foi internado e voltou... e voltou... e voltou... e voltou... A sobriedade era um mal de amor! E cada ajuda, cada recuperação era somente para preceder a recaída, nas memórias daqueles seios fartos que estavam lá... sempre,... para serem apreciados, no fundo de cada garrafa!
Mas o tempo é o tempo... e o cuidado é o cuidado... e melhorou... cada dia um bocadinho... E a cada bocadinho que melhorava lembrava da sua mãe, do seu padrasto, não lembrava do seu pai, lembrava do seu amor e do seu não-amor.
Até que um dia ela passou por ali. Formosa, linda, cheirosa. Em um par de saltos altos, delicioso decote, uma barriguinha de fora ladeada por torneados braços... um dos quais dado a um homem... para o qual se virava, de tempos em tempos, para um apaixonado beijo. E lembrou que seu único companheiro naquela vida era o corote. E a ele foi encontrar. De novo... e de novo e de novo...

De repente já estava na lama e na merda de novo...cada dia menos lama e mais merda... por pura falta de água...
E ali decidiu que não era mais possível... que não suportava mais. Até tentaram dissuadi-lo. Mas já estava resoluto.
Certa mais manhã desperta, com hálito um pouco sulfuroso... recebeu os primeiros caminhantes na rua. Virou sua última garrafa de cachaça e caiu, estrebuchado, no meio da multidão. Um pedaço de carne e de nada, tremendo e parado, babando, mas já seco de vida.
E nunca mais sua mãe teve notícia dele e nunca mais ninguém lembrou dele e naquelas marquises não sobraram vestígios de si...

23.8.15

As durezas dos chãos e das flores I

Voltando a postar...


E então o pai dele sumiu de casa. Aquelas histórias que alguns falam brincando... dizem que ele foi comprar cigarros e nunca mais voltou... tinha por volta de uns 7 anos. Algo como 20 anos depois, voltou a ter notícias dele, achou-o um canalha, nunca o perdoou... também não houve muita chance para tal.
Pouco importa.
Importa é que sua mãe casou de novo... uns 5 anos depois. Tampouco valia qualquer coisa aquele padrasto de merda! Bebia e batia! Batia bem! Com eficiência. Sequer necessitava de muito esforço para provocar dor e acuar!
Não custou muito para Beto encontrar aquela cola em um armário no fundo da casa. Usar isso, no seu mundo, se aprende na es-cola.
O cheiro da cola anestesiou suas terminações nervosas... pelo menos por algum tempo. Mas não acabou com os tapas, as cintadas e os gritos. Uma hora o efeito já não era suficiente... uma hora o efeito já era quase imperceptível. A cerveja, misturada no tempo, já produzia outros efeitos... mas o dinheiro não era muito, então a pinga cumpria bem o serviço a um custo muito menor. Tá certo que nas primeiras vezes desceu rasgando, doía a garganta, o estômago e até o nariz nas primeiras expirações após o gole... mas isso também se anestesiou.
Ah! A cachaça era incrível! Porque com ela era só aumentar a dose... a cada ano a dose era maior! Mas ela também dava coragem além da anestesia! Quando misturava com o crack então! E com a cocaína? Nossa! Enfrentaria o Batman!
Mas a cinta ainda cantava!
E a cada vergão, a raiva crescia. E com a raiva, o ódio! E com a pinga, a coragem.
Um dia revidou, derrubou-o no chão, já estava grande, adolescente... Apanhou. Mas bateu também! Muito! Deu polícia e hospital. E deu fofoca entre todas as senhoras que habitavam as janelas da cidade.
Aí já não tinha saída. Era necessário sair de casa. E naquela pequena cidade do interior de Minas não havia muito para onde um adolescente ir. Todos o conheciam e o odiavam. As senhoras o vigiavam com olhar de reprovação permanente e sem misericórdia!
Uma carona e outra...
E já estava fora da cidade... e logo já estava fora de Minas.
Um caminhoneiro lhe contou que começou a trabalhar como engraxate, naquela época conseguiu um bom dinheiro para viver. Na parada, no posto de gasolina, pagou-lhe uma cerveja enquanto lhe ensinava o ofício da graxa na rua. Aquele ofício merecia ter um herdeiro. Uma cerveja e outra cerveja. Um sapato e outro sapato. A cachaça virou corote. A noite ficou longa. A técnica foi transmitida. "Menino, com a droga você não vai conseguir nada!" Tais palavras entraram, firmes e fortes. Gravaram-se permanentemente no tímpano! O corote deixava os ouvidos mais aguçados!
Vez por outra vinha aquela coragem de bater em todos, de enfrentar o mundo! E enfrentava... logo não tinha mais emprego, não tinha casa para onde ir, não tinha quarto que alugar. Partiu, para nunca mais voltar. Na mochila uma muda de roupa a lembrança da boa mãe... aquela que o deixou partir... que o amava...
E dali veio sua primeira caixa de engraxate.
E então ele chegou na cidade grande. Pelas ruas perambulou sem um centavo. Na graxa se arriscou, garantiu sua refeição, mas não sua cama. Nos ladrilhos frios do granito, sob a laje de uma loja, teve sua primeira noite, mas não seu primeiro sono. Frio e medo. Só o que tinha. Assim seguiu por dias a fio. Precisava dormir, não tinha mais como. Não tinha onde. Suas cutículas, os cantos de suas unhas, já tinham crostas de graxa. Suas mãos rachadas seguraram aquele corote! Tomou-o, todo! Lembrando do dia que o caminhoneiro lhe deu uma chave que o permitiu comer, mas não dormir. E, trôpego, dormiu, naquele mesmo granito gelado...
(continua)

19.1.14

O menino e o crocodilo

Uma fábula, iniciada no susto, para uma criança curiosa...
(falta uma revisão desse texto)


Era uma vez, há muito, muito tempo atrás, uma terra distante chamada Egito. Nesse lugar só existia deserto, para onde quer que você olhasse apenas via montanhas de areia. Lá, as pessoas eram nômades, viviam em tendas e mudavam de lugar o tempo todo.
Certa vez, em uma de suas mudanças, eles encontraram um enorme e lindo rio. Conforme se aproximavam dele percebiam que a areia virava terra, cresciam coqueiros e outras frutas, viviam muitos passarinhos, lagartos e outros animais.
Ali seria um lugar excelente para começar a plantar comida e criar animais e, quem sabe, parar de mudar de um lugar ao outro do deserto.
O problema é que naquele largo e profundo rio vivia um grupo de poderosos crocodilos, grandes e famintos. Ficar perto do rio por algum tempo era a receita segura para virar o jantar de um deles. Tentar afugentar, lutar, distrair, construir proteções contra eles, mas nada teve sucesso... tiveram que partir, com dor no coração.
A partir de então, a cada ano, voltavam ao rio na esperança de que o grupo de crocodilos já não estivesse mais por lá. E sempre voltavam ao deserto frustrados, mas, daquela vez, o conselho da tribo decidiu, esse seria a última tentativa de ficar naquele lugar maravilhoso.
Justamente nesse ano o menino chamado Nilo estava completando 6 anos! Estava muito feliz, já se sentia uma criança grande, queria sair para passear e caminhar sozinho, ao que sua mãe o avisava:
- Cuidado menino, o deserto está cheio de perigos, serpentes venenosas, escorpiões, tempestades de areia.
No dia do seu aniversário ele resolveu sair escondido para passear. Um pássaro escuro, um corvo, pousou perto dele e disse:
- Cuidado menino!
E ele achou que estava escutando coisas. Um passarinho não podia falar. Andou e andou. Estava distraído sobre uma duna quando escorregou e caiu rolando duna abaixo... quando abriu os olhos uma serpente o olhava nos olhos. Estava prestes a ataca-lo! Nesse momento uma águia pousou ao lado dos dois:
- Calma amiga! Ele não quer seus ovos! Deixe-o ir!
- Ssssss dessa vez... mas chegue perto daqui novamente e como seus olhos! - respondeu ameaçadoramente a serpente.
O menino estava surpreso demais para reagir. Ele estava falando com uma águia e uma serpente!
- Vamos menino, volte para a sua família.
Nilo levantou e voltou para casa. Nesse dia descobriu que podia falar com os animais!
No dia seguinte partiram para o rio.

A tribo chegou nas proximidades do rio e levantou suas tendas. Era mais seguro ir à água pela manhã. Dormiram ansiosos, esperando pela decisão do outro dia. Um grupo foi com paus e pedras verificar se os crocodilos ainda estavam por ali. Nilo foi escondido, um pouco mais trás, chegando perto subiu em uma duna para ver o que estava acontecendo.
Quando os homens foram chegando perto os animais saíram furiosos da água, com suas grandes bocas abertas e ameaçadoras. E Nilo escutava gritos roucos:
- Saíam de perto dos meus ovos! Dos meu bebês!
- Saíam daqui!
Seus parentes jogaram os paus e as pedras, mas foi inútil, aqueles répteis tinham um couro muito grosso e duro. Todos recuaram e voltaram para o acampamento decepcionados.
Nilo se encheu de coragem e desceu, escondido, até o rio.
- Seu crocodilo! Faz isso não!
Ele respondeu bravo:
- Que menino abusado! Vou te engolir em uma bocada só!
Uma águia, que estava passando por ali, ficou interessada e disse, num guincho agudo.
- Faraó, seu crocodilo mal-humorado! Vamos escutar o que o humano tem a dizer!
- É! Vamos me escutar!
- O que você quer?
- É que a vida no deserto está muito difícil pra gente! Deixa a gente viver aqui perto do rio!
- E vocês querem morar em cima dos meus ovos?
E a águia interrompe:
- E se vocês fossem morar um pouco mais pra cima do rio e os crocodilos, no próximo ano pusessem os ovos naquela curva do rio que tem lá pra baixo?
- Feito! - responde Nilo rapidamente
- Concordo, mas deixem meus ovos em paz! - respondeu o crocodilo com sua voz rouca e ranzinza.

Então Nilo voltou o mais rápido possível para casa! Todos já estavam desmontando as tendas, muito tristes. Contou para os pais e outros parentes a novidade. Mas ninguém acreditou.
- Junta suas coisas e vamos embora menino!
- Eu vou provar pra vocês! Vou lá falar com ele! - e saiu correndo, antes que qualquer um pudesse segura-lo!
Todos saíram correndo atrás dele. E quando estava chegando perto do rio começou a gritar:
- Faraó! Eles estão tristes demais para acreditar em mim! Ajuda!
- Pula nas minhas costas! Vamos mostrar pra eles!
E as pessoas entenderam apenas a palavra faraó! De todo o resto só ouviram rugidos e grunhidos.
Nilo pulou nas costas do crocodilo e os dois saíram pelo rio, subindo e baixando, brincando de mergulhar. Então Faraó parou de repente no ponto combinado! Nilo saiu voando de suas costas para a areia. Levantou e correu para abraça-lo, mas só conseguia segura-lo pela boca de tão grande que era! O velho animal do rio gostou e caiu de lado para receber o carinho onde o couro era mais fino, embaixo do pescoço.
E todos pensaram que Nilo estavam lutando contra o crocodilo e ganhando dele! E então acharam que ali os crocodilos não iriam mais incomodar. E a casa mais perto do rio seria a do Nilo. A tribo virou uma cidade, que virou um reino. A história foi contada de pai para filha, mas depois de muitos anos começaram a confundir os nomes, o rei daquele reino começou a ser conhecido por faraó e o rio recebeu o nome de Nilo!


6.1.14

Promessa

Faz um ano!
Um ano que ele se foi!
Prometi que seria mais forte! Que em um ano estaria preparado! Pronto para enfrentar qualquer coisa, pronto para desafiar a morte. Abrir-lhe o peito e dizer: pode vir que daqui você não passa!
Mas ao invés de enfrenta-la, tornei-me amigo da morte. Parceiro. De tempos em tempos ela faz uma visita. Ou leva alguém ou simplesmente assombra sonhos perdidos de madrugadas úmidas. Úmidas porque inevitavelmente acordo suando. Ela vem, diz um olá, afronta-me, assevera: comigo você não pode, e se vai.

Eu sei!
Eu prometi!
NÃO! Você não pode cobrar-me dessa maneira!
Saia das minhas costas! Tire suas mãos gélidas de meus ombros e suas más intenções de meus ouvidos!
NÃO! Eu não quero te ouvir!
Eu sei do buraco escuro ao qual você está me conduzindo!
Sim, é o mesmo no qual você se foi, de intestino embrulhado, de pés enredados!
SAIA!

Mas eu prometi e de uma promessa você não se livra tão facilmente! Eu sei...
Está aqui cobrando sua dívida.
Eu entendo!
Mas veja bem! As coisas não são tão fáceis assim! O ano se passou tão rapidamente...
Eu sei... é sempre atribulado, sempre confuso... Você me pega no contrapé mesmo! Não tenho o que dizer, você está absolutamente certo! São meras desculpas para aplacar minha consciência frágil e derrotada de antemão!

...

Mas o que poderia eu fazer? Fazer viver aos socos? Isso só acontece em filmes! A água turva não permitiria achar-te a tempo... sim... tão pouco a opacidade da minha coragem...
Da morte nada é possível arrancar! Ela me disse! Ela me confessou que é pura decomposição! Dela mesma nada pode sair.
É certo que também me confessou que se adianta em seu tempo... motivos não lhe faltam! Fique feliz enquanto está escapando de seu inescrupuloso olhar! Aos que se esquivam só resta entender o inevitável movimento da vida. Coisas precisam se desfazer para que outras se façam. Cada coisa dura. E cada coisa resiste. Resiste pendurada em tênues linhas de nylon, invisíveis, intangíveis, elásticas... mas se rompidas... adeus! E sempre são rompidas a fogo!

Já estou tartamudeando... essa conversa acaba comigo... acaba com meu ar. Posso senti-lo respirando a minha parte de oxigênio, tentando compensar o que faltou-lhe. Do mesmo jeito que ainda posso sentir minhas pernas paralisadas pelas dúvida e pela covardia.

Mas agora chega! Já passou o seu tempo! Vá-se daqui! Inútil dizer para não voltar... mas dê-me mais um ano para pagar essa dívida... quem sabe em um ano aplaque sua fúria agiota.
Por hora satisfaça-se com isso e dê-me algumas noites de sono tranquilo antes que nossa amiga volte a visitar-me...


19.12.13

Estática

Mais um microconto que tá há meses no forno....

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A televisão já não o satisfazia mais. Todos aqueles programas eram demasiadamente tediosos. Com o controle remoto no braço do sofá, sua mão sem vontade mudava de canal a cada 30 segundos, quase exatamente. Os canais mudavam na velocidade dos pensamentos que atravessavam sua mente, sem se fixar, sem desevolver qualquer ideia ou desejo. Conversava consigo mesmo, repleto de redundâncias, circunvoluções, digressões, esquecimentos e recordações. Como poderia qualquer coisa crescer em tão acidentado e pedregoso terreno?

Desligou a TV e arremessou o controle para o outro lado do sofá. Pura frustração e necessidade de um movimento, pequeno que fosse, mais intenso.
Levantou... andou pela casa... sentou ao computador. Notícias desinteressantes, emails monótonos, facebook entediante, chats sem conteúdo, sem sentido ou sem resposta. Não, nada no computador falava com ele... mesmo assim passou cerca de uma hora olhando para a tela, como se algo fosse pular dela e arranca-lo do torpor de forma brusca!
Mas isso não aconteceu...
Levantou, comeu qualquer coisa...
Sentou.
Levantou, comeu mais alguma coisa...
Sentou.
Levantou e ficou quinze minutos olhando o interior da geladeira cheia sem encontrar nada que preenchesse adequadamente o vazio que sentia no estômago.
E a cada movimento, sentia que seus músculos contraíam mais do que seria necessário. Seus dentes prendiam nada. Sua mente tropessava em pedras ilusórias postas no meio corredor, estava indo para aquele lado ou para o outro? O que estava mesmo indo fazer no banheiro?
Volta pra sala. Sempre gostou muito da varanda e sempre aproveitou-se muito pouco dela. Coloca uma cadeira do lado de fora e abre seu livro favorito. Duas linhas, uma digressão. Uma linha e a atenção presa por um acontecimento trivial na rua. Não é possível!! Duas linhas... mais! Um parágrafo inteiro... o assento já está duro demais. Levanta, abandona o livro no sofá. E volta a andar de um lado para outro da casa.
Não é mais possível ficar por lá. A agitação do seu corpo e da sua mente estão insuportáveis!
Uma guerra! Uma guerra de si com... Com o que? Não é consigo mesmo. Com algo que o aperta de fora. Algo que o pressiona! Que o comprime naquela casca homem, invólucro corpo. A necessidade de provocar uma grande explosão. Correr enlouquecido, nu, por uma rua qualquer. Despir-se de tudo, de qualquer coisa que o esteja apertando. Sente que o estão apertando. E a cada passo escuta as vozes que o massacram. Massacram sua existência e o próprio valor dela.
Sai. Não, não leva documentos... Talvez tenha 10 reais perdidos em um bolso justo do jeans. A chave fica na porta, do lado de fora.
Passos tensos, apressados, percorrendo uma rua agitada, completamente inocente da bomba atômica prestes a explodir. Não, aqueles transeuntes todos que ignoram sua agitação não sabem o risco que estão correndo. Uma fusão nuclear está acontecendo ali e caminha impunemente dentre cidadãos desavisados!
Alguém os avise!
Passos cada vez mais curtos e mais apressados.
A musculatura da coxa não relaxa mais.
A longa e tensa caminhada vai se transformando em corrida.
Os braços vão duros ao longo do corpo. As panturrilhas latejam em um estado pré-cãimbra.
Vai explodir. Vai pifar. Vai colapsar.
Já nem sabe mais para onde está indo. Só vai, frenético. Explorando todo o movimento que seu corpo exige insanamente!
Cada vez mais rápido!
Cada vez mais tenso!
Cada vez mais bruto!
Cada vez mais insensível!
Não sente seu corpo, mas os odores o agridem suas narinas, as cores ferem seus olhos, os barulhos retubam ferozmente em seu tímpano.
Uma estrada? Uma rua deserta? O horizonte se apaga ao longe. Suas pernas obedecem apenas às suas próprias vontades! E agora querem buscar o pote de ouro ali onde o céu faz a curva. E se apressam ainda mais. Ainda é possível ir mais rápido. E o peso do ar, a cruel força da gravidade prejudicam seu andar, mas sente que com só mais um reflexo de seu tórax rijo e determinado e pode estourar qualquer obstáculo à sua frente.
Mais...
E mais...
Corre por aquela via de terra batida, como se deixasse para trás toda aquela dor. Mas seu corpo se exaure, seus joelhos bambeiam e o chão é destino irremediável.
Um corpo torporoso ao chão.
Mais de uma carne tensa e agitada.
Do chão, olha para o céu e sente-se tragado por aquele azul impressionante. Uma sensação tão vívida que quase começa a levitar. Sim, vai se soltar. Vai explodir. Levanta-se e segue andando... com uma sensação estranha. Um peso na mão direita e um latejamento assíncrono, um calor descompassado. Um corte em sua mão deixa escorrer aquele líquido denso, viscoso, quente, rubro... ele escorre lentamente, em um fio, da palma até a ponta de seu dedo médio. E pinga... gota por gota. Uma trilha de sangue. Sua trilha expiatória.
A pressão começa a escorrer. As árvores voltam a ser verdes... não, elas estavam sem cor, até momentos antes elas mal eram notáveis...
Escorre... e goteja.
Pouco a pouco.
Formando uma crosta no leito daquele riacho.
Aquela gota alivia o peso sobre os olhos. Já é possível ver o horizonte.
A outra, encolhe as asas de suas costas, que o obrigavam a voar enlouquecidamente pelo mundo.
Mais uma e o som se apazigua.
Não, não é vermelho. É rubro. É uma cor dura. Sem clemência. Sua imagem ocupa todo o flanco direito da mente. E o lado esquerdo começa a se organizar...
O olhar do mundo sobre aquele lento fluxo interrompe seu falatório caótico e contínuo. Ou a impregnação da imagem de seu próprio sangue na sua mente o ensurdece.
Enfim, o corpo todo se deixar capturar por aquele lento e impressionante fluxo.
O horizonte nubla e tudo se apaga.

5.11.13

Entraves na vida

Sabe aquelas épocas em que tudo está indo mal? A tristeza vinha não sei de onde. Uma angústia mortal. Como se não bastasse, meu trabalho era uma merda. Aquela gente toda, aquela pressão, aquela... A vida amorosa estava esquálida, secando tal qual rio de sertão.
Não encontrava força ou apoio para fazer alguma mudança, mudar de direção ou qualquer coisa assim. Eis que surge... minha mãe!
Ela me liga falando que tinha sonhado comigo. Acordou assustada mas não lembra o que foi que sonhou. De tarde encontrou Mãe Naiá e ela falou que precisava falar comigo. Essas bobagens dela! Bom, mas ela insistiu um dia, dois, três. No quarto dia já estava pensando, o que eu tinha a perder também não é? Já estava tudo uma merda mesmo.
Fui encontrar a tal mulher. Ela tinha uma... clínica? escritório? sala de atendimento? No centro da cidade. Era uma sala em um prédio meio antigo, de frente a uma praça. Sala bonita, com ares de limpa, bem arrumada. O branco de três paredes contrastava com o azul da quarta e com o céu azul daquele dia.
Entrei, ela estava sentada à mesa... blusa branca de alcinha. Estava escrevendo alguma coisa. Levantou os olhos, mirou-me já chamando-me pelo nome. Convidou-me a sentar e começou a desfiar uma série de coisas sobre mim e minha vida. Foi um impacto! Como ela sabia daquilo tudo? Encerrou dizendo que meu caminho estava bloqueado e que as coisas dificilmente dariam certo até que eu resolvesse aquilo. Para isso precisaríamos fazer um sessão. Não sabia se eu queria entrar mais nisso não. Deu-me um papel onde estava escrito, em letras de mão bonitas, seu telefone, caso eu resolvesse levar isso a frente.
Cheguei em casa e, imediatamente, liguei para tirar satisfação com minha mãe. Ela não podia ficar expondo minhas intimidades para os outros! Entretanto, ela jurou que não tinha dito nada além do público e notório (profissão, idade etc)! Como então a mulher saberia de tanta coisa?
Foram dias pensando nisso. Minha situação amorosa se deteriorou ainda mais... Não tinha mais para onde correr.
Fui atrás da Mãe Naiá. Ela me passou uma lista de compras... várias ervas, algumas bem difíceis de se achar, velas, incensos, pólvora, tecidos etc. Mais de uma centena de reais em coisas estranhas... Também deveria levar uma muda de roupa limpa, o "trabalho" duraria o fim de semana inteiro.
O lugar era no interior do estado, numa cidadezinha desconhecida qualquer. Fui de ônibus. Chegando, buscaram-me na rodoviária. Numa picape, rodamos por muito tempo. Saímos da cidade. Entramos em uma estrada de terra e fomos parar em uma casa no meio do mato.
Muitas árvores altas arranjavam-se de forma a deixar uma clareira, onde, quase em seu centro, tinha uma casa em sobrado, de madeira escura e velha. Todo o espaço aberto restante era predominantemente coberto por entulho de todo tipo... restos de materiais de construção, vidros, pneus, papelão, tudo disposto em montes entremeados por moitas de matos e, era possível sentir, moitas de ervas aromáticas. Uma parte do terreno, em círculo, estava bem limpa, em terra batida, com manchas e cinzas no centro.
Deveria despir-me de qualquer metal que estivesse carregando. Lá se foram os brincos. Também não poderia tomar banho... poderia suportar dois dias sem banho.
Passamos a tarde em preces e mantras sussurrados, os quais seria incapaz reproduzir mesmo que quisesse, e faço questão de esquecer.
Soei demais naquela tarde quente, sob um mormaço constante! Suportaria mesmo não tomar banho? Pegaram uma galinha e degolaram na minha frente. Vomitei. Escorreram o sangue em mim, espalharam cinzas junto.
Imundice generalizada! Nojo!
Uma das pessoas que estava participando do trabalho começou a se debater. Rolou no chão. Era uma cena impressionante. Debatia-se sobre as cinzas, o sangue, as penas... ao fundo, o corpo inerte da pobre ave. Estarrecimento.
Haviam colocado muitos entraves para minha vida. Seria impossível continuar naquele dia e era necessário enterrar uma oferenda. Naquele momento faria o que quer que me mandasse! O impacto era tal, era tudo tão impressionante, que era impossível raciocinar com clareza. Enterramos algum dinheiro em um buraco raso, no meio do círculo.
Colocaram-me para dormir em um quartinho no porão, só com uma pequena janela para fora. Cama dura, altamente desconfortável. Alguma coisa me fazia coçar! Seriam carrapatos? Foi uma noite inteira de vigília! Ainda que o sono por vezes fosse demasiadamente insuportável, a ansiedade não me permitia mais do que alguns cochilos.
Logo ao amanhecer reiniciamos as orações. Seria necessário enterrar ainda outra oferta. Agora foi a carteira inteira.
O almoço foi galinha. Quase com certeza aquela que foi sacrificada no dia anterior. No fim da tarde foi pedido que me despisse. Nudez pública, nem me a percebi tirando a roupa. Então queimaram minhas vestes. Deram-me uma blusinha e uma calça vagabunda e mandaram-me embora. Deveria ir embora rápido ou os espíritos poderiam revoltar-se contra tanto fardo que lhes impus.
Quando dei por mim já estava dentro do ônibus. O que tinha acontecido?

21.6.13

Algumas coisas tiram o sono

Fui provocado, por motivos que não convém explicar aqui agora, a escrever sobre os personagens que aparecem em contos no blog Milleunivers. Por diversos motivos, topei. No pouco tempo que tenho tido para escrever. Está aí...

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Algumas coisas tiram o sono. Para algumas pessoas não é difícil perder o sono, na verdade. Não ele. Ele dificilmente fica sem dormir, a menos que algo abale profundamente seu espírito. Ainda que seja íntimo do sono, seus sonhos flutuam, perdido na pólis de concreto, perdido, passeando entre prédios, armações de aço e vidro, pessoas, vidas, passados, presentes e futuros. Sonhos que embalam o repouso de seu corpo. Um arranjo permanentemente onírico bem organizado, com o qual vivia em perfeita harmonia espiralada sobre si. Mas naquela semana... já estava há 2 dias em vigília, vagando pela cidade...
Não por toda a cidade, apenas por aquelas ruas. Saía de casa, para lá ia, com qualquer desculpa frágil, ver uma loja ali por perto, comprar um presente pra prima (a quem não via há um ano), era caminho mais rápido, ou mais fácil, ou mais curto. Ia trabalhar, só um corpo presente executando algumas ações mecanicamente memorisadas e voltava para lá. De noite sentava em algum bar por ali, mas apenas em bares com mesas na rua ou junto a grandes janelas para a calçada. E vagava de um para outro bar. Tudo porque, apenas parcialmente conscientemente, esperava vê-la, atravessar novamente seu caminho, flagrar novamente a poesia em seus olhos.
Mas não... nada... já começava a tarde do terceiro dia desde que a viu. Desde que se toparam num café, ou num bar, ou qualquer coisa assim (estava meio bêbado), desde que o rosto dela foi tatuado em sua retina. Desde que sua atitude meio confiante, meio insolente, apregoou-se na sua.
Mas não! Porque raios achava que tinha alguma chance de cruzar, fortuitamente de novo com ela nessa imensa cidade?
Mas os acasos, ainda que não sejam por acaso, acontecem... mesmo nas grandes cidades.
Almoçou em qualquer canto. Nem sentiu direito o gosto da comida. Já desanimado, desesperançado.
Amuado sentou na amurada de concreto daquele largo espaço da espaço da avenida. Ali por onde muitas pessoas passam. Passam executivos, bem vestidos em seus ternos alinhados, passam hippies, góticos, emos, uns de branco, outros de preto... passam casais, apaixonados, brigando, brincando, passam apressados e vagarosos, determinados e perdidos, passam turistas da cidade e da vida e passa... ela! Passa ela! Sim, certamente! Viu de longe, mas jamais confundiria aquele corpo suave e enérgico, aqueles passos leves mas vigorosos!
Uma paralisia percorre todos os seus músculos! Não consegue se mexer e tem consciência disso! Uma tensão do corpo para frente mas sem mexer uma articulação sequer! De súbito veio-lhe na mente a imagem de uma grande caravela do século XVI afundando em uma tormenta. Homens e mulheres correndo para pequenos botes enquanto o navio parte ao meio! Um homem de longa barba paralisa enquanto vê sua amada escorregando por um lado e sua centena de páginas de escritos indo para a água pelo outro. Não podia acreditar que estava tendo um delírio com Camões enquanto ela estava lhe escapando!
Saltou de sua pasmaceira e correu atrás dela. Maldita multidão infernal que ocupa essa avenida diariamente! Corria esquivando-se por entre transeuntes completamente alheios a sua angústia. O sinal abriu e ela teve que parar! Ele parou junto, bem atrás dela. Esbaforido, recuperando o fôlego. Quando ela foi começar a andar ele a segurou delicadamente pelo ombro. Seus negros cabelos escorregaram pelo espaço até que aqueles dois pares de olhos castanhos se fitassem.
Alguns segundos, mas daquele tipo que provam a teoria de que o tempo é relativo. Talvez ela tenha percebido que ele estava incapaz de falar...
- Oi rapaz! Que bom te ver de novo!
- Estive te esperando!
- Também pensei em você!
- Eu SÓ pensei em você!
- O que você vai fazer agora?
- Não sei! Só estava te procurando!
- Acho que merecemos uma cerveja!
- Seria lindo!
- Você é uma graça! Acompanha-me?
- Sem dúvida!

A cena seguinte já é outra história.....

7.6.13

Sobre Prudência - A História da Aranha

Era uma vez certo casal de irmãos. Orgulho dos pais e da cidade onde moravam. Sim, aprontavam lá suas molequices, para as quais todos faziam vistas grossas, afinal eram bons alunos, conseguiam boas notas. Estavam presentes nas mais diversas atividades, das esportivas às culturais, das beneficentes às festivas. Mas eles tinham hábito, um hobby, um gosto, muito peculiar... criavam aranhas caranguejeiras! A maior parte das pessoas mal se atrevia a olhar para os terrários onde elas ficavam, quanto mais se aproximar, chegar perto ou alimentá-las.
Certa vez, ele foi para uma cidade no interior do Amazonas desenvolver um projeto relativo a saúde. Era sua primeira vez na grande selva e o espanto que toda aquela vida lhe causou não foi pequeno. Inúmeros insetos incomuns ao seu habitual olhar atento. Inúmeras aranhas, seja na zona urbana, seja na mata. Inofensivas ou perigosas, pequenas ou grandes. E, finalmente, o encontro com uma caranguejeira! Um espécime bonito! Não se conteve! Seria o presente perfeito para sua irmã! Com muita habilidade capturou-a, ainda era pequena. Com uma garrafa de plástico fez uma pequena acomodação para transporta-la. Sim, ele a trouxe para casa e deu, para enorme felicidade de ambos, para a irmã.
A amazônica aranha logo dominou o terrário em que foi colocada, matou as outras duas que já viviam ali calmamente. Seu apetite era voraz! Uma barata, dada às outras aranhas, passeava por um bom tempo pelo terrário antes de virar alimento para um dia inteiro. Para esta, uma barata não bastava, eram necessárias duas no dia, que tinham mortes rápidas sob sua voracidade. Uma aranha forte, com certos tons de agressividade, construiu uma densa teia por todo o seu espaço.
E cresceu. Essas aranhas podem crescer muito! Bem, a menina, mais nova, talvez ainda não entendesse muito sobre a biologia desses aracnídeos, ou talvez apenas fosse tomada pelo afobamento próprio de sua jovialidade. Espantava-lhe e alegrava-lhe o crescimento de seu animal. Um dia, surpreendeu-se ao acordar e ver que sua aranha tinha feito uma muda. O velho e já pequeno exoesqueleto estava descartado em um canto do terrário. Mais do que rapidamente a voluntariosa menina providenciou um terrário maior.
Sem teia, sem exoesqueleto, sem território, a aranha morreu em meio à confecção de seu novo habitat... exaurida no esforço.

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"É necessário guardar o suficiente do organismo para que ele se recomponha a cada aurora; pequenas provisões de significância e de interpretação, é também necessário conservar, inclusive para opô-las a seu
próprio sistema, quando as circunstâncias o exigem, quando as coisas, as pessoas, inclusive as situações nos obrigam; e pequenas rações de subjetividade, é preciso conservar suficientemente para poder responder à realidade dominante. Imitem os estratos. Não se atinge o CsO e seu plano de consistência desestratificando grosseiramente. Por isto encontrava-se desde o início o paradoxo destes corpos lúgubres e esvaziados: eles haviam se esvaziado de seus órgãos ao invés de buscar os pontos nos quais podiam paciente e momentaneamente desfazer esta organização dos órgãos que se chama organismo. Havia mesmo várias maneiras de perder seu CsO, seja por não se chegar a produzi-lo, seja produzindo-o mais ou menos, mas nada se produzindo sobre ele e as intensidades não passando ou se bloqueando. Isso porque o CsO não pára de oscilar entre as superfícies que o estratificam e o plano que o libera. Liberem-no com um gesto demasiado violento, façam saltar os estratos sem prudência e vocês mesmos se matarão, encravados num buraco negro, ou mesmo envolvidos numa catástrofe, ao invés de traçar o plano. O pior não é permanecer estratificado — organizado, significado, sujeitado — mas precipitar os estratos numa queda suicida ou demente, que os faz recair sobre nós, mais pesados do que nunca."
Deleuze, Gilles, Guattari, Felix. Mil Platôs - Capitalismo e esquizofrenia, vol.3. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996.

4.6.13

Escrever?

Estou prenho! Grávido de palavras. Palavras que se revoltam, dançam e balançam. Grafitam as apertadas paredes do meu cérebro, pintam gastos céus de possibilidades infinitas e temporárias, enlouquecidas por se fazerem ser. Ou elas já são? Estou grávido. Gestando expressões que dizem pouco ou nada, mas que sentem, ou se fazem sentir. Gestação de um mundo que está por vir... por vir? Em palavras? Batem e rebatem em fúria sem fim, em um caótico movimento. Vão explodir a sala... mas só depois de passarem pelo buraco do rato do queijo...

10.5.13

Fotomontagens

Gostei desse. Deu um trampo, mas gostei. Agradecimento especial à amiga Ju Romão pela montagem com a imagem da câmera. As outras foram encontras na internet. O título não ficou tão bacana, mas tá servindo...
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Sua face redonda e sardenta, coberta de cachos acobreados de repente circulou as tais redes sociais virtuais. Para sua mais absoluta alegria!
Como nem tudo são flores, ainda teve que defender sua grande sorte e percepção!
Ela tinha acabado o curso de fotografia fazia pouco tempo. Nem um mês. Quando muitos ainda a consideravam uma amadora. Seu reduzido portfólio dificultava conseguir alguns bons trabalhos. Vez por outra arrumava um freelancer... lá ia ela, um pouco atrapalhada com a quantidade de equipamentos, fotografar o casamento do vizinho da tia, o batizado da criança catarrenta do primo do seu primo, o aniversário de algum menino mimado. Cansativo. Pouco prazeroso.
Enfastiada disso, resolveu ir à caça... talvez boas fotos do cotidiano. Sim. Ela gostava de sentar em uma praça e ficar observando o movimento. Fotografava o casal de idosos, a criança afastando as pombas, pessoas passando apressadas. Uma pausa de microssegundos em dia-a-dias tão tumultuados e velozes. Ainda que tais cenas a provocassem, despertassem sua curiosidade, dificilmente outras pessoas igualmente se interessariam por clicks quase banais.
E quantas cenas interessantes perdia. Ali sentada, atenta a tudo, mas com medo de ter sua cara câmera roubada! Deixava-a dentro de uma grande bolsa negra, com a qual andava abraçada. Quando algo lhe chamava a atenção, até conseguir pegar a máquina e fazer todos os procedimentos necessários o momento já tinha escorrido pelo bueiro...
Ainda assim, aquele banco dava-lhe alguma sensação de segurança e por isso arriscava-se. Antes de ir embora ficava um bom tempo sem tirar nada da bolsa. Olhava em volta várias vezes buscando comportamentos suspeitos. Nada. De um salto punha-se de pé, juntava seu pacote ao tórax e saía andando a passos apertados. Mal olhava para o lado.
Um dia de aborrecimento sem igual. Uma semana inteira e nenhuma perspectiva de trabalho. Nenhuma boa foto na busca pela grande foto! Ela estava ali, atenta, trabalhando, às vezes pouco preparada, mas disposta. A tarde inteira na praça e nada. De repente, uma chuva fina começou, ao pôr do sol, naquele momento em que os feixes dourados quase tangenciam o chão sem tocá-lo e agora refletiam-se nos pequenos cristais d'água lançados ao solo. Um casal ignora a chuva e se beija! Que cores! Que momento transbordante! Rapidamente recorreu à câmera, ajustou e quando olhou através dela... nada... gotas esparsas, certa opacidade noturna, nenhum homem, nenhuma mulher. Vazio.
O vazio a perturbou todo o trajeto de volta para casa. E no jantar. E em seus sonhos. O vazio. A bolsa vazia, o prato vazio, a casa vazia, a janela vazia. Abriu a porta para fugir e caiu, caiu no vazio. Acordou ainda nos primeiros raios da manhã, ainda caindo... pegou sua máquina, mais por hábito do que por alguma obstinação em fotografar e andou sem destino. Vez ou outra parava, fazia uma foto ou outra. Mas o que queria era andar! E expurgar aquele vazio.
Após quase duas horas passou por uma rua com grandes árvores. Cabisbaixa, caminhava pelo calçamento, prestando pouca atenção em quem passava por ela ou a interpelava. Mas uma menina passou rapidamente por sua retina e ficou gravada. Deveria ter uns seis anos, com um vestido escorrido, florido. Andava serelepemente de mãos dadas com alguém quando a ultrapassou. Iam na mesma direção. Não a olhou diretamente, mas sentiu, que lá na frente, ela estancou o passo e voltou correndo. Sem dizer uma palavra deu-lhe uma flor amarela e voltou pulando para o adulto que a acompanhava.
Um flor amarela.
Ficou um tempo olhando para ela. De onde tinha saído aquela menina? E essa flor? Olhou em volta. Várias casas tinham flores em suas jardineiras, em pequenos jardins frontais. Apertou a pequena haste e pôs aquele sol em seu cabelo. Mal sabia onde estava.
Continuou andando. Absolutamente abalada por aquele acontecimento. Não foi capaz de ir longe. Sentou. E lá estava. Bem a sua frente! Sob uma árvore! Não acreditava no que estava vendo!


Que noite maravilhosa! Um céu limpo e estrelado. Nem sinal das nuvens que trouxeram a breve chuva da tarde... E que chuva!
Fazia anos que não se viam. Anos com aquele leve incômodo no peito, o que deu errado? Sim, eram jovens, jovens demais para perceber, ainda tinham muito o que experimentar na vida. As sensações estavam sempre muito a flor da pele. Composições e decomposições em velocidades além de qualquer prudência.
Em um dia a paixão explodia fervorosa. Incontível. Só em uma ficção científica seria possível captar a temperatura que alcançava aqueles dois corpos em fricção. Fricção constante. De carne, de intenção, de desejo, de tesão, de vida.
...
No dia seguinte algo poderia sair do eixo, qualquer algo. Evento tolo do cotidiano. Era o mesmo movimento explosivo, a mesma velocidade, mas em direções contrárias. Ardiam em raiva... Eram capazes de arremessar vasos, derrubar portas, esburacar paredes. Dias sem se ver, dias sem se falar.
Então, em novo explosivo movimento, atraíam-se de forma intempestiva. Corriam uma maratona de volta aos braços um do outro. E era como se atravessassem, a nado, um caudaloso e furioso rio e a cada braçada a correnteza levasse embora pedaços de tristeza, ressentimento e amargor. Então, encontravam-se na pedra, uma bem no meio do rio, e ali passavam um tempo imedível contorcendo seus corpos e furores.
Um dia os músculos fatigaram. A maratona tornou-se longa demais e as águas carregaram mais do que infelicidades.
Deixaram de se ver. Separaram-se, um processo concensioso. Não era mais possível, não aquela vida. Cada qual seguiu seu rumo. Pararam de se falar. Perderam até mesmo as notícias um do outro.
Dez anos. Dez anos.
E a internet reconectou seres perdidos ao vento. Redes sociais promoveram reencontros, ao menos virtuais. Ao menos notícias. Pouco a pouco começaram a encontrar amigos em comum daquela época. E então, reencontraram-se. Uma fala tímida. Poucas mensagens trocadas. Atualizações sobre a vida, sobre como estava fulano ou ciclano, o que estavam fazendo ou deixando de fazer. Meses. Meses em uma conversa insossa. E a pontada no peito mais aguda. A cada dia, a cada mensagem. Mais aguda, mais forte, mais voraz.
Aquela velocidade voltou a invadir o peito e decidiram rapidamente de impulso em um dia se reencontrarem e se verem era necessário ambos queriam confessaram um ao outro que se rever ver ver o outro olhar no olho toda aquela intensidade de meninez que um dia tiveram e que os deixou inquietos durante tantos anos...
...
Seria amor?
Precisava dar nome?
Acordaram em se ver em um lugar público. Uma praça. Um fim de tarde. Estavam com medo. Medo da reação real que um teria ao ver o outro, ou mesmo de sua própria reação.
Ela vestiu uma blusinha e uma saia, insinuantes. Ele costumava gostar de vê-la assim. Mas passou um perfume que ele odiava. Ele não aparou a barba, não se preocupou com o cabelo. Entrou no carro, mas voltou correndo para passar o perfume que ela amava!
Assim chegaram próximos ao local marcado. Cada qual estacionou seu carro a cerca de uma quadra da praça, em lados opostos. Vinham de lados diferentes da cidade. A passos ansiosos e inseguros chegaram. Viram-se de longe e pararam por um momento. Reconhecendo aquela figura tão familiar e agora tão diferente. Foi então que caiu uma gota, depois outra, para cada pingo um pequeno passo. E quando a chuva desprendeu sua timidez das nuvens os corpos perderam peso e flutuaram rapidamente para encontrar-se. E beijaram-se. Beijaram-se intensamente! Um beijo de 10 anos em alguns minutos. Não eram necessárias palavras. Deram-se as mãos e foram para o carro dela. Molhados, quentes. Para cada dois passos, um beijo. Para cada curva, um carinho. Para cada degrau, um abraço, um amasso. Em cada expiração, uma dose a mais de tesão. A cada não-pensamento, um movimento. Uma pausa. E músculos vivos relaxados no tapete da sala.
A noite começou assim que o sol tinha se despedido e tinha que terminar antes do sol nascer. Conto de fadas? Não, vida real, compromissos reais, medo real! Não amanheceriam deitados lado a lado. Não naquele dia. mas não foi preciso dizer isso. No meio da madrugada ele a deixou e caminhou. Como se não houvesse amanhã. Como se não houvesse gravidade. Deslizou por uma cidade cujas luzes sorriam para ele. E ele sorria de volta. O passo leve de quem tem uma perspectiva feliz. De quem, de repente, se sente capaz de mover uma montanha!
Um tropeço.
Tem um homem caído no chão. Um rapaz. Não deve passar dos 25 anos. Camisa suja, calça jeans suja em uma das pernas, a outra, sem o sapato. Mão direita fechada. Ele apenas entreabre os olhos e balbucia algo não entendível. Não poderia deixa-lo ali, ao relento. Com algum esforço levantou-o e carregou-o para o gramado. Uma árvore tinha seu caule bastante convidativo, ele mesmo seria capaz de dormir apoiado ali.  E ali deixou-o. Com ele uma garrafa de água. Certamente acordaria com sede, a sede dos que amargaram uma terrível noite, dias terríveis. A sede de quem pode sentir falta do mundo, ou de quem pode arrumar formas de rastejar-se em busca de água. Para lembrar-lhe que a água existe e de que tudo pode no mundo, deixou ali aquela garrafa, arrumada em um boteco nas cercanias.
E dali partiu, para nunca mais vê-lo.
E foi-se para o todo possível novo mundo que abria-se em seu caminho.

- Mãe! Gosto de passear aqui!
- É filha, porquê?
- Tem muitas flores! As casas tem flores!
- É mesmo!
- Você não acha que todas as casas deveriam ter flores?
- É verdade... deveriam mesmo...
- Quero mais flores em casa!
- Tome esta para você querida. Aqui, no seu cabelo.
- Ela é vermelha! Adoro vermelho mamãe! Obrigado!
- Está linda.
- Eba!
- Mãe, porque aquela moça está triste?
- Não sei filha.
- Será que é porque ela não tem flores?
- Talvez.
- Posso dar uma para ela?
- Claro!
- Aquela amarela?
- Acho que ela vai gostar!
- Mãe! Ela se assustou comigo! Tadinha! Mas ela parece fofa! Você viu que o cabelo dela é vermelho!? A minha flor é vermelha e o cabelo dela é vermelho! Acho que ela gostou da flor amarela que dei!
- É querida, eu acho que ela gostou mesmo, veja, está até olhando para frente!
- É...
- Ande um pouquinho mais rápido filha.
- Mamãe.
- Ahn?
- E aquele moço dormindo debaixo da árvore?
- Não sei, um desocupado, provavelmente.
- Mas ele tá sozinho, no chão e sem casa! E só tem um sapato! E não tem flor!
- É...
- Filha? Filha? O que você está fazendo? Volte aqui! Ei menina! Não pegue essas flores! Volte aqui! Ei! Ei! Não!
- Que horror! Nunca vi você tão desobediente!
- Mas mãe!
- Mas nada, que você foi mexer com aquele homem? E se ele acorda e pega você?
- Mas eu só coloquei as flores nele! Agora vai acordar mais feliz! Mais colorido!
- Você é impossível!
- Mas ele nem acordou! E tinha uma moeda na mão dele! Engraçado!
- Tá bom! Tá bom! Vamos embora logo daqui...
- Tomara que aquela moça veja ele. Ela vai gostar...
- Que você tá resmungando menina?
- Nada mãe...
--

Ele anda pela rua, em uma madrugada qualquer...
Passos trôpegos..
Um andar?
Não! Um cambalear...
Passos incertos a buscar algum chão, ou todo o chão. Ora a calçada é pequena demais, ora é a guia que abriga um pé frente ao outro que é larga e desafiante demais.
A lua cheia fulgura em uma noite de céu limpo. Ilumina as sombras e guia os lunáticos, as gestantes, os bêbados... dizem que também os lobisomens...
Também ilumina uma pequena moeda no chão.
Ahá! Ganhou a noite! Uma moeda!
Abaixa-se lentamente para pega-la, curvando as costas primeiro. Quase cai ao perder o equilíbrio para frente. Apoia-se nos joelhos. De cócoras, estica um dos braços pra alcançar a moeda, mas tira o apoio de uma das pernas e cai para trás.
A lua!
O grande olho prateado.
Penetrante, fixador. Atraente!
Ele não consegue se levantar, qualquer movimento a tiraria do foco. Perderia-a de vista, mesmo que apenas por um instante.
Insuportável!
Seria terrível!
A moeda!
Está ao alcance do pé!
Tira o sapato.
Meia chata.
Com os dedos a pega. Ela ameaça escorregar, mas não. Ele a tem. O pé vem até suas mãos, mas foge delas. Balança para um lado e para outro. Alguém o segure!!!
O grito ecoa. O prateado olhar se aproxima. Mal consegue erguer os braços agora.
Pára tudo. Corpo estático. Pé se aproximando. Agarra-o com as duas mãos para que não fuja mais. Enfim, a moeda!
A moeda e a lua.
A moeda, a lua e o olho.
Aquele olho!
Olho maldito! Olho torturador!
Estava muito claro! Tinham muitas luzes naquele bar!
Várias luas!
Então o olho entrou. Deslocando o ar. Causando impacto.
Todos o percebiam!
Moeda.
Gira. Gira. Um tapa para parar.
Aquele corpo se interpôs. O corpo e o olho, amantes. Deleitavam-se com bebidas alcoólicas enquanto todo o resto da platéia babava em suas belezas. Mas talvez não em sua apenas aparente felicidade.
Não era mais possível desviar o olho do olho.
A lua.
Um movimento e seria como perdê-lo por toda a eternidade. E provocava uma pressão ativa sobre os seres, sobre os outros pequenos corpos que os observavam. Algo que impelia o tórax para frente, os pés para baixo, um após o outro. Um apoio ativo das pálpebras contra os ossos, das pupilas contra as íris. Uma tensão absoluta entre maxilar e mandíbula. Ainda assim, para frente.
Para...
Uma escuridão.
Nem sabe mais como chegou ali.
Mas o olho está longe! Perscrutador! No céu.
Lágrimas. E um grito de dor.
As pálpebras pesam.
O olho vai se perdendo da vista, mas não da mão.
Escuridão.